sexta-feira, 21 de julho de 2017

Trans-formações: uma resenha do livro "Vidas trans"

A temática da transexualidade ou da transgeneridade tem sido bastante explorada pelos meios de comunicação e também no meio acadêmico. Só na rede Globo, por exemplo, o tema está sendo tratado na novela A força do querer, que possui um personagem transhomem, e foi retratado no início deste ano na série documental Quem sou eu? do programa Fantástico - o canal GNT, ligado à Globosat, também possui um programa especialmente dedicado ao tema, o Liberdade de gênero. Já no meio acadêmico, é possível observar que nunca tantas pesquisas, artigos, dissertações e teses foram feitas sobre o tema. Certamente isto tem um lado positivo: trazer à tona esta temática pode fazer com que gradualmente as pessoas trans, ainda fortemente invisibilizadas, marginalizadas e alvo de grande violência, sejam reconhecidas e respeitadas pela sociedade. No entanto, esta visibilidade possui um lado negativo: em grande parte das vezes as pessoas trans são meros "objetos" e não "sujeitos" da própria narrativa. Tais pessoas em geral são "personagens" e não "protagonistas" dos programas de TV e das pesquisas acadêmicas. Quase sempre os/as diretores/as e roteiristas de tais programas, os atores/atrizes que interpretam personagens trans e ainda os/as pesquisadores/as que estudam o "fenômeno trans" são pessoas cis, isto é, pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi atribuído ao nascimento. No caso da novela, por exemplo, quem interpreta o personagem trans é uma atriz cis, o mesmo ocorrendo em quase todas as novelas, filmes e séries que retratam pessoas trans - duas honrosas exceções ficam por conta das séries Orange is the new black, que possui uma personagem trans interpretada pela atriz Laverne Cox, e Sense8, dirigida pelas irmãs trans Lilly e Lana Wachowski e que possui em seu elenco a talentosa atriz Jamie Clayton, também trans. 

Tendo isto em vista, é com grande satisfação que me deparei com o livro "Vidas trans: a coragem de existir", recém-lançado pela editora Astral Cultural e escrito 100% por pessoas trans. Prefaciado pela famosa cartunista Laerte Coutinho (que foi recentemente retratada no documentário Laerte-se, disponível no Netflix) e também pela psicóloga, pesquisadora e blogueira Jaqueline Gomes de Jesus, autora dos livros Transfeminismo: teorias e práticas (2014) e Homofobia: identificar e prevenir (2015), "Vidas trans" traz quatro narrativas em primeira pessoa escritas por célebres pessoas trans brasileiras: 1) a travesti Amara Moira, que é doutoranda em teoria literária pela Unicamp, autora do livro E se eu fosse puta (2016) e colunista da Mídia Ninja em assuntos que envolvem gênero e direitos dos LGBTs e das profissionais do sexo; 2) o transhomem João W. Nery, que é psicólogo, autor da magnífica autobiografia Viagem solitária: memórias de um transexual 30 anos depois (2011) e o primeiro homem trans a ser operado no Brasil - em 1977, em plena ditadura militar (além disso João Nery dá nome ao Projeto de Lei de Identidade de Gênero, proposto pelos deputados federais Jean Wyllys e Érica Kokay e ainda em tramitação no Congresso Nacional); 3) a travesti Márcia Rocha, que é empresária, advogada integrante da Comissão de Diversidade Sexual da OAB, representante do Brasil no Comitê de Direitos Sexuais da World Association for Sexual Health (WAS) e uma das idealizadoras da Associação Brasileira de Transgêneros (Abrat) e do projeto Transempregos (além disso Márcia Rocha foi a primeira advogada travesti a ter registrado o nome social na carteira da OAB) e 4) o transhomem T. Brant (antes Tereza Brant e agora Tarso Brant), que é ator e modelo, serviu de inspiração para o personagem trans de A força do querer e agora compõe o elenco da novela (além disso, Tarso Brant é também youtuber, sendo responsável pelo canal/blog Ela ou ele)  

Amara Moira, João W. Nery e T. Brant
No livro, cada uma destas pessoas conta a sua própria história. São narrativas de dor, mas também de crescimento e superação e que expõem muitas das dificuldades vivenciadas pelas pessoas trans no Brasil. Estas histórias, embora tenham elementos bastante peculiares, trazem alguns pontos em comum: a  falta de identificação, desde criança, com o gênero atribuído ao nascimento e, pelo contrário, uma grande identificação com as vestimentas, características e pessoas do outro gênero; grande dificuldade para "sair do armário" e agir publicamente conforme o gênero que se identifica (no livro, há vários relatos de "vida dupla", na qual em público a pessoa atuava, literalmente atuava, de acordo com o gênero "estabelecido" e somente na vida privada agia livremente segundo o gênero "sentido"); dificuldades relacionadas à rejeição da família, dos amigos e da sociedade em geral; a importância da internet e das redes sociais para a descoberta e interação com outras pessoas trans; a insatisfação com o próprio corpo, o processo de hormonização, as cirurgias, etc. Os relatos também tocam em uma série de entraves bastante comuns à população trans, como a dificuldade em alterar legalmente o nome civil, que gera inúmeros constrangimentos e violências cotidianas, a dificuldade em conseguir emprego, que leva muitas pessoas trans, especialmente as mulheres, à prostituição (o projeto Transempregos atua justamente nesta questão), e, finalmente, dificuldades relacionadas ao processo de transformação corporal. Enfim, as tocantes narrativas presentes neste livro nos permitem adentrar momentaneamente na vida destes indivíduos e compreender os seus pontos de vista, suas dores e suas alegrias. E com isso podemos exercitar nossa empatia e entender ou relembrar que existem inúmeras formas de viver o gênero (e a sexualidade) para além daquelas que a sociedade julga "normal".

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Entre o medo do Alzheimer e as práticas de neuroaprimoramento

Como já apontei anteriormente, tem se disseminado pelo Brasil e pelo mundo produtos e serviços voltados para o aprimoramento cognitivo - também chamado de aprimoramento cerebral ou neuroaprimoramento. Diversas "academias cerebrais" tem se espalhado pelo país (caso, por exemplo, das empresas Supera e Ginástica do cérebro) assim como inúmeros produtos de "neurofitness" ou "neuróbica", inclusive remédios e suplementos. Em comum, todas ou quase todas estas iniciativas tem como foco primordial o desenvolvimento intelectual da criança e do jovem assim como a prevenção do "declínio cognitivo" na terceira idade. Especialmente neste último caso, a ideia, bastante questionada no campo científico, é que os neuroexercícios e neuroprodutos agiriam para impedir ou, ao menos, minimizar as possibilidades da pessoa desenvolver doenças cerebrais sérias e debilitantes como o Alzheimer e outras demências, cada vez mais comuns na população idosa. De certa forma - e isto é ao mesmo tempo tão óbvio e tão surpreendente - todo este espectro de neuropráticas está ancorado no enorme medo que grande parte das pessoas sente de desenvolver doenças como Alzheimer. 

Diversos estudos tem comprovado este medo e até mesmo uma escala foi desenvolvida para avaliá-lo, a Escala de Medo da Doença de Alzheimer (em inglês Fear of Alzheimer's Disease Scale - FADS). Uma pesquisa publicada em 2012, por exemplo, examinou um grupo de franceses e constatou que 60% deles possuía grande medo de desenvolver a doença. Esta atitude, de acordo com o estudo, esteve fortemente relacionada à idade, tornando-se predominante entre os idosos. No grupo de meia-idade, o medo era maior em mulheres "com pouca auto-percepção de saúde" e, em particular, naquelas que cuidavam ou já cuidaram de alguém com a doença - e cabe apontar que o cuidado da pessoa com Alzheimer, assim como toda forma de cuidado, frequentemente recai sobre as mulheres (netas, filhas, esposas ou cuidadoras profissionais). De uma forma geral, ser um cuidador ou conhecer alguém com a doença se relacionou fortemente com o medo do Alzheimer, especialmente entre adultos mais jovens. Já uma pesquisa norte-americana realizada em 2014 pela Alzheimer's Association identificou a doença de Alzheimer como a segunda doença mais temida pela população, sendo superada apenas pelo câncer. Em outra pesquisa, publicada em 2016, o Alzheimer aparece em primeiro lugar, superando tanto o câncer quanto outras doenças como o HIV e o diabetes. Neste caso, os pesquisadores não encontraram qualquer variação significativa em função da idade mas, como no primeiro estudo citado, o medo esteve fortemente relacionado à proximidade dos entrevistados com a doença.

Neste último estudo, os autores apresentam uma série de possíveis explicações para o grande medo da doença de Alzheimer (e também do câncer) demonstrado pela população pesquisada. Em primeiro lugar, não há uma cura para a doença e existem poucas e insuficientes opções de tratamento - já no caso do câncer a remissão completa é possível e os tratamentos vem evoluindo consideravelmente ao longo dos anos. Em segundo lugar, uma característica central do Alzheimer é o declínio progressivo nas habilidades cognitivas. Em uma sociedade como a nossa, que valoriza imensamente a racionalidade e o crescimento intelectual, a perda da memória e do intelecto é motivo de grande preocupação - o que não ocorre em outras culturas. Imaginar o esquecimento do passado e das pessoas queridas e a perda da autonomia de cuidar de si mesmo, gera pânico em algumas pessoas. Em terceiro lugar, os autores apontam para o grande foco dado pela mídia à doença de Alzheimer e  ao câncer. De acordo com uma pesquisa citada por eles, 5% de todas as notícias relacionadas à saúde nos jornais ingleses dizia respeito, no período analisado, à doença de Alzheimer. De acordo com os pesquisadores, ao mesmo tempo em que essa divulgação pode fornecer informações relevantes e até mesmo incentivar a adoção de práticas saudáveis, tais notícias podem contribuir para a ampliação do pânico da população com relação a certas doenças, em especial o câncer e o Alzheimer, gerando uma espécie de hipocondria social. Finalmente, os autores apontam para a hipótese de que o medo da doença de Alzheimer e do câncer está relacionado a uma percepção de falta de controle. Como afirmam em determinado momento, "os indivíduos tendem a temer o que não podem controlar". Como a ideia de prevenção do câncer e da doença de Alzheimer ainda é bastante questionável e incerta, muitos indivíduos se amedrontam com a possibilidade de que nada - ou muito pouco - pode ser feito para evitar o problema. No caso das doenças cardiovasculares, por exemplo, existem ações (exercícios físicos regulares, alimentação equilibrada, etc) que efetivamente contribuem para sua prevenção, o que aumenta a sensação de controle. Talvez por isto, poucas pessoas na pesquisa (somente 2%) tenham sinalizado para um grande medo de tais doenças - que, curiosamente, são as que mais matam no mundo.

Tendo em vista esse enorme medo social da doença de Alzheimer e também esta sensação de falta de controle, não é de estranhar - aliás, é bastante compreensível - que muitas pessoas recorram a controversos métodos de prevenção da doença. Inúmeros indivíduos tem participado de atividades de "ginástica cerebral" que incluem treinamento com ábaco, jogos de concentração e memória, palavras cruzadas, xadrez, dinâmicas de grupo, etc. Outros tem praticado exercícios disponíveis em livros como "Dicas para simples para previnir o Alzheimer". Outros recorrem ainda a determinados alimentos, remédios ou suplementos que, teoricamente, atuariam na prevenção ou, ao menos, no adiamento da doença. Enfim, os métodos empregados são variados e, em geral, não existem evidências científicas que os amparem - o que não significa, cabe apontar, que tais métodos não funcionem ou que não podem fazer bem para a pessoa. Afinal, como dizia o astrônomo Carl Sagan quando questionado sobre a existência de seres alienígenas, ausência de evidência não é evidência de ausência.

Um estudo brasileiro publicado em 2012 avaliou a literatura científica existente relativa à prevenção e ao atraso na instalação das demências e o que os autores encontraram, em resumo, foi que "a prevenção da doença demencial possui característica multifatorial e depende do estilo de vida que o adulto hoje adquire e pretende manter até a longevidade. Tipo de dieta, saúde emocional, engajamento social, atividade cognitiva e diminuição dos fatores de risco vascular são itens de potencial importância na prevenção deste mal. Além desses, vários outros fatores podem ser citados, uma vez que a combinação de diversos padrões de comportamento resulta em saúde na sociedade que envelhece". Enfim, aquilo que tem "potencial importância" na prevenção da doença de Alzheimer são algumas ações que as pessoas praticam ao longo de muitos anos e décadas - e não atividades realizadas de forma pontual em aulas de "neurofitness". A verdadeira "ginástica cerebral", poderiam dizer os autores, está relacionada com a prática constante, desde a juventude ou da vida adulta, de atividades como o exercício físico, alimentação equilibrada, envolvimento em atividades sociais, atividade cognitiva (que se refere à atividade intelectual ao longo da vida, relacionada, por exemplo, ao estudo formal ou informal), dentre outras coisas. Em suma, o que teria algum potencial de previnir o Alzheimer seriam as mesmas atividades e atitudes que contribuem para a saúde física e mental dos indivíduos em geral, sejam jovens, adultos ou idosos.

Para finalizar esta discussão gostaria de trazer algumas interessantes reflexões feitas pelas pesquisadoras Cliodhna O'Connor e Saskia Nagel em um artigo publicado em Março de 2017 no periódico Frontiers in Sociology. Neste artigo, denominado Neuro-Enhancement Practices across the Lifecourse: Exploring the Roles of Relationality and Individualism [Práticas de neuroaprimoramento ao longo da vida: explorando os papéis da relacionalidade e do individualismo], as autoras questionam a ideia, bastante disseminada na literatura científica sobre o neuroaprimoramento, de que tais práticas promovem o valor cultural do individualismo. De acordo com esta visão, ao buscar práticas de aprimoramento cerebrais os indivíduos, egoístas, estariam simplesmente almejando a melhora do próprio desempenho e da própria produtividade - e também a  prevenção de futuros problemas individuais, como a doença de Alzheimer. O problema desta visão, segundo as autoras, é que ela é extremamente limitada e não consegue dar conta da complexidade do fenômeno. Em especial, elas apontam que esta perspectiva deixa de fora o fato de que nós, humanos, somos seres relacionais: vivemos e convivemos continuamente com outras pessoas e estas pessoas compõem o que somos e influenciam nossas decisões e ações. Como bem afirma o sociólogo Norbert Elias no belo livro A solidão dos Moribundos, "somos parte uns dos outros".

Esta "relacionalidade", como as autoras denominam, está presente também nas práticas de neuroaprimoramento, inclusive naquelas utilizadas com o objetivo de prevenir a doença de Alzheimer. Isto significa que ao buscar atividades de "ginástica cerebral" ou determinados medicamentos, o sujeito não está simplesmente pensando "eu quero previnir a doença de Alzheimer porque desenvolvê-la seria péssimo para mim, para minha vida, para meu desempenho" mas principalmente "eu quero previnir a doença de Alzheimer porque desenvolvê-la seria péssimo para mim, para minha família e para todas as pessoas que eu amo. Não quero me tornar um fardo para eles". Como apontam os autores do artigo, a justificativa de muitas pessoas para se engajarem em práticas de neuroaprimoramento está relacionada não simplesmente a possíveis repercussões negativas do Alzheimer em si mesmas mas nas pessoas que amam - estas sim consideradas as "verdadeiras vítimas" da doença. Enfim, o que as autoras querem dizer de uma forma geral é que as atividades de neuroaprimoramento não negam a conectividade dos indivíduos uns com os outros; pelo contrário, tais práticas estão totalmente integradas à "relacionalidade" humana. Longe de serem ações egoístas feitas por individuos autocentrados focados somente no próprio desempenho, as práticas de neuroaprimoramento são tentativas de responder ao medo individual e social daquilo que foge ao nosso controle - e das pessoas que amamos. 

Update 25/07/17: Em um artigo publicado na revista The Lancet no último dia 20, os membros de uma Comissão criada pela revista para rever a literatura científica relacionada à prevenção e manejo das demências, apontaram para nove "fatores de risco potencialmente modificáveis" que, se eliminados, poderiam prevenir pelo menos um terço dos casos de demência. São eles: baixo nível educacional na infância, perda auditiva, hipertensão, obesidade, tabagismo, depressão, sedentarismo, isolamento social e diabetes. De acordo com os autores a teoria geral é de que haveria uma "janela de oportunidade" na meia-idade para a prevenção das demências na terceira idade. Isto não significa, cabe esclarecer, que eliminar tais fatores de risco eliminará necessariamente o desenvolvimento da doença de Alzheimer, mas sim que a adoção de determinados comportamentos saudáveis diminui a probabilidade de desenvolvê-la. Nada é dito no artigo sobre a eficácia ou não das técnicas de neuroaprimoramento.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

"Ex Machina" e o Teste de Turing

No ano de 1950, o matemático e pioneiro da ciência da computação Alan Turing publicou na revista Mind um impactante e até hoje influente artigo que tem início com uma pergunta instigante: podem as máquinas pensar? No entanto, diante da dificuldade em definir o que seria um pensamento, Turing propôs substituir esta questão por outra, mais palpável: podem as máquinas imitar a linguagem humana? A ideia por trás desta questão é relativamente simples: se uma máquina consegue se comunicar como um ser humano pressupõe-se que ela pensa como um ser humano - e que, portanto, ela tem uma mente ou uma consciência. E para tentar responder esta questão Turing propôs um teste, que possibilitaria a diferenciação entre máquinas (e pessoas) "pensantes" e máquinas que não podem pensar - curiosamente Turing não considerou a possibilidade, bastante concreta, de existirem pessoas que não pensam... Pois bem, neste artigo Turing denomina este teste de "jogo da imitação" (não por acaso o mesmo título de um interessante filme sobre sua vida lançado em 2014), mas atualmente este teste é conhecido simplesmente como Teste de Turing. Provavelmente você já ouviu falar deste teste e certamente já participou dele. Não acredita? Pois eu não tenho dúvida que em algum site que você já entrou em sua vida você teve que digitar algumas palavras distorcidas, letras ou números ou então clicar em um botão escrito "eu não sou um robô". Em todos esses casos você participou de um teste de Turing, mais especificamente de um CAPTCHA, sigla da expressão "Completely Automated Public Turing test to tell Computers and Humans Apart" que em português significa "Teste de Turing público completamente automatizado para diferenciação entre computadores e humanos".

"Fale como um humano" 

Em essência, o "jogo da imitação" ou Teste de Turing se propõe a testar a capacidade de uma máquina de exibir comportamento linguístico equivalente e indistinguível ao de um ser humano. Sua ideia é simples: um "jogador" interage livremente através de um computador com uma pessoa, que se encontra em outra sala, e também com um programa de computador, que tenta simular uma conversa humana. Caso o jogador não consiga, através destas conversas virtuais, diferenciar humano de máquina, então a máquina é considerada inteligente ou pensante. Por outro lado, caso o jogador consiga diferenciar humano de máquina, então a máquina não é considerada inteligente. Isto significa que para um programa ser considerado realmente inteligente ele precisa imitar com brilhantismo a complexa comunicação humana. No entanto, o que o Teste de Turing deixa de fora é uma questão ainda mais complexa: como diferenciar uma máquina que realmente pensa de uma máquina que simula o pensamento? Enfim, como saber se uma suposta inteligência artificial possui de fato uma consciência de si e do mundo ou se ela apenas simula possuir uma consciência? Pois este é justamente o mote do complexo e maravilhoso filme Ex-Machina, lançado em 2015 e atualmente disponível no Netflix.

O filme tem início em um dos inúmeros prédios da mega-empresa Blue Book - empresa equivalente ao Google e cujo nome é inspirado em um livro de notas do filósofo Ludwig Wittgenstein, um dos maiores pensadores acerca da linguagem humana. Neste local, um jovem programador de 26 anos chamado Caleb Smith descobre que foi sorteado para passar uma semana na companhia do excêntrico e solitário CEO da empresa, Nathan Bateman. Mesmo sem saber o propósito desta visita, Caleb aceita a missão e é conduzido de helicóptero à gigantesca propriedade de Nathan, onde ele construiu não somente sua casa mas também um moderno e tecnológico centro de pesquisas. Chegando lá, Caleb rapidamente descobre sua função durante esta semana: ele será o "jogador", isto é, o elemento humano, de um Teste de Turing criado para avaliar um avançado modelo de Inteligência Artificial (IA) desenvolvido por Nathan - na verdade, como no filme Ela, trata-se de uma IA do gênero feminino chamada Ava (provavelmente em homenagem à Eva, a primeira mulher bíblica). No entanto, como questiona Caleb à Nathan, em um Teste de Turing tradicional "a máquina deve estar escondida do examinador", o que não ocorre neste caso, pois a androide Ava possui um corpo e interage diretamente com ele, embora separados por vidros. 

Mas Nathan acredita que esta etapa já teria sido superada. Segundo ele, "se eu escondesse Ava, assim você só ouviria a voz dela, e ela passaria por humana. O teste real é mostrar para você que ela é um robô e depois ver se você ainda sente que ela tem consciência". Trata-se, portanto, não de um "jogo de imitação" tal qual foi proposto por Alan Turing em 1950, mas de um desdobramento deste jogo que teria como objetivo avaliar não a capacidade de comunicação de uma IA mas se ela de fato possui uma consciência. Enfim, o que Nathan quer saber não é se Ava simula bem a comunicação e o comportamento humano - o que ele já sabe que ela faz - mas se ela de fato tem consciência de si e do mundo. Não se trata de uma questão simples. Como bem aponta Caleb em certo momento, existem duas formas de testar um jogo virtual de xadrez (como o Deep Blue, que em 1997 derrotou o campeão mundial Garry Kasparov). A primeira forma, mais simples, é "jogar com ele para ver se ele joga bem", afirma Caleb. "Mas isso", continua, "não demonstra que ele sabe que está jogando xadrez. E não diz se ele sabe o que é xadrez". Avaliar a consciência de determinado programa ou máquina é, na sua visão, o grande desafio. Como afirma para Nathan, tentar diferenciar entre simulação e realidade "é o Teste de Turing que você quer que eu faça". E é justamente o que ele se dispõe a fazer nas sessões diárias que tem com Ava. (ATENÇÃO: a partir deste momento serão revelados muitos spoliers!!!)

Nestas sessões, Caleb e Ava simplesmente conversam. Inicialmente ele faz as perguntas e ela responde, até que ela começa a ficar incomodada com isso. "Você aprende sobre mim e eu não aprendo nada sobre você. Uma amizade não é baseada nisso", afirma Ava, demonstrando sentimentos complexos como raiva, rancor e tristeza. Em outro momento, após Caleb contar sobre o acidente que matou seus pais e lhe feriu, Ava demonstra novamente tristeza - e também, de forma ainda mais surpreendente, empatia. Em outra situação, Ava faz chacota com Caleb, o que para ele, como relata mais tarde para Nathan, é a "melhor indicação de inteligência artificial que eu vi até agora. [Fazer uma deboche] é discretamente complicado, como se ela pensasse antes de dizer. Ela só poderia fazer isso com uma consciência de sua mente e também da minha". Mais adiante, na terceira sessão, Ava demonstra ainda mais sua humanidade ao colocar um vestido e uma peruca, escondendo, assim, as partes metálicas de seu corpo e se tornando, pelo menos visualmente, uma mulher. "Eu me vestiria assim para o nosso primeiro encontro", diz Ava para Caleb numa clara tentativa de seduzi-lo. Mas para além deste ato, a sensibilidade de Ava e também o aprisionamento que Caleb enxerga na vida dela - que reflete de certa forma o aprisionamento que ele próprio está submetido na mansão de Nathan - leva Caleb a, aos poucos, se interessar afetivamente por Ava - e, aparentemente, também ela por ele. No entanto, como ele descobrirá mais tarde, isto não passa de uma ilusão.

Durante a quarta sessão, Caleb conta para Ava um experimento mental chamado "Mary no quarto em preto e branco" que ele escutou durante uma disciplina sobre Inteligência Artificial na faculdade. Conta Caleb: "Mary é uma cientista e ela é especialista em cores. Ela sabe tudo a respeito: os comprimentos de onda, os efeitos neurológicos,  todas as possíveis propriedades de uma cor. Mas ela mora em um quarto preto e branco. Ela nasceu e foi criada lá. E ela só pode observar o mundo exterior através de um monitor em preto e branco. Então um dia alguém abre a porta e ela sai de lá. Ela vê o céu azul. Naquele momento ela aprende algo que seus estudos não lhe ensinaram. Ela aprende como é ver as cores. O experimento era para mostrar aos alunos a diferença entre um computador e a mente humana. Mary é o computador no quarto em preto e branco. O humano é quando ela sai de lá". Este interessante experimento mental foi criado pelo filósofo Frank Jackson para um artigo clássico publicado por ele em 1982 (cuja tradução está disponível aqui) com o objetivo de questionar o fisicalismo, isto é, a visão de que tudo o que existe é físico. Segundo Jackson, a história de Mary sinaliza para o entendimento de que a realidade não se reduz à sua natureza física, afinal conhecer a física das cores não lhe possibilita conhecer todos os aspectos das cores. Sempre faltará algo neste conhecimento. Como ele afirma no artigo, o conhecimento prévio de Mary "estava incompleto. Contudo, ela tinha todas as informações físicas. Portanto, há mais informações físicas e o Fisicalismo está errado". De toda forma, acho interessante a maneira como este experimento é utilizado no filme por Caleb, não para criticar a visão fisicalista mas para diferenciar ele, um humano, dela, uma máquina. Em sua visão, o que os diferencia é que ele tem - ou teria - uma vida subjetiva e uma experiência de mundo que ela não tem. 

Tudo o que ela sabe e tudo que ela é - descobrimos em certo momento - vem de informações extraídas do sistema de buscas do Blue Book assim como de informações obtidas ilegalmente dos microfones e câmeras dos celulares de todo o mundo. Ava tem, assim, um enorme conhecimento "teórico" sobre tudo - como a cientista Mary do experimento - mas lhe falta vivência no mundo real e também a subjetividade que somente um ser humano poderia ter. No caso da subjetividade, pelo menos é assim que pensava Caleb inicialmente. Com o passar dos dias, ele não simplesmente se convence de que Ava de fato possui uma consciência e uma vida subjetiva como se apaixona por ela e ainda elabora um plano para retirá-la da prisão em que vive - e também para evitar que ela seja desligada. No entanto, Nathan descobre seu plano e ainda revela a Caleb que Ava foi programada para se utilizar de todos os artifícios para tentar escapar dali. Como afirma em certo momento, "Ava era um rato num labirinto. E eu dei uma saída para ela. Ela teria que usar autopercepção, imaginação, manipulação, sexualidade, empatia. E ela fez isso. Agora se isso não for IA de verdade, que diabo é?". E Caleb ainda descobre ter sido escolhido (e não sorteado) para este "teste" em função de seu perfil: um sujeito jovem sem família e sem namorada, carente e susceptível a se apaixonar por uma jovem mulher frágil que demonstra interesse - e para aumentar ainda mais esta suscetibilidade, Nathan fez o rosto de Ava baseado em suas preferências pornográficas. Nathan conclui, dirigindo-se para Caleb: "o teste deu certo. Foi um verdadeiro sucesso. Ava demonstrou IA de verdade e você foi fundamental para isso".

A partir deste momento, como é de praxe em quase todos os filmes de ficção científica, a criatura se volta contra o criador (já comentei sobre isso em outro post, quando debati a série Westworld). O plano de Caleb, apesar da descoberta de Nathan, dá certo e Ava é solta de sua sala. Em seguida, ela e uma outra androide, a Kyoko, esfaqueiam e matam Nathan e deixam Caleb preso. Mais adiante, Ava se veste de humana, colocando pele artificial, roupas e peruca e sai da mansão de Nathan, adentrando no mundo exterior. Agora, independente da resposta para a questão inicialmente formulada para Caleb (Ava possui ou não uma consciência?), Ava passa a ser reconhecida pelos demais seres humanos como uma humana - a última cena do filme ilustra isso. Mas será que de fato Ava virou uma ex-máquina, como sugere o título do filme (que ainda faz referência à expressão latina deus ex machina)? Difícil dizer. Na vida real ainda estamos muito distantes de uma androide como Ava. O campo da inteligência artificial apesar de ter avançado enormemente nas últimas décadas, ainda permanece em grande parte focado no desenvolvimento de inteligências e habilidades específicas (como demonstram alguns programas de tradução, atendimento e direção de veículos autônomos) e não tanto de uma inteligência geral como Ava, que ainda é um sonho/pesadelo distante. O Premio Loebner, que realiza anualmente o Teste de Turing tal como descrito pelo matemático inglês, ainda não teve um vencedor - apesar disto ter sido incorretamente divulgado pela imprensa em 2014 (o que aconteceu, de fato, foi que neste ano um programa de computador, denominado Eugene, convenceu 33% dos jurados de uma outra competição). Enfim, ainda estamos bem distantes da possibilidade apontada por Nathan de que "um dia as IAs irão nos olhar da mesma forma que olhamos para fósseis nas planícies da África. Um primata ereto vivendo no pó com linguagem e ferramentas primitivas, tudo pronto para a extinção".

Argumento do Quarto Chinês (John Searle)
De toda forma, uma questão permanece: ainda que a área de IA avance enormemente nos próximos anos e décadas, será que um dia teremos, de fato, máquinas "pensantes"? Existem muitos céticos com relação a esta possibilidade. O filosofo John Searle, por exemplo, acredita que uma máquina ou um programa não pensam e jamais poderão pensar. Segundo ele, nenhuma máquina jamais terá, como nós, uma compreensão daquilo que faz; ela simplesmente faz. Como afirma em seu clássico artigo Mentes, cérebros e programas, publicado em 1980, "o computador não compreende nada da mesma maneira que o carro e a máquina de somar também não compreendem nada". Para Searle, dizer que uma máquina ou um programa pensam é como dizer que um pagapagaio fala, quando, de fato, ele só repete certos sons que não fazem qualquer sentido para ele - ou então como dizer que aquele piano mecânico da série Westworld entende de música, quando "ele" só reproduz automaticamente uma série de sons. Um computador, da mesma forma, por mais avançado que seja, apenas possui a capacidade de realizar determinadas operações computacionais, sem nada entender a respeito daquilo que faz. Não há consciência possível em uma máquina. O famoso argumento do "quarto chinês" de Searle (que está descrito aqui) só reforça este entendimento. Em sua visão, a consciência é uma propriedade exclusiva de certos organismos biológicos. Para haver consciência, afirma Searle, é necessária uma biologia muito peculiar, como a nossa. Imaginar que um software possa produzir consciência (ou que esta possa emergir dele) é, para ele, como imaginar, programas de computador produzindo fenômenos biológicos complexos como a fotossíntese ou a lactação, ou seja, algo impossível. Isto significa que ainda que consigamos um dia construir uma máquina "inteligente" como Ava muito provavelmente "ela" teria a mesma consciência de si e do mundo que uma calculadora ou que um celular, isto é, nenhuma. A menos, é claro, que consigamos reproduzir artificialmente toda a complexidade do corpo e do cérebro humanos, o que não é nada simples. Feliz ou infelizmente ainda estamos muito distantes dessa possibilidade.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

O acerto de Descartes

Muito já foi dito e escrito sobre os “erros” ou “mitos” criados ou disseminados pelo filósofo renascentista René Descartes (1596-1650), especialmente sobre sua visão dualista da alma e do corpo, constantemente taxada de equivocada e superada. Por exemplo, o filósofo inglês Gylbert Ryle (1900-1976), no primeiro capítulo do clássico livro de filosofia da mente Concept of mind [Conceito de mente, 1949], intitulado O mito de Descartes, faz duras críticas ao dualismo cartesiano (Cartesius é o nome latino de Descartes), chamado por Ryle, devido à sua abrangência e influência, de teoria ou doutrina "oficial". De acordo com este autor, esta teoria “que vem principalmente de Descartes”, pode ser descrita da seguinte forma: “com as duvidosas exceções dos idiotas e das crianças de colo, todo ser humano tem um corpo e uma mente. Alguns prefeririam dizer que todo ser humano é um corpo e uma mente. O seu corpo e sua mente são geralmente reunidos, mas depois da morte do corpo sua mente poderia continuar a existir e funcionar”. Ainda que este entendimento de que o corpo é mortal e a alma imortal seja muito anterior a Descartes (basta ler a obra Fédon de Platão, escrita por volta do ano de 347 A.C, para perceber isso), Ryle volta sua mira contra a concepção dualista do filósofo francês, também chamada por ele de “dogma do fantasma na máquina” (fantasma=alma/mente, máquina=corpo), expressão que se tornou célebre. Em sua visão, este dogma, que supõe a existência de “duas espécies diferentes de existência ou estatuto (a mente e o corpo)” é “inteiramente falsa”, além de “um grande erro”. Um mito, enfim.

Esta perspectiva crítica ao dualismo cartesiano atingiu seu ápice com a publicação, em 1994, do famoso livro “O erro de Descartes”, escrito pelo neurocientista português Antônio Damásio. Muito embora o objetivo principal desta obra seja apresentar uma teoria neurocientífica sobre a “emoção, a razão e o cérebro humano” (como bem aponta seu subtítulo, que seria mais adequado como título), Damásio acaba por voltar sua sua mira para Descartes, realizando uma série de críticas aos supostos dualismos criados ou disseminados por ele, em especial aos dualismos corpo/alma e razão/emoção. Na verdade, em todo o livro há cerca de 30 menções ao filósofo, praticamente todas elas concentradas no último capítulo, momento em que Damásio finalmente explica qual foi, na sua visão, o tal erro de Descartes. E sua resposta para esta questão é a seguinte: "É esse o erro de Descartes: a separação abissal entre o corpo e a mente, entre a substância corporal, infinitamente divisível, com volume, com dimensões e com um funcionamento mecânico, de um lado, e a substância mental, indivisível, sem volume, sem dimensões e intangível, de outro; a sugestão de que o raciocínio, o juízo moral e o sofrimento adveniente da dor física ou agitação emocional poderiam existir independentemente do corpo. Especificamente: a separação das operações mais refinadas da mente, para um lado, e da estrutura e funcionamento do organismo biológico, para o outro". Enfim, o erro de Descartes é o erro do dualismo radical entre corpo e alma/mente - na verdade, Damásio deixa bem claro que este erro não teria sido cometido apenas por Descartes, sendo este filósofo apenas um "símbolo de um conjunto de ideias acerca do corpo, do cérebro e da mente que, de uma maneira ou de outra, continuam a influenciar as ciências e as humanidades no mundo ocidental". Mas será que esta é realmente a visão de Descartes? Pretendo neste post acessar diretamente o texto do filósofo (através da melhor tradução disponível em português, publicada pela coleção Os pensadores) para verificar até que ponto estas críticas são pertinentes.

Após ler com atenção as principais obras do filósofo, com destaque para as Meditações metafísicas e As paixões da alma, é impossível não concordar com os autores do artigo Os acertos de Descartes (2016), segundo os quais, “Descartes não foi um dualista do tipo como normalmente se supõe”. Isto porque em inúmeras passagens de sua obra, Descartes aponta para uma significativa e constante interação entre corpo e alma, o que faz dele não simplesmente um dualista (que de fato ele é), mas um dualista interacionista. Como bem apontam os autores do referido artigo, para Descartes "o binômio mente-corpo diz respeito a entidades diferentes porém unificadas". Ao contrário da “separação abissal” entre corpo e alma enxergada por Damásio em Descartes, o próprio Descartes não vê as coisas desta forma, como se pode observar das seguintes passagens extraídas do tratado As Paixões da alma: “Não notamos que haja algum sujeito que atue mais imediatamente contra nossa alma do que o corpo ao qual está unida e que, por conseguinte, devemos pensar que aquilo que nela e paixão é comumente nele uma ação”; “A experiência mostra que os mais agitados por suas paixões não são aqueles que melhor as conhecem e que elas pertencem ao rol das percepções que a estreita aliança entre a alma e o corpo torna confusas e obscuras”; “É necessário saber que a alma está verdadeiramente unida ao corpo todo e que não se pode dizer que ela esteja em qualquer de suas partes com exclusão de outras, porque o corpo é uno e de alguma forma indivisível”. Em todos estes trechos é possível observar uma visão de integração entre corpo e alma e não uma separação radical entre estas duas substâncias. Ou seja, aquilo que é visto por Damásio como o principal erro de Descartes não passa de um mal entendido, ou melhor, de um erro de Damásio.

No centro, a glândula pineal
De fato, Descartes postula a existência de duas substâncias distintas e irredutíveis (corpo e alma) - e exatamente por isso seu dualismo é também chamado de dualismo de substâncias. No entanto, o filósofo também postula a existência de um ponto de contato entre estas duas substâncias: a glândula pineal, uma pequena glândula endócrina localizada no centro do cérebro, entre os dois hemisférios. Para Descartes é neste local que a alma age sobre o cérebro e sobre o resto do corpo. Como afirma no tratado As paixões da alma, "a parte do corpo em que a alma exerce imediatamente suas funções não é de modo algum o coração, nem o cérebro todo, mas somente a mais interior de suas partes, que é uma glândula muito pequena situada no meio de sua substância". Em outra passagem da mesma obra, Descartes afirma: "a alma tem sua sede principal na pequena glândula que existe no meio do cérebro de onde se irradia para o resto do corpo". O entendimento de que é na glândula pineal que ocorre a interação entre corpo e alma, embora seja considerada ultrapassado pela neurociência contemporânea, teve a função, naquele momento, de reforçar a visão cartesiana de que alma e corpo são entidades distintas porém conectadas. E esta visão - substituindo-se, certamente, o conceito de alma pelo de mente - não é uma visão antiquada. Se Descartes de fato errou em termos fisiológicos - e ao ler As paixões da alma é possível constatar que sua visão do funcionamento do corpo humano foi claramente superada - em termos filosóficos sua visão dualista ainda permanece em disputa. Ainda que o dualismo de substâncias, defendido por Descartes, tenha gradualmente cedido lugar a um dualismo de propriedades, que concebe mente e corpo - e não mais alma e corpo - como tendo/sendo propriedades diferentes de uma única e mesma substância - o dualismo ainda não morreu e dificilmente morrerá.

"O dualismo cartesiano está morto!" Será?
Para que isto ocorra será necessário, antes de tudo, uma reforma completa de nossa linguagem, fortemente dualista. Desde a Grécia antiga contrapomos alma e corpo, razão e emoção, vida e morte, claro e escuro, bem e mal, justo e injusto, etc. Nossa vida cotidiana é permeada por inúmeros dualismos, dentre eles o dualismo cartesiano. Mas para além disso, nossa linguagem também é fortemente mentalista, o que representa um enorme desafio - creio eu, intransponível - para aqueles que propõem e desejam o fim do dualismo mente/corpo e a ascensão de uma visão estritamente monista-materialista - caso, por exemplo, dos adeptos do chamado materialismo eliminativo. Afinal, sempre que falamos em mente, consciência, pensamento, desejo e vontade somos mentalistas e, sempre que contrapomos tais expressões a outras como corpos, cérebros e sinapses, acabamos caindo em alguma forma de dualismo. Mesmo aqueles que pretendem romper com o dualismo cartesiano acabam, muitas vezes, se utilizando de uma linguagem dualista. É o caso, por exemplo, de Antônio Damásio. Ainda que o autor pretenda superar ou ir além do dualismo cartesiano, no livro O erro de Descartes ele se utiliza tantas e tantas vezes da expressão "mente" - e mesmo "alma" - que é curioso que ele não tenha notado o quão paradoxal isso é. Veja, por exemplo, estes trechos: "a mente existe dentro de um organismo integrado e para ele; as nossas mentes não seriam o que são se não existisse uma interação entre o corpo e o cérebro durante o processo evolutivo", "A mente teve primeiro de se ocupar do corpo, ou nunca teria existido", "Será sensato afirmar que sua alma [de Phineas Cage] foi prejudicada ou que a perdeu?"; "A alma respira através do corpo, e o sofrimento, quer comece no corpo ou numa imagem mental, acontece na carne". Em todas estas passagens - e eu poderia acrescentar muitas outras - é possível observar que Damásio se utilizou de uma linguagem mentalista e, consequentemente, dualista. Assim, embora o neurocientista seja extremamente crítico ao dualismo de Descartes - ao ponto de expressar isso no título de seu livro - ele acaba por cometer o mesmo "erro". Aliás, Damásio comete um erro duplo: ignora o interacionismo entre alma e corpo defendido por Descartes e ao mesmo tempo descamba num dualismo inconsciente, reproduzindo uma visão semelhante àquela que é por ele criticada.  

Descartes pode até ter errado em muitas de suas hipóteses e conjecturas - especialmente em seus postulados sobre o funcionamento do corpo humano -  mas muitos dos supostos erros atribuídos a ele não passam de enganos baseados em leituras equivocadas e rasas sobre sua obra. Este é o caso de uma significativa parte das críticas relacionadas à sua visão dualista. Mas questionemos: Descartes errou ao postular a existência de corpo e alma como duas realidades distintas e em constante interação? No meu ponto de vista, não. Embora a expressão "alma" tenha caído em desuso fora da esfera religiosa, a expressão "mente" aos poucos foi tomando o seu lugar e um novo dualismo - ou uma versão diferente do velho dualismo - surgiu: o dualismo mente-corpo, também chamado de dualismo mente-cérebro. E este dualismo, em minha visão, continua fazendo sentido. Ainda que poucos defendam a ideia de que se tratam de substâncias diferentes, muitos defendem - eu incluído - que se tratam de propriedades ou "realidades" diferentes. Enquanto a mente diz respeito à nossa subjetividade, à nossa consciência, aos nossos pensamentos e sentimentos, o corpo diz respeito à nossa anatomia e fisiologia, ao nosso cérebro com seus neurônios e sinapses. A mente certamente depende do corpo, especialmente do cérebro, mas não pode ser reduzida a ele, nem ele a ela - os métodos para o estudo de cada um também são diferentes. E é claro que mente e cérebro interagem, o que pode ser constatado ao analisarmos, por exemplo, o efeito placebo (em que a mente afeta o corpo) ou a sensação de dor (em que o corpo afeta a mente), mas ainda não está claro como esta interação de fato ocorre. De toda forma, a visão que mente e cérebro ou mente e corpo são realidades distintas não me parece incorreta e não foi provada incorreta - e nem poderia porque, assim como o monismo-materialista, trata-se de uma tese metafísica, geral e abrangente, que, como tal, não pode ser testada empiricamente. Enfim, se Descartes cometeu erros, não foi por postular uma visão dualista. Este foi, pelo contrário, um dos seus principais acertos. A tese dualista, apesar de todo o avanço das neurociências e das ciências naturais, continua firme e forte por aí questionando e se contrapondo às visões materialistas defendidas por alguns filósofos e muitos neurocientistas. Como bem aponta o filósofo, e especialista em Descartes, Claudinei Luiz Chitolina no livro Mente, cérebro e consciência: um confronto entre filosofia e ciência, "O anticartesianismo professado e preconizado por cientistas e filósofos contemporâneos deixa transparecer a relevância teórica que Descartes assume no debate filosófico e científico acerca da mente. Não se pode permanecer indiferente frente ao legado cartesiano. Contra ou a favor, combatendo ou defendendo Descartes, o filósofo que é considerado um marco teórico (divisor de águas) na história da filosofia, muitos filósofos e cientistas contemporâneos tornam atual o legado cartesiano". 
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quarta-feira, 24 de maio de 2017

A neuroeducação e o efeito de sedução das explicações neurocientíficas

Na última semana o periódico British Journal of Educational Psychology publicou um excelente artigo escrito pelos pesquisadores Soo-hyun Im, Keisha Varma e Sanshank Varma, da Universidade de Minessota nos EUA, intitulado Extending the seductive allure of neuroscience explanations effect to popular articles about educational topics [Estendendo o efeito de sedução das explicações neurocientíficas para artigos populares sobre tópicos educacionais]. Neste artigo os autores tentam responder a uma interessante questão: será que os textos de neuroeducação, campo recente e controverso que pretende aproximar os campos da neurociência e da educação, se beneficiam do chamado "efeito de sedução das explicações neurocientíficas"? Desde 2008, quando a pesquisadora Deena Weisberg e sua equipe publicaram o clássico artigo The seductive allure of neuroscience explanations [O fascínio sedutor das explicações neurocientíficas] - sobre qual já comentei em outro post - um significativo conjunto de evidências vem apoiando a ideia de que a mera menção a uma explicação neurocientífica ou a exposição de uma imagem do cérebro tem o poder de aumentar a confiança de muitas pessoas em determinado texto ou notícia. Por exemplo, dizer (ou mostrar) que o hipocampo se ativa quando a pessoa se lembra de alguma informação, acrescenta muito pouco para o entendimento de como funciona o processo de memória nos seres humanos. Tal informação (ou imagem) apenas cria uma localização ficticia para este complexo fenômeno e confirma o entendimento, óbvio, de que o cérebro está envolvido nos processos de memorização, mas nada diz sobre como nossa memória funciona. No entanto basta colocar uma informação como essa no texto - ou então uma imagem colorida do cérebro - para que cresça a confiança das pessoas nas informações disseminadas. O cérebro é sexy, poderíamos concluir.

Mas será que tal efeito ocorre também com os textos educacionais? Será que a mera presença de uma pseudoexplicação neurocientífica e/ou de uma imagem cerebral teria o poder de influenciar na credibilidade dada a determinado texto? Os já referidos pesquisadores decidiram colocar tais questões à prova e para isso utilizaram-se de uma metodologia semelhante e aperfeiçoada àquela utilizada por Deena Weisberg em 2008. Em primeiro lugar, eles recrutaram 245 participantes através da plataforma Amazon Mechanical Turk, um site que permite a remuneração de participantes voluntários em pesquisas. Em segundo lugar estes participantes responderam a uma série de questionários e avaliaram, ao fim, a confiança que concediam a um breve artigo sobre educação. O grupo foi dividido em 4 subgrupos. Para 1\4 dos participantes foi exibido um artigo contendo apenas uma explicação psicológica de determinado processo educacional; para 1/4, além da explicação psicológica foi acrescida uma pseudoexplicação neurocientífica (que em nada acrescentava à explicação psicológica); para 1/4, além das explicações psicológica e neurocientífica, foi acrescido um gráfico; e, finalmente, para 1/4, além das explicações psicológica e neurocientífica, foi acrescida uma imagem cerebral de ressonância magnética. A informação essencial de todos estes artigos era basicamente a mesma; aquilo que os diferenciava eram os elementos extras (pseudoexplicações neurocientíficas, gráficos e/ou imagens cerebrais) presentes em 3 dos 4 textos. O que você acha que os pesquisadores encontraram?

Como já era de se esperar, o "efeito de sedução das explicações neurocientíficas" foi de fato observado, mas somente quando pseudoexplicação neurocientífica e imagem cerebral foram colocadas juntas. O artigo que incluía estes dois elementos foi sistematicamente mais bem avaliado em escalas de credibilidade do que os demais artigos. Tal efeito não foi observado no caso do texto com explicações psicológicas e neurocientíficas (como Weisberg encontrou em 2008) e naquele com um gráfico. Um primeira constatação interessante sobre este achado é que não é qualquer imagem que teria o poder de aumentar a credibilidade de um texto: um gráfico, por mais convincente que seja, não gera o mesmo efeito que uma imagem cerebral. Mas mesmo a imagem cerebral sozinha, sem uma explicação neurocientífica, não teria a capacidade de gerar este efeito. É somente quanto texto e imagem se encontram que a mágica acontece. Mas o que será que explica este efeito? Os pesquisadores arriscam duas respostas. A primeira é que as explicações neurocientíficas, a depender da forma como são usadas, simplificam complexos fenômenos cognitivos e emocionais. Dizer, por exemplo, que determinado comportamento ou pensamento "ativa" determinada área do cérebro oferece uma "explicação" simplificada (ou simplista) de complexos processos psicológicos. No entanto, esta "explicação de natureza reducionista", como apontam os pesquisadores, nada mais é do que uma descrição de determinado fenômeno no nível biológico/cerebral - e não propriamente uma explicação. Uma segunda resposta é que as imagens em geral - e as imagens cerebrais em particular - teriam o poder de cativar a atenção das pessoas de forma mais intensa do que apenas um texto (não é por outro motivo que as revistas e jornais são repletos de imagens). Ao mostrarem a "ativação" de determinadas partes do cérebro, tais imagens deixariam clara e evidente a realidade de determinado fenômeno, ainda que, de fato, muito pouco ou nada provem. 

Enfim, independente das explicações possíveis para este efeito, torna-se cada vez mais difícil negá-lo. Este estudo contribui para isto ao estendê-lo para textos e informações do campo da educação. O que os pesquisadores sugerem, neste caso, é que uma considerável parcela do poder de convencimento dos textos e livros do campo da neuroeducação, que tem se disseminado com incrível velocidade no mundo educacional, se devem - ou podem se dever - ao efeito de sedução das explicações e imagens neurocientíficas. Isto significa que devemos permanecer atentos e céticos com relação às informações que são cotidianamente "vendidas" a nós. Antes de "comprá-las" devemos tentar compreender o que elas realmente querem dizem, fazendo um esforço constante de separar o "joio do trigo", ou seja, aquilo que tem embasamento daquilo que não o tem. Do contrário estaremos comprando "gato por lebre". Todo cuidado é pouco.

Update 25/05/17: especificamente sobre o tema da neuroeducação eu já escrevi alguns posts além de um livro, baseado em minha dissertação de mestrado. Caso tenha interesse em adquirir meu livro, intitulado "O cérebro vai à escola": aproximações entre neurociências e educação no Brasil (2016) clique aqui. Para maiores informações sobre o livro acesse este post.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Marcelo Gleiser e os limites da ciência

Um dos mais importantes divulgadores científicos em atividade no mundo é brasileiro. Refiro-me ao físico e professor de Filosofia Natural da Dartmouth College Marcelo Gleiser. Muitos o conhecem devido a duas séries de popularização científica que ele apresentou no programa Fantástico, da Rede Globo: Poeira das estrelas, lançada em 2006, e Mundos invisíveis, lançada em 2008.  Mas para além de apresentador, Gleiser é também autor de inúmeros livros, vários premiados: A dança do Universo (1997), O fim da Terra e do Céu (2001), O livro do cientista (2003), Poeira das estrelas (2006), Harmonia do mundo (2006, seu primeiro e até agora único romance), Cartas a um jovem cientista (2007), Mundos invisíveis (2008), Criação imperfeita (2010), Ilha do conhecimento (2014) e, mais recentemente A simples beleza do inesperado (2016) - além desses, Gleiser ainda publicou três coletâneas de artigos escritos ao longo de vários anos para o jornal Folha de São Paulo: Retalhos Cósmicos (1999), Micro Macro 1 (2005) e Micro Macro 2 (2007). De todos estes eu destacaria quatro livros como sendo as "obras de peso" do autor: A dança do Universo (sua primeira e mais fascinante obra, que condensa muitos dos temas que serão desenvolvidos nas obras posteriores), O fim da terra e do céu, Criação Imperfeita e Ilha do conhecimento. As demais obras, ainda que tenham seus encantos, não possuem a mesma densidade encontrada nestas quatro obras, que merecem ser lidas com muita atenção (como eu fiz ao longo dos últimos meses). Estas quatro obras, embora tratem de temas variados dentro do universo da física, possuem uma preocupação em comum, preocupação esta que será extensamente elaborada no magnífico livro A ilha do conhecimento. Trata-se da necessária discussão sobre os limites do conhecimento humano e, mais especificamente, sobre os limites da ciência. 

Esta questão pode ser resumida da seguinte forma: a ciência pode conhecer tudo ou tem algo que escapa daquilo que pode ser conhecido? Já em seu primeiro grande livro, A dança do universo, que trata dos diversos entendimentos sobre a origem e funcionamento do universo ao longo da história, Marcelo Gleiser, tenta responder esta questão de variadas maneiras. Selecionei alguns trechos deste livro relacionados a esta problemática:

"Quando tentamos entender  o universo como um todo, somos limitados pela nossa perspectiva interna, como um peixe inteligente que tenta descrever o oceano como um todo".

"Existem limites para a ciência como para a religião. Cientistas não devem abusar da ciência, aplicando-a a situações claramente especulativas e, apesar disso, sentirem-se justificados em declarar que podem resolver questões de natureza teológica. Teólogos não devem tentar interpretar textos sagrados cientificamente, porque estes não foram escritos com este objetivo. Para mim, o que é realmente fascinante é que tanto a ciência quanto a religião expressam nossa reverência e fascínio pela natureza".

"Toda teoria tem suas limitações. Em outras palavras: as teorias operam sempre dentro de um determinado domínio de validade. E é justamente através das 'brechas conceituais', deixadas abertas por teorias antigas, que novas teorias emergem. Esta é, muito resumidamente, a forma como a ciência se autoperpetua".

"Sem dúvida a ciência nos oferece muitas respostas sobre os sutis mecanismos dinâmicos da natureza, mas não devemos nos esquecer de suas limitações. A questão de por que existe algo ao invés de nada deve sempre inspirar nossa humildade".

"É comum dizer que a ciência é um processo. Eu acrescentaria que a ciência é um processo sem fim, uma 'procura' num território sem fronteiras. Vejo com grande suspeita pronunciamentos afirmando que a ciência está morta, que todas as descobertas realmente relevantes já foram feitas. Como é possível ser assim tão cego para a história ou para nossa vasta ignorância?".

"Teorias científicas jamais serão a verdade final: elas irão sempre evoluir e mudar, tornando-se progressivamente mais corretas e eficientes, sem chegar nunca a um estado final de perfeição. Novos fenômenos estranhos, inesperados e imprevisíveis irão sempre desafiar nossa imaginação. Assim como nossos antepassados estaremos sempre tentando compreender o novo. E a cada passo desta busca sem fim, compreenderemos um pouco mais sobre nós mesmos e sobre o mundo à nossa volta".

Destes trechos é possível depreender uma visão extremamente realista (e humilde) da atividade científica. Para Marcelo Gleiser a ignorância é a regra quanto se trata do conhecimento humano: nós mais desconhecemos do que conhecemos. Mas ainda assim nós podemos tentar ampliar o nosso conhecimento e, logicamente, diminuir a nossa ignorância. A ciência, nesse sentido, é um caminho possível para se obter conhecimento sobre a realidade - mas não o único caminho. Para além da narrativa científica da realidade, existiriam outras narrativas como a religiosa, a artística, a política, etc. Marcelo Gleiser, ao contrário de muitos cientistas e divulgadores científicos, não concebe a "ciência" como sinônimo de "verdade" pois o conhecimento científico seria apenas uma forma, dentre muitas, de entender o mundo à nossa volta - e até mesmo nosso mundo interior. E mesmo a dita "verdade científica" não seria sinônimo de "verdade absoluta" pois aquilo que é entendido hoje como verdade pode não continuar sendo amanhã, da mesma forma como muitas coisas que foram consideradas verdadeiras pelos cientistas do passado já não o são mais (isto para não falar que muitas das nossas verdades científicas não fazem o menor sentido para pessoas de outras culturas). Isto ocorre porque o conhecimento científico é, por sua própria natureza, limitado. Não podemos saber tudo porque para investigar e analisar a realidade dependemos dos instrumentos que criamos (microscópios, telescópios, scans, testes, etc) e todos os instrumentos possuem limitações. O melhor microscópio disponível atualmente só nos permite enxergar a realidade até um determinado nível. Além deste nível não podemos enxergá-la e muito menos compreendê-la. Na medida em que melhoramos nossos equipamentos, ampliamos nossa capacidade de visão e consequentemente de análise, mas ainda haverá uma grande parcela da realidade que nos escapará. Sempre. E isto sem levar em conta o fato de que quanto mais vemos e sabemos, mais respostas podemos obter mas também mais perguntas nos fazemos. Como bem afirma Gleiser em outro livro, "o conhecimento começa com a ignorância e gera um novo conhecimento que gera mais ignorância".

Esta é, em suma, a teoria do conhecimento disseminada pelo físico Marcelo Gleiser em toda sua obra e em especial no livro A ilha do conhecimento. Neste livro, o autor se utiliza de uma interessante metáfora para ilustrar seu ponto de vista. Segundo ele, todos vivemos, inclusive os cientistas, em uma ilha do conhecimento cercada pelo oceano do desconhecido; à medida que ampliamos o nosso conhecimento e, consequentemente, aumentamos o tamanho da nossa ilha, ampliamos também a extensão de nossa praia, ou seja, aumentamos os pontos de contato com o desconhecido. Através de nossos instrumentos, ampliamos os nossos conhecimentos mas  também ampliamos a nossa ignorância. Como afirma Gleiser neste livro, "se nosso acesso à Natureza é limitado pelos nossos instrumentos e, mais sutilmente, pelos nossos métodos de investigação, concluimos que o nosso conhecimento do mundo natural é necessariamente limitado". Em outro momento aponta: "O que chamamos de 'real' depende do quão profundamente podemos investigar a realidade. Mesmo se algo como uma 'realidade última' exitir, podemos conhecer apenas alguns de seus aspectos". E complementa: "O que chamamos 'realidade' está sempre mudando. A versão da realidade que chamamos verdadeira em um determinado momento histórico não continuará a sê-lo em outra". Esta visão da ciência, como um conhecimento limitado e situado no espaço e no tempo, embora seja de certa forma banal para estudiosos das ciências humanas, é muitas vezes questionada por pesquisadores das chamadas "ciências duras", como a física e a química, que muitas vezes vêem a ciência como a única forma de se obter um conhecimento verdadeiro sobre a realidade. É, pois, bastante interessante, que um físico dissemine uma visão da atividade científica bastante próxima daquela disseminada por historiadores e sociólogos da ciência.

Frequentemente Marcelo Gleiser é acusado de derrotista e pessimista a devido ao seu entendimento de que a ciência será sempre um empreendimento limitado, nunca atingindo o conhecimento completo da realidade. Mas ele não vê as coisas desta forma. Como afirma no livro A ilha do conhecimento, "ver a ciência como ela de fato é, não como algo idealizado, acaba por torná-la mais bela, mais real, alinhando-a ao resto dos frutos da criatividade humana - pluralista, surpreendente e imperfeita". Em outro momento deste livro, ele aponta: "uma ciência saudável combina humildade com esperança: humildade para a aceitar a extensão da nossa ignorância; e esperança de que novas descobertas irão expandir a Ilha do conhecimento". No seu mais recente livro, A simples beleza do inesperado - no qual o autor intercala relatos e reflexões sobre pescaria com considerações sobre ciência, religião e acontecimentos sobrenaturais - Gleiser afirma de uma forma ainda mais clara: "Explorar os limites da ciência não é o mesmo que considerá-la fraca, expondo-a a críticas de grupos anticiência, como por exemplo os evangélicos que interpretam a Bíblia literalmente. Pelo contrário, esses argumentos liberam a ciência de uma responsabilidade que não deveria ter, de ser a resposta para tudo, de saber tudo, como se fosse mais do que uma criação humana, assumindo proporções de caráter divido". A ciência, para Gleiser, é humana, demasiado humana e exatamente por isso é limitada e falha. Criada à nossa imagem e semelhança, a ciência é imperfeita como nós. Mas para ele esta não é uma visão triste da ciência ou da natureza humana. Triste seria se atingíssemos todo o conhecimento possível. Como ele afirma neste livro: "imagine a tristeza se, um dia, completássemos o conhecimento. Sem novas perguntas a fazer, nossa criatividade murcharia, nosso espírito se apagaria como uma vela. Para mim, essa possibilidade é muito mais trágica do que abraçar a dúvida como parceira essencial de uma mente curiosa". Na mesma direção ele afirma, em outro momento do livro: "A missão da ciência não é encontrar respostas finais ou conclusivas, e sim construir uma narrativa do mundo natural que é revisada continuamente de acordo com o acúmulo de dados e informações, tornando-se cada vez mais eficiente".

Gosto muito desta visão da ciência e da natureza humana disseminada pelo Marcelo Gleiser. Gosto de pensar que as limitações que a ciência tem e que todos temos individualmente e coletivamente, não são obstáculos intransponíveis, mas desafios a serem enfrentados. Certamente existem coisas que nunca - ou muito dificilmente - poderemos compreender cientificamente, como por exemplo se deus existe ou se existe vida após a morte. Mas existem muitas outras questões que podem (e devem) ser estudadas e analisadas pela ciência, ainda que com significativas limitações. De toda forma, penso que toda esta reflexão a respeito dos limites da ciência e do conhecimento humano, pode contribuir para o desenvolvimento de uma postura mais humilde perante a vida e o mundo. Uma postura de admiração e espanto diante dos mistérios da Natureza que leve a um desejo e uma ação de conhecer mais. A ignorância e a dúvida não devem nos paralisar mas sim nos inspirar a continuar estudando e analisando o mundo e a humanidade. De fato nunca atingiremos um conhecimento completo de tudo mas a graça, na vida e na ciência, está justamente no caminho e não na chegada. E é justamente por isso que exploramos o universo, o mundo e a nós mesmos. Como bem aponta Marcelo Gleiser em seu último livro, "nós nos arriscamos como indivíduos e nos arriscamos coletivamente tentando expandir nossas fronteiras para além do conhecido. Exploramos o mundo e continuamos explorando o espaço. Somos uma espécie de gosta da segurança das fronteiras, desde que não sejam fixas". Enfim, queremos sempre mais e  nunca nos contentamos com o que temos e com o que sabemos. Somos seres da falta e justamente por isso seguimos caminhando.

Observação: já que apontei para os limites da ciência, também valeria a pena apontar para os limites do conhecimento do próprio Marcelo Gleiser. Neste artigo o autor, também um físico, apresenta uma série de equívocos científicos e distorções históricas apresentadas por Gleiser no livro A dança do Universo. Se nem a ciência é perfeita por que Marcelo Gleiser seria?