quinta-feira, 28 de abril de 2016

"My beautiful broken brain": entre a lesão e a reabilitação

A produtora Lotje Sodderland tinha 34 anos e levava uma vida ativa e produtiva em Londres, na Inglaterra. Tudo ia bem até que, em um dia fatídico, ela é acometida por um terrível acidente vascular cerebral hemorrágico causado por uma má formação congênita em alguns vasos sanguíneos do seu cérebro (informação que ela desconhecia até então). Em função de tal derrame, que compromete uma significativa parcela de seu cérebro, Lotje fica com várias de suas habilidades de comunicação bastante prejudicadas. Ela não consegue mais falar com a fluidez de antes e também não consegue mais ler ou escrever. Além disso, sua visão e sua audição tornam-se muito diferentes: ela passa a enxergar e ouvir o mundo de uma forma completamente nova - e isto é sentido algumas vezes por ela com encanto e alegria e outras vezes com espanto e medo. Enfim, da noite para o dia, sua vida e sua subjetividade mudam radicalmente em decorrência desta grave lesão.

E isto para mim é uma evidência mais do que concreta de que a mente/subjetividade depende do cérebro para existir e é por "ele" afetada. Isto não significa, contudo, que se trate de uma relação de mão única, pois, sem dúvida alguma, a mente também afeta o cérebro (e o corpo como um todo). O efeito placebo e o impacto das terapias psicológicas são os exemplos mais evidentes disso, no entanto cabe apontar que a ideia de que "a mente afeta o cérebro" tem relação direta com o bastante disseminado - e já banalizado até - conceito de neuroplasticidade, que aponta justamente para o entendimento de que o cérebro (e por consequência o "eu") é moldado pelo mundo e pelo self em um processo contínuo e dinâmico de automodificação. Como aponto no meu livro (saiba mais e compre ele aqui), este conceito está relacionado à ideia de que o cérebro é mutável e maximizável. Mutável, no caso, toma pelo menos três sentidos: 1) o cérebro se desenvolve, naturalmente, modificando-se com o passar do tempo; 2) o cérebro altera sua configuração e suas conexões em resposta às influências ambientais e sociais e 3) o cérebro é capaz de alterar sua estrutura e função como resposta a uma lesão. Já a ideia de um cérebro maximizável aponta para o entendimento de que além de se alterar naturalmente e ser influenciado pelo ambiente, o cérebro pode (ou deve) ser exercitado ou treinado de forma a ampliar, potencializar, maximizar seu funcionamento. Propostas de ginástica cerebral - já amplamente disseminadas, ainda que carentes de embasamento científico - relacionam-se a este entendimento.

Mas voltemos à Lodje. Nas primeiras horas da manhã de uma segunda-feira no ano de 2011, ela começa a sentir uma dor de cabeça insuportável. Lodje não sabia, mas neste momento uma hemorragia ocorria em seu cérebro, que fez com que sua consciência rapidamente desaparecesse. Encontrada caída e inconsciente no banheiro de um hotel, ela é imediatamente encaminhada para um hospital, onde passa alguns dias internada - dois dos quais em coma induzido. Logo após receber alta, Lotje começa a filmar, com o celular, seu longo e complexo processo de recuperação, repleto de altos e baixos, de conquistas e frustrações - e é muito interessante poder acompanhar de perto estes momentos, especialmente pelo fato de Lodge ser uma jovem supersimpática, carismática e engraçada. Estes videos são a principal fonte do novo e belo documentário do Netflix "My beautiful broken brain" [Meu belo cérebro quebrado], dirigido pela própria Lodje juntamente com a cineasta Sophie Robinson e produzido por ninguém mais ninguém menos que o David Lynch, diretor de inúmeros filmes e séries clássicos como Twin Peaks, Veludo Azul e Cidade dos sonhos, dentre muitos outros (e cabe apontar que David Lynch tem uma importância no filme para muito além de seu papel de produtor - quem assistir entenderá). Pois bem, após receber alta do hospital Lodje dá início ao processo de reabilitação, composto por infinitas sessões de fonoaudiologia, neuropsicologia e também de estimulação magnética transcraniana. 

Lotje quer voltar a falar com fluidez, a ler, a escrever e para tanto se submete à todos os tratamentos ou intervenções disponíveis. O que ela quer, enfim, é voltar à vida de antes. Mas como irá descobrir aos poucos, não há retorno na vida, nem em casos como esse nem em qualquer outro caso. A vida segue para frente, inevitávelmente, nunca para trás. Como afirma o filósofo (e médico) Georges Canguilhem, em seu clássico livro O normal e o patológico, curar-se de uma doença não significa retornar ao passado, a uma certa "inocência orgânica" quando a doença não existia, mas sim criar uma nova forma de vida. "A vida não conhece reversibilidade", afirma Canguilhem. Isto significa que no processo de cura, como na vida, não há retorno, mas reconstrução e reinvenção. Da mesma forma, Lodje aos poucos perceberá que a vida que tinha antes não irá voltar, mas também se dará conta de que isto não é necessariamente ruim, ou pelo menos, não a tragédia que pareceu num primeiro momento. Nesta nova vida certamente algumas coisas se perderam ou, no mínimo, ficaram abaladas, mas para além deste lado negativo, há também a emergência de uma nova forma de ver e entender o mundo. 

Além disso há a neuroplasticidade, isto é, a capacidade do cérebro de se modificar e reorganizar sua estrutura e funções após uma lesão. Isto significa que da mesma forma que curar não é um regresso ao passado, não seria totalmente adequado falar em regeneração como um retorno ao que era antes. Prefiro pensar na reabilitação como um processo de transformação - não somente de seu cérebro, mas também, e especialmente, de seu "eu". Neste sentido, todo o processo de reabilitação de Lotje pode ser encarado como um esforço de transfomar o seu cérebro de forma que ela consiga adquirir ou readquirir as habilidades de comunicação perdidas ou comprometidas. Certamente, a regeneração completa de tais habilidades não é a regra, especialmente quando uma grande parcela do cérebro ficou comprometida, mas uma regeneração ampla, ainda que parcial, é extremamente possível - como de fato ocorreu com Lotje, que aos poucos foi retomando sua fluência verbal, sua capacidade de ler e escrever (não como antes do derrame, claro, mas muito melhor que logo após). Enfim, neste processo de reabilitação vemos o surgimento de uma nova Lotje, com uma nova forma de ver e encarar a vida. Como ela própria afirmou em um texto publicado no jornal The Guardian, "eu vejo o meu derrame como uma espécie de renascimento; inesperado e doloroso, mas também vivo, cheio de propósito, significado e potencial". C'est La Vie.

quarta-feira, 16 de março de 2016

"Pilula revolucionária ativa 100% do seu cérebro": uma viagem pelo mundo da neuropicaretagem

Estava eu vagando pela internet, lendo uma notícia aleatória sobre a nova novela das nove (#quemnunca?), quando me deparei com uma imagem publicitária (veja ao lado) na qual o protagonista da série House exibe uma pílula colorida em sua lingua. O texto do anúncio apontava: "Sem limites: Método que turbina o Cérebro agora liberado no Brasil" - e logo abaixo deste texto vinha o site do suposto método: pilulainteligente.com. A referência ao filme Sem limites (no original Limitless, EUA, 2011) é evidente. Por sinal, você já viu este filme? Se não, assista-o agora - assim como ao filme Lucy (EUA, 2014) que trata, de certa forma, da mesma questão: a estimulação do(a) cérebro/mente por meio do uso de medicações/drogas. No filme Sem limites, Eddie Morra - interpretado pelo ator Bradley Cooper - é um escritor que sofre de um bloqueio criativo: ele simplesmente não consegue mais escrever. No entanto, sua situação muda radicalmente quando ele é apresentado, por intermédio de seu ex-cunhado (um "ex" traficante de drogas, agora funcionário de uma empresa farmacêutica), a um remédio revolucionário que permitiria o uso de 100% de sua capacidade cerebral. A partir de então, Eddie consegue não somente se concentrar e escrever, mas também passa a ter uma memória e uma inteligência muito superiores à maioria dos mortais. 

Já no filme Lucy, dirigido, escrito e produzido por Luc Besson, a atriz Scarlett Johansson interpreta a personagem-título, Lucy, uma mulher norte-americana que vive em Taiwan e que é obrigada, por uma série de motivos, a servir de "mula" para um poderoso mafioso local. O problema é que, em determinado momento, as cápsulas cheias de drogas que ela esconde em seu abdomen (na verdade trata-se de uma fictícia droga sintética chamada CPH4) se rompe, mas ela, ao contrário do que normalmente ocorre, não tem uma overdose nem morre. Pelo contrário, como aponta a página do Wikipedia do filme, ela desenvolve a partir de então capacidades físicas e mentais cada vez mais elevadas, como a telepatia, a telecinese, a eletrocinese, a absorção instantânea de conhecimento, a capacidade de viagem no tempo e inclusive a opção de sentir dor ou outros desconfortos físicos ou emocionais, além de outras habilidades. Lucy se torna, assim, supermegahiperpoderosa. Como aponta o cartaz do filme "uma pessoa normal usa 10% de sua capacidade cerebral. Ela vai atingir 100%". Não entrarei nas peculiaridades de cada filme, só gostaria de apontar que ambos disseminam as ideias, consideradas "neuromitos" pelos neurocientistas contemporâneos, 1) de que usamos cotidianamente somente uma pequena parte do nosso cérebro ou de nossas potencialidades  cerebrais (em geral fala-se em 10%) e 2) de que através de um correto treinamento ou do uso de determinadas medicações/drogas é possível ampliar e mesmo atingir o máximo das nossas capacidades cerebrais/mentais.

E é justamente este discurso e estas ideias que estão presentes no anúncio que comecei analisando neste post. Pois bem, assim que vi a propaganda do tal "método para turbinar o cérebro" resolvi clicar na imagem e ver para onde isto me levaria. E qual não foi minha surpresa ao descobrir que o anúncio me encaminhava não ao site de uma revolucionária "pílula da inteligência", mas ao portal de uma entidade educacional chamada Methodus - que promove uma série de cursos, como de Leitura Dinâmica, Oratória e Administração do tempo. E é aí que a ficha caiu. A propaganda desenvolvida por eles não tinha como objetivo vender uma pílula, mas atrair internautas desavisados, ingênuos e esperançosos para o site do sistema Methodus - que seria, ele próprio, o tal "método para turbinar o cérebro" (e não é curioso que o site oficial da entidade seja, de fato, pilulainteligente.com?). A estratégia deve ser bastante eficaz para capturar internautas pois este discurso da "pílula de turbinar o cérebro" é extremente sedutor. Afinal, que nunca se sentiu aquém de suas capacidades? Quem nunca teve dificuldade ao estudar ou escrever? Quem nunca se sentiu desanimado, desconcentrado ou com a memória muito aquém da desejada? Quem nunca se sentiu desmotivado, fatigado ou estressado? Aposto que todo mundo, em algum momento, se sentiu assim. Mas imagine que inventassem uma pílula que fizesse você se concentrar totalmente, que lhe permitisse memorizar as informações com maior facilidade, menos fadiga e estresse e que lhe possibilitasse, enfim, ler e escrever mais e melhor. Você pagaria por esta pílula? Aposto que ficaria no mínimo tentado a comprá-la, pois é bastante atraente, em geral, a ideia de que uma simples pílula, disponível ao alcance do seu bolso, poderia resolver todos os seus problemas e, quem sabe, te levar além, te fazendo ficar "mais do que bem", te transformando num superhomem ou numa supermulher - como ocorreu, nos filmes citados, com Eddie e Lucy.

E se tal remédio poderia te levar além, eu decidi ir também além neste universo das pílulas inteligentes. Há algum tempo eu já tinha visto outra propaganda - desta vez no Facebook - de uma pílula que seria capaz de "ativar 100% do seu cérebro". Autodenominada "viagra para o cérebro", tal pílula seria capaz de melhorar a concentração, a memória e até a inteligência de quem a tomasse, além de diminuir o stress e a fadiga - não seria o máximo? Decidi pesquisar no Google e descobri o nome deste "revolucionário" remédio: Neurofos (veja bem, não é neurofofos, o que seria bem fofo). Na verdade existem muitos outros remédios similares - ou idênticos, sei lá - mas com outros nomes: Focus-X, Genius-X, etc. Todos eles prometem a mesma coisa: um desempenho cerebral muito melhor. Mas nos foquemos inicialmente no Neurofos. Em um site dedicado a ele, em português, encontramos que a medicação conteria os seguintes ingredientes: Soja e peixe (?); Estereato de magnésio vegetal; Silicato de cálcio; Dióxido de silicone; Gelatina; Extrato de eleuthero; Ácido alfa-lipóico; Vitamina B12; Vitamina B6; Vitamina E. Não sou químico, mas pelo que vejo tal pílula "revolucionária" não passa de um complemento vitamínico, como muitos que já existem por aí. Mas porque este especialmente faria "bem ao cérebro"? A justificativa é de que o Neurofos conteria ingredientes que preencheriam algumas necessidades fundamentais do cérebro. Como é dito em outro momento no mesmo site, sua fórmula "altamente orgânica e 100% natural [Pausa para respiração... como assim altamente orgânica? Ou um produto é orgânico ou não é! E dizer que é 100% natural não seria redundante?] garante o progresso com relação à eficiência geral dos pensamentos". 

Mas uma medicação tão eficaz como essa certamente traria algum efeito colateral, não é mesmo (como todas as demais medicações existentes no mundo)? Pois a resposta neste caso é não. Segundo o site, o consumo de Neurofos não gera qualquer efeito colateral. Como aponta o site, "pesquisas indicam [mais uma pausa para respiração... que pesquisas, cara pálida? É muito fácil dizer que pesquisas ou estudos apontam qualquer coisa. Difícil é apontar quais pesquisas específicas que embasam sua afirmação] que as pessoas que testaram outros produtos sofreram de angústia, TDAH, problemas bipolares e muitas coisas do tipo. Mas, quando começaram a utilizar o Neurofos, não houve absolutamente nenhum efeito colateral". Curiosamente, em outro site - do mesmo remédio, agora vendido com outro nome - está escrito em letras miúdas e sem qualquer destaque que "assim como qualquer tipo suplemento alimentar, remédios e mesmo outros produtos (mesmo que naturais) podem haver riscos associados à sua utilização". Uai, mas tal produto não era isento de riscos e efeitos colaterais? É claro que não! Mas ignoremos isto por um instante e tentemos entender como um remédio tão fantástico como esse teria sido produzido. Segundo o site, ele foi criado em um "laboratório de ponta" sob a supervisão de uma "equipe de especialistas de vasta experiência e conhecimento". Esta busca por legitimação científica fica clara também em uma imagem utilizada pelos golpis...cientistas em outra peça publicitária na qual duas imagens de ressonância do cérebro são comparadas (veja acima), sendo uma anterior e outra posterior o uso do Neurofos - um detalhe importante é que a fonte da imagem é atribuída à uma certa "Unidade de Neurociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro", que efetivamente não existe - além disso, como descobriu o site E-farsas, as imagens se referem a um estudo sobre os efeitos no cérebro do uso de álcool). Por fim, é dito no site que o Neurofos  é vendido somente no site oficial e não em farmácias comuns porque "o laboratório tem dificuldades em atender a demanda atual". Ah tá! Não é porque o produto não foi aprovado pela Anvisa, não né? Em outro site, os vendedores deixam claro, nas mesmas letras miúdas apontadas acima, que "as declarações contidas neste documento são livres de avaliação pela Anvisa". Tudo isto está cheirando a golpe para você? E realmente é.

Na verdade parece tão óbvio que se trata de um golpe - da mesma forma que aquelas propagandas do tipo "Aumente o seu pênis agora" ou "Acabe com sua calvície em 30 dias" - que eu fico realmente impressionado de existirem pessoas que realmente acreditam em tais propagandas - e mais impressionado ainda que existam aquelas que efetivamente comprem tais produtos. No site Reclame aqui existem milhares de reclamações de compradores insatisfeitos com o Neurofos - veja algumas delas aqui. Muitas outras reclamações podem ser encontradas sobre o Focus-X e o Genius-X, que são na verdade o mesmo produto agora vendido com outros nomes. Neste link, por exemplo, é possível conhecer a história de um gari que, após começar a tomar a pílula Genius-X, acabou por tornar-se Técnico da Receita Federal. Linda história de superação, pena que não seja verdadeira. Como descobriu o site E-Farsas, na realidade o sujeito permanece trabalhando como gari e nunca tomou nenhuma medicação como essa. Ou seja, tudo não passa de uma grande mentira para enganar pessoas ingênuas e deslumbradas com tudo o que parece, mesmo que vagamente, científico. Trata-se de mais uma neurobobagem, como tantas que vemos por aí, que usam e abusam do discurso cientifico - especialmente do discurso neurocientífico - pois sabem o quanto ele é atrativo e sedutor. 

Dizer que algo foi comprovado pela neurociência ou que tal ou qual área do cérebro está envolvida no que quer que seja, torna qualquer notícia ou texto muito mais crível, como demonstrou a pesquisadora Deena Weisberg e sua equipe em um experimento clássico publicado em 2008 - denominado The seductive allure of neuroscience explanations [O fascínio sedutor das explicações neurocientíficas]. Neste experimento, a pesquisadora dividiu um grupo de pessoas em três grupos e deu para cada um deles a tarefa de ler algumas notícias e avaliar a qualidade delas. E o que ela encontrou, em síntese, foi que as notícias nas quais estavam incorporadas explicações neurocientíficas eram sistematicamente mais bem avaliadas, mesmo quando nada traziam de novo ou nada diziam efetivamente (por exemplo, dizer que uma determinada área do cérebro fica "ativa" quando o sujeito sente dor, nada diz sobre as causas ou motivos da dor, apenas aponta para os correlatos neurais, ou seja, para as "assinaturas neurais" da dor). Em outro experimento, o pesquisador David MacCabe e sua equipe demonstram o poder não das explicações, mas das imagens neurocientíficas criadas (sim, criadas, não são fotografias do cérebro) por equipamentos de ressonância magnética ou PET Scan - seu artigo se chama Seeing is believing: the effect of brain images on judgments of scientific reasoning [Ver é crer: o efeito de imagens cerebrais em juízos de raciocínio científico]. De forma semelhante ao experimento de Weisberg, as neuroimagens deram muito mais credibilidade aos textos e artigos científicos apresentados, mesmo quando, de fato, elas nada acrescentavam. Eis o poder sedutor e persuasivo das neuroimagens e do discurso neurocientífico...

Tudo isto aponta para o fato de que devemos ficar atentos e vigilantes com relação às "verdades" com que nos deparamos seja na vida real ou, cada vez mais, na vida virtual. Em algumas situações, o efeito colateral pode ser suave: você apenas acreditará em algo supostamente científico, mas que de cientifico nada tem - e eu nem acho que para ser bom ou útil algo deva ter necessariamente o aval da ciência, só acho que se algo não é baseado em pesquisas e estudos científicos, não devia fingir sê-lo. No entanto, tome especial cuidado quando quiserem lhe vender algo supostamente baseado em pesquisas neurocientíficas. Você pode achar que está adquirindo algo válido e útil quando, na verdade, você está apenas gastando dinheiro à toa. Fique atento, pois as neurobobagens e os neuropicaretas estão por toda parte...

domingo, 13 de março de 2016

EXTRA! EXTRA! Cientistas conseguem implantar conhecimentos diretamente no cérebro... #sqn

Nesta ilustração de 1899, os ilustradores franceses Jean Marc Cotê e Villemard
tentaram imaginar como seria a educação no ano 2000.
No último dia 1º de Março, foi publicado no jornal inglês Telegraph a notícia de que um grupo de cientistas teria descoberto como fazer o "upload de conhecimento para o cérebro". Segundo a reportagem, traduzida pelo site Universo Racionalista

"Enviar conhecimento diretamente para o seu cérebro, exatamente como no filme de ficção científica Matrix, poderá em breve demandar um esforço semelhante ao de dormir, cientistas acreditam. Pesquisadores alegam ter desenvolvido um simulador que pode enviar informações diretamente para o cérebro de uma pessoa e a ensiná-la novas habilidades em um curto período, comparando-o com a “imitação da arte pela vida”. Eles acreditam que esse simulador pode ser o primeiro passo no desenvolvimento de uma software avançado que irá fazer do aprendizado instantâneo, ao estilo de Matrix, uma realidade. No clássico da ficção científica, o protagonista Neo é capaz de aprender Kung Fu em segundos depois que essa arte marcial é carregada para o seu cérebro. Pesquisadores da HRL Laboratories dizem ter encontrado uma maneira de ampliar o aprendizado, só que em escala muito menor do que visto no filme de Hollywood. Eles estudaram os sinais elétricos de um cérebro treinado de um piloto e então introduziram os dados de modo idêntico em indivíduos novatos, que aprenderam a pilotar um avião em um simulador de voo realista. O estudo, publicado no periódico Frontiers in Human Neuroscience, descobriu que os indivíduos que receberam a estimulação cerebral via eletrodos implantados na cabeça melhoraram suas habilidades de piloto e aprenderam as tarefas 33% melhor que o grupo placebo".

Só que não.... Como avalia o blog Neuroskeptic (em tradução minha):

"É verdade que os pesquisadores estimularam eletricamente os cérebros de alguns voluntários, utilizando a estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC). É verdade que o objetivo era tentar fazer os voluntários aprenderem melhor. Mas ninguém fez upload de nada - certamente não dos dados gravados a partir dos "sinais elétricos de um cérebro treinado de um piloto", o que não é mencionado no artigo original. Isso é ficção científica. Ou melhor, ficção jornalística. Na verdade, o ETCC pretendia colocar o cérebro em um estado tal que ele iria aprender mais rápido - para aumentar de alguma forma a sua neuroplasticidade natural. Quando você pensa sobre isso, não é mais como no filme Matrix do que quando você, por exemplo, bebe uma xícara de café antes de estudar para uma prova. Em um caso, o estímulo é elétrico, no outro químico, mas você não vai "baixar" o conhecimento em nenhum os casos. Mas é ainda pior. O Telegraph relata que a ETCC foi eficaz - fez as pessoas aprenderem 33% melhor em uma tarefa de simulação de vôo. Uau! Mas isso não aconteceu. ETCC não teve nenhum efeito sobre o desempenho médio em qualquer um dos cinco indicadores de desempenho na tarefa de simulação de vôo. O único resultado significativo foi que, em algumas das métricas, a estimulação foi associada com uma redução significativa na variância entre os sujeitos, ou seja, tornou as pessoas mais semelhantes umas às outras (mas não melhor, em média). No entanto, como os grupos neste estudo foram muito pequenos (32 participantes foram divididos em quatro grupos, de 7 a 10 pessoas cada), a variação era gritante. Os próprios autores mencionam ser "excepcionalmente elevada a variância dentro do grupo." Para ser honesto, eu gostaria muito de ver mais dados antes de me sentir convencido de que algo tão incomum como uma "convergência para a média" estava acontecendo. De qualquer maneira, o artigo do Telegraph está errado sobre os 33% de aumento na performance da aprendizagem. O comunicado de imprensa da HRL sobre o estudo parece ser a fonte da maior parte dos erros, incluindo a analogia com o filme Matrix. Mas devemos libertar nossas mentes da ilusão dos comunicados de imprensa, Neo. Lembre-se ... tudo o que eu estou oferecendo é a verdade. Nada mais".

Caso tenha interesse em pesquisar direto na fonte, este é o artigo original: Choe J, Coffman BA, Bergstedt DT, Ziegler MD, & Phillips ME (2016). Transcranial Direct Current Stimulation Modulates Neuronal Activity and Learning in Pilot Training. Frontiers in human neuroscience. Acesse o resumo aqui.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Neuroeducação: novidade ou mais do mesmo?

Em artigo publicado no último dia 3 de Março no periódico Psychological Review - denominado The practical and principled Problems with educational neuroscience [Os principais e práticos problemas com a neurociência educacional], o professor Jeffrey Bowers, da Universidade de Bristol (Inglaterra), simplesmente coloca por terra as principais alegações dos defensores do subárea da neurociência educacional - também chamada de neuroeducação - de que os novos insights sobre o cérebro podem  contribuir para o aperfeiçoamento do ensino em sala de aula - na verdade o pesquisador questiona até mesmo se os tais "novos insights" são de fato novos. Como analisei extensamente no meu livro "O cérebro vai à escola" (saiba mais aqui), o principal argumento daqueles que defendem a aproximação entre neurociências e educação, sejam neurocientistas ou educadores, é que entender o cérebro poderia favorecer o desenvolvimento de abordagens educacionais mais eficazes, capazes de potencializar a aprendizagem do estudante. Não é o que pensa Bowers, que é  professor da Escola de Psicologia Experimental da Universidade de Bristol. Segundo ele, a neurociência educacional não traz nenhuma contribuição nova ou no mínimo útil para o campo educacional. Entender o cérebro, para Bowers, é simplesmente irrelevante para se conceber qualquer estratégia ou prática de ensino. Tentarei explicar abaixo as suas razões para pensar desta forma.

Para o pesquisador, as justificativas apontadas pelos defensores da aproximação entre neurociências e educação podem ser divididas em: 1) triviais, 2) enganadoras e 3) injustificáveis. Dentre as justificativas triviais estariam enunciados banais, que todos os educadores de alguma forma já sabem, ou melhor, já saberiam sem os tais "novos insights" das neurociências. Por exemplo, dizer que a neurociência contemporânea demonstrou que o cérebro é plástico e que, portanto, a aprendizagem é possível na vida adulta e ao longo da vida, é uma falácia segundo Bowers, pois há tempos os educadores  já sabem que a aprendizagem é possível para além da infância - de outra forma, porque teriam sido feitos maciços investimentos na formação de jovens e adultos? Além disso, a ideia de que a plasticidade é uma descoberta contemporânea é também falaciosa, pois desde o final do século XIX pesquisadores defendem a ideia e reúnem evidências de que o cérebro se transforma ao longo do tempo e em função de mudanças no ambiente. O que de fato tem de novo é a "descoberta" de que a neurogênese - ou seja a formação de novos neurônios - ocorre em algumas partes do cérebro de indivíduos adultos. Mas a "descoberta" da neuroplasticidade nao é de fato nova. Na verdade, não houve nem propriamente uma descoberta. Como aponto no meu livro, "o conceito de neuroplasticidade foi sendo construído no decorrer dos séculos XIX e XX, não havendo propriamente uma descoberta, mas sim um acúmulo de evidências, advindas de diversos campos, de que o cérebro seria capaz de se modificar".  Tudo isto significa que a afirmação de que as neurociências descobriram que a aprendizagem pode acontecer ao longo da vida não é verdadeira - além de ser trivial. Da mesma forma como seriam triviais as afirmações - supostamente neurocientíficas - de que o stress, o medo, a desnutrição, os abusos e negligências prejudicam o aprendizado ou de que, pelo contrário, uma dieta adequada, uma boa noite de sono, motivação, exercícios fisicos e um ambiente rico podem favorecer a aprendizagem. Tais afirmações, embora possam parecer novas quando enunciadas por neurocientistas, de fato nada trazem de novo que os educadores de alguma forma já não soubessem. São, como diriam os psicólogos Sally Satel and Scott Lilienfeld, neuroredundâncias. 

Já as justificativas enganadoras seriam aquelas que, apesar de serem vendidas como neurocientíficas, são na verdade embasadas em dados e pesquisas comportamentais ou psicológicas e não cerebrais - e como exemplo, ele cita estudos neurocientíficos sobre aprendizagem matemática que no máximo corroborariam, mas nem de fato comprovariam, estudos e conclusões comportamentais já bem estabelecidos na literatura científica. Neste caso, tratar-se-ia de uma estratégia que Bowers poderia ter chamado de "vender gato por lebre", pois embora as afirmações pareçam provir de pesquisas neurocientíficas, na verdade provém iminentemente de pesquisas do campo psi (um exemplo que ele não citou mas que poderia ter citado é a ideia de que existem diversos tipos de memória, como a memória de trabalho, de curto e de longo prazos. Este entendimento não é resultado de descobertas neurocientíficas, como alguns autores disseminam por aí, mas de reflexões e pesquisas do campo da psicologia cognitiva).  E é neste sentido que o pesquisador afirma as neurociências só poderão efetivamente contribuir com a educação quando forem além daquilo que já está bem estabelecido pela psicologia. De outra forma, continuarão a ser mais do mesmo. Embora pareçam novidade, de fato grande parte das pesquisas em neurociência educacional, nada trazem de novo - nem para o conhecimento sobre a aprendizagem e muito menos para as práticas educacionais. Finalmente, o autor aponta para as justificativas injustificáveis, que são aquelas baseadas em deturpações de pesquisas e teorias neurocientíficas ou em conclusões que não advém propriamente do campo da neurociência. Exemplos disso seriam alegações sem embasamento científico como as de que usamos apenas 10% do cérebro ou de que possuímos uma dominância cerebral esquerda ou direita ou ainda de que cada um de nós possui um estilo de aprendizagem predominante. O autor aponta, no entanto, que ainda que o campo da neuroeducação se proponha a combater tais "neuromitos", ele também acaba por disseminar outros mitos - o que, de alguma forma, enfraquece tal combate.  

Bowers também critica a ideia de que embora a neurociência ainda tenha pouco a contribuir com o campo educacional, no futuro isto será diferente. Segundo ele, o problema fundamental não está na qualidade da neurociência atual, mas nas "falhas lógicas" que motivam a neurociência educacional - e que estão ligadas ao fato de que as neurociências são incapazes, por sua própria "essência", de construir estratégias educacionais concretas. O campo neurocientífico poderia - e de fato pode - contribuir para um entendimento sobre como o cérebro funciona quando aprendemos algo - ou quando temos dificuldades em aprender - mas isto não é de forma alguma suficiente para a construção de novas e melhores estratégias educacionais. Haveria uma distância enorme e provavelmente intransponível entre os estudos de laboratório feitos pelos neurocientistas e a prática de sala de aula efetivada pelos educadores. Isto significa que, ao contrário do que pregam os partidários da neuroeducação, a neurociência não pode e talvez jamais possa contribuir diretamente para a construção de práticas educacionais. Como conclui Bowers "é difícil ver como a neurociência poderá algum dia melhorar o aprendizado em sala de aula".

segunda-feira, 7 de março de 2016

Compre agora o livro "O cérebro vai à escola"!

Sinopse: Esta obra aborda como ocorre a aproximação entre os campos neurocientífico e educacional no Brasil. Algumas questões movem este trabalho: como se dá a emergência da neuroeducação e quais configurações ela assume no país? Quais são os atores e discursos envolvidos na aproximação entre estes campos no Brasil? Como o cérebro humano é entendido pelos diversos atores da neuroeducação brasileira? 


Informações básicas sobre a obra:

ISBN: 9788546203147
Autor: Felipe Stephan Lisboa
Editora: Paco Editorial
Edição: 1ª Edição
Área: Educação
Idioma: Português
Data de Publicação: Fevereiro/2016
Número de Páginas: 236 Páginas
Acabamento: Brochura
Tamanho: 14x21cm

Preço: R$39,90 + Frete

Sumário básico (veja o sumário completo aqui):

Capítulo 1: A Emergência da Neuroeducação; 

Capítulo 2: Aproximações entre Neurociências e Educação no Brasil; 
Capítulo 3: “Que Cérebro é Esse que Chegou a Escola”; 
Condiderações finais: Uma Crítica ao Cerebralismo na Educação.



Ficou interessado?
Para comprar meu livro basta clicar no botão abaixo!

terça-feira, 1 de março de 2016

Lançamento do livro "O cérebro vai à escola"

Querido leitor, meu livro, que eu já havia anunciado anteriormente no blog, finalmente está pronto! Depois de dois anos escrevendo-o, inicialmente sob a forma de dissertação, e mais dois anos revisando e revisando e revisando, finalmente meu livro está impresso e pronto para circular por aí. Mas do que trata o livro? Bom, ele trata do campo das neurociências e também do campo da educação. Mais especificamente ele trata da aproximação entre os dois campos. O que me proponho à analisar é, especificamente, como no final do século XX e início do século XXI a neurociência se transformou em um discurso absolutamente sedutor e convincente, que atraiu para junto de si inúmeros campos. De tais aproximações surgiram áreas de interface como a neurofilosofia, a neuroteologia, o neurodireito, a neuroliteratura, o neuromarketing, dentre outros. O meu objeto de análise é, dentre outras coisas, a emergência da neuroeducação, ou seja, do campo que se propõe a articular as "descobertas" das neurociências com a prática em educação de forma a "potencializar" o processo de aprendizagem. Mais especificamente, eu analiso como se dá esta aproximação no Brasil. Para tanto, eu analisei uma série de livros, artigos, videos e sites, escritos tanto por educadores quanto por neurocientistas, que defendem e propagam a necessidade de interseção entre os dois campos. Em comum, todos os autores analisados defendem que entender "como o cérebro aprende" é fundamental para o educador. A ideia é que entender o funcionamento cerebral poderia contribuir para uma prática mais "eficaz" e, de uma forma mais ampla, para uma educação mais efetiva. Aliado a isto, tem-se configurado nacionalmente e internacionalmente, o entendimento de que a educação deve ser cada vez mais embasada em dados e evidências científicas e menos em "opiniões, modas e ideologias", como aponta uma autora analisada. Pretende-se com isso que o campo educacional melhore ao se tornar mais "científico". Mas de que ciência estamos falando? O que o livro mostra de uma forma bastante incisiva, é que existem inúmeros discursos que reivindicam para si a o status de ciência - e mais especificamente de neurociências. Existem discursos tão diferentes sobre o mesmo cérebro que parecem existir, de fato, diversos cérebros diferentes. O cérebro descrito pelos educadores em obras destinadas a educadores é bastante diverso do cérebro descrito pelos neurocientistas em obras destinadas igualmente a educadores. São entendimentos completamente diversos, mas que possuem um importante ponto em comum: todos trazem consigo um entendimento reducionista que considera que é o cérebro - e não a pessoa como um todo - que aprende (e que ensina). Segundo grande parte dos autores analisados é o cérebro que vai para a sala de aula e é para "ele" que é destinado o processo de ensino-aprendizagem.
O cérebro seria, enfim, "aquele" que aprende. Como aponto na conclusão do livro (ops, spoiler!),"na contramão deste discurso, apontamos para o cérebro como mais um elemento em cena, um elemento necessário certamente, mas não o único. Da mesma forma, concebemos o aprendizado como algo realizado pela pessoa como um todo (inclusive com seu corpo) e não por seu cérebro. Neste sentido, compreendemos as neurociências como um campo capaz de fornecer algumas informações relevantes para a educação e os educadores, mas incapaz, isoladamente, de explicar o processo de aprendizagem e suas dificuldades e, muito menos, de conduzir ou resolver os inúmeros problemas e desafios do campo educacional" (confira outro trecho do livro clicando aqui).


Ficou interessado?
Para comprar meu livro basta clicar no botão abaixo!


segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O poder de um rótulo

Inicio este post com um breve relato pessoal: pelo menos uma ou duas vezes por mês, eu tenho uma mistura intensa de dor de cabeça com náusea. Há alguns anos atrás, acreditando ser algum problema no processo digestivo, relacionado talvez à mudanças na minha alimentação - decorrente, por sua vez, de uma mudança de cidade - procurei um gastroenterologista (gastrologista é coisa do passado!). Relatei  os meus sintomas e ele me solicitou diversos exames - afinal, o que seriam dos médicos hoje em dia sem os exames? Não parece haver nada mais antiquado do que tocar e ouvir o paciente. Bom, e lá fui eu: fiz endoscopia, ultrassom, exames de sangue e até mesmo biópsia do meu estômago (terá sido mesmo necessário?). De certa forma, fui revirado do avesso, tendo todo o meu trato digestivo transformado em imagens ou números. Resultado? Tudo normal. Não tinha nada, nadinha, nadica de nada! Ou pelo menos é o que o médico me disse após olhar os exames. Mas como assim não tenho nada? Alguma coisa eu tenho, seja esta coisa psicológica ou somática (ou ainda psicossomática), pois continuava passando mal. De qualquer forma, o médico me receitou dois remédios para eu tomar quando passasse mal - afinal, sair de um médico sem uma receita é como nem ter ido, não é mesmo? E o mais incrível foi descobrir que existe remédio até para quem não tem nada! Pois bem, saí da consulta com uma receita e um "nada" estampado na testa. Talvez por ser psicólogo, ele não me encaminhou para um. Mas poderia, afinal psicólogo não é o especialista no "nada"? "Você não tem nada! Procure um psicólogo!", não é assim que funciona para muitos médicos? Eu iria sem pestanejar - como já fui várias vezes -, afinal psicólogos estão sujeitos aos mesmos problemas que qualquer um, mas por diversos motivos, não considerei uma opção viável naquele momento.

Após alguns dias da consulta, voltei a passar mal. Comentei então com uma amiga o que estava sentido e ela sugeriu que talvez eu sofresse de enxaqueca. Ela sofre e tem os mesmos sintomas. Minha primeira teoria era de que o estômago (ou o fígado ou qualquer coisa na barriga) estaria afetando a cabeça, mas agora tudo fazia sentido: é a dor de cabeça que gera náusea e não o contrário. Eureca! Lembrei também que na minha família muitos sofrem de enxaqueca e que, realmente, a dor de cabeça começava antes da náusea. Sabe quando tudo se encaixa? Pois bem, procurei um neurologista e ele confirmou:  eu tenho enxaqueca! Inacreditavelmente, saí da consulta mais tranquilo por saber que o que eu tinha não era simplesmente "nada". O que eu sinto tem um nome!!! Eis o poder de um rótulo...

Toda esta história me leva ao artigo The game name: toward a sociology of diagnosis ("O jogo do nome: em direção a uma sociologia do diagnóstico" - disponível aqui), escrito pelo sociólogo Phil Brown em 1990. Para o autor, os diagnósticos médicos - especialmente os psiquiátricos - são poderosos instrumentos de controle social. Para demonstrar esta visão, ele apresenta e analisa alguns diagnósticos antigos que deixam isto evidente. Por exemplo, no final do século XVIII, Benjamin Rush, considerado um dos fundadores da Psiquiatria norte-americana, criou uma categoria diagnóstica chamada Anarquia, que designava uma "forma de insanidade" na qual pessoas insatisfeitas com  estrutura política vigente almejavam uma sociedade mais justa e democrática. Ou seja, todos aqueles que reivindicavam mudanças sociais foram considerados por Rush insanos e, logo, doentes. Com a criação deste diagnóstico, afirma Brown, Rush transformou sua postura política em sintomas de uma doença mental. O autor cita também o exemplo das mulheres que, durante a Inquisição foram diagnosticadas como bruxas - e este diagnóstico era, à época, tão evidente, claro e preciso quanto, atualmente, é o Transtorno Bipolar ou o TDAH. Outro exemplo importante citado por Brown, é a Drapedomania, patologia "identificada" por Samuel Cartwright em 1843, que gerava nos escravos uma compulsão irresistível por fugir e se libertar de seus senhores. Segundo a interpretação de Brown, a função deste diagnóstico era prover o suporte para uma ordem social baseada na escravidão. Todos estes exemplos evidenciam, para o autor, a função da psiquiatria (e da medicina em geral) como instrumento de legitimação do controle social. Sob o olhar atual tais diagnósticos soam estranhos e até mesmo cruéis e desumanos. No entanto, na época em que foram criados, faziam parte de uma visão de mundo bastante comum. O que nos garante que não estamos cometendo os mesmos erros agora e que, no futuro, ao olharem para nosso tempo, enxerguem nossos diagnósticos e tratamentos como cruéis?

Ao mesmo tempo, esta visão negativa dos diagnósticos deixa escapar, na minha opinião e de outros autores, que os rótulos não são maléficos em si mesmos. Um diagnóstico, de certa forma, pode ajudar a pessoa a organizar uma experiencia de sofrimento e, ao mesmo tempo, criar uma perspectiva de futuro, pois o diagnóstico gera o prognóstico, ou seja, o tratamento. Além disso, ao se nomear a experiência dolorosa, o sofrimento é situado em uma certa leitura de mundo, sendo legitimado e validado socialmente. Com o diagnóstico, a pessoa ganha o direito de ficar doente (e isto tem importantes implicações sociais e mesmo jurídicas). E com isso, o sofrimento, muitas vezes, se reduz, tendo em vista que o peso da responsabilidade sobre a própria dor se dilui. Alguns diriam que isto é ruim: "Você é responsável por tudo que cativas", alguém poderia dizer. Mas já não somos responsáveis por tantas coisas? Será que temos de ser responsáveis também por nossas doenças e por nossas perturbações? Susan Sontag, em seu clássico livro Doença como metáfora, criticava justamente as explicações para as doenças que jogam toda a responsabilidade nos ombros do enfermo. "Fulano está com câncer, mas também, não colocava as emoções pra fora, era muito contido", "Ciclano teve um ataque cardíaco. Também, sendo tão estressado como ele é...". Além de ter de lidar com o peso da doença a pessoa ainda acaba tendo que lidar com o peso da responsabilidade de ter ficado doente. E este é um peso muito grande, por vezes difícil de lidar. 

Por tudo isso, cabe a reflexão: ao mesmo tempo que os diagnósticos são "ruins" por estigmatizarem a pessoa e por retirarem dela toda ou grande parte da responsabilidade sobre sua doença ou suas condutas, eles também são "bons", justamente por retirarem ou minimizarem tal responsabilidade e também por darem o "nome aos bois", organizando e dando sentido à dolorosa experiência subjetiva da pessoa. Como em quase tudo na vida, os diagnósticos não são bons ou ruins; eles são bons e ruins. Demonizar a medicina, a psiquiatria e os manuais de classificação (DSM, CID), pode até fazer algum sentido, mas a realidade, sempre, é muito mais complexa. Os rótulos, certamente, podem gerar consequências negativas - no caso das questões psicológicas/psiquiátricas isto pode acontecer, por exemplo, quando o sujeito compreende que suas "perturbações" nada tem a ver com a forma como ele vê e encara e a vida, sendo resultado somente de um desequilibrio químico em seu cérebro. Mas as consequências também podem ser positivas - quando o sujeito, por exemplo, modifica ou acrescenta hábitos e atitudes saudáveis em sua vida após receber um diagnóstico. Na verdade, as consequências parecem depender menos do rótulo em si e mais da forma como a pessoa "rotulada" encara o diagnóstico - e, especialmente, o que ela faz com essa informação. Ela pode simplesmente culpar sua genética ou seu cérebro, desresponsabilizando-se completamente, ou então ela pode passar agir diferententemente. No meu caso, receber o diagnóstico de enxaqueca fez com que eu ficasse mais atento ao meu sono, à minha alimentação e ao stress da vida cotidiana. Com isso, ao invés de me diminuir, o diagnóstico me fortaleceu, tornando-me mais consciente de minhas fraquezas. Não digo que isto acontece sempre, mas certamente é algo que não pode ser desconsiderado.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O que significa dizer que algo "faz bem para o cérebro"?

Pesquisando no Google a expressão "faz bem para o cérebro" é possível encontrar as seguintes coisas que "fariam bem" a este importante órgão do corpo humano: caminhar na natureza, ler e escrever no papel, nostalgia, mau humor, chocolate, soja, pilotar moto, ovo, dar boas risadas, leite, azeite, chá de hibisco, video de gatos, dormir de lado, estudar música, malhar, jogar video game, cerveja, Enya, chá verde, jogar Tetris, pensar em sexo, xadrez, ser bilingue, maconha, sexo antes do estresse, etc, etc. Eu poderia continuar ad infinitum, mas uma pergunta se faz necessária diante de todos esses exemplos: o que significa, afinal, dizer que algo "faz bem ao cérebro"? Em geral, as reportagens e textos que se utilizam de tal expressão, se referem a supostos estudos e pesquisas que apontariam para os benefícios de tais ações ou substâncias para a concentração ou para a memória das pessoas. No entanto, embora estudos e pesquisas em geral sejam apontados como fontes de tais afirmações, normalmente nenhum estudo ou pesquisa específico - e muito menos a fonte ou o link destas pesquisas - é indicado, o que nos impossibilita de averiguar se o que eles dizem a respeito da(s) pesquisa(s) coincide com o que os próprios pesquisadores afirmam (em geral há uma enorme discrepância entre o que jornalistas e cientistas dizem - e especialmente em como dizem). E isto só reforça minha impressão de que tais reportagens ou textos tem como função primordial não divulgar os resultados de um estudo realizado por cientistas mas reforçar coisas que já sabemos que fazem bem, como fazer atividades físicas e se alimentar de forma equilibrada, ou então fazer o leitor se sentir momentaneamente satisfeito ou menos culpado por comer chocolate, acordar mau humorado ou passar horas jogando videogame. 

Dizer, por exemplo, que caminhar faz "bem ao cérebro" significa, em geral, que caminhar promove mudanças no cérebro. E eu não teria como duvidar disso, afinal, seguindo a noção de neuroplasticidade, acredito - como os neurocientistas contemporâneos - que o cérebro é constantemente modificado em nossa relação com o mundo (e digo "nossa" porque cérebros não se relacionam sozinhos com o mundo: eles precisam de um corpo para isso). Isto significa, por sua vez, que ficar sentado no sofá comendo M&Ms e assistindo séries também modifica o nosso cérebro. Aliás, tudo o que fazemos (e pensamos e sentimos) modifica o nosso cérebro - não só aquilo que "faz bem". Neste sentido, dizer que caminhar causa modificações no cérebro não traz qualquer informação de fato relevante. Outra coisa, no entanto, é apontar o que de fato se modifica no cérebro quando caminhamos ou quando fazemos qualquer outra coisa - e isto muitas vezes não é apontado. Peguemos, como exemplo, esta reportagem da revista Galileu que afirma que um estudo feito por um aluno de graduação da Universidade de Stanford teria mostrado que "caminhar na natureza faz bem ao cérebro". Neste estudo (que o artigo não indica, mas que pode ser lido na íntegra aqui), os pesquisadores dividiram 38 pessoas em dois grupos: um caminhou 90 minutos por áreas silenciosas e arborizadas do campus de Stanford e o outro caminhou também por 90 minutos pelo agitado centro da cidade. Após tal caminhada, todos responderam a um questionário que avaliava o nível de ruminação dos participantes, ou seja, a quantidade de pensamentos repetitivos focados em aspectos negativos do self. Além disso, os participantes tiveram a atividade cerebral avaliada e mensurada por um equipamento de tomografia. A conclusão dos pesquisadores, segundo a reportagem, foi: aqueles que andaram no centro ficaram mais agitados, com bastante fluxo de sangue no cortex pré-frontal; já os participantes que passearam pelo caminho arborizado teriam mostrado mais positividade em seus questionários e teriam menos sangue circulando no cortex pré-frontal. Por outro lado, a conclusão segundo os próprios pesquisadores foi de que os participantes que caminharam por um ambiente natural "relataram níveis mais baixos de ruminação e mostraram redução da atividade neural em uma área do cérebro associada ao risco para a doença mental" (repito: associada ao risco) em comparação com aqueles que caminharam em um ambiente urbano. Isto poderia confirmar a hipótese dos pesquisadores de que "ambientes naturais podem conferir benefícios psicológicos para os seres humanos".


Vale ressaltar que em nenhum momento do artigo os pesquisadores apontam que ambientes naturais fazem bem ou podem fazer bem para o cérebro, mas para os seres humanos em geral. E porque eles dizem desta forma? O motivo é bastante simples. O cérebro, sendo um músculo, não tem a capacidade de sentir ou de estar bem ou mal. Quem possui tal capacidade somos nós (pessoas/organismos como um todo) e não nosso cérebro - como já apontei, de certa forma, em um post anterior. Portanto, da próxima vez que ler manchetes como essa, ignore a expressão "para o cérebro" e concentre-se em "faz bem". E tente também ignorar o absurdo que são algumas pesquisas - ou pelo menos a divulgação delas - que só provam aquilo que já sabemos. Ler faz bem? Nossa! Dormir também! Que coisa! Os psicólogos Sally Satel e Scott Lilienfeld, no livro Brainwhashed chamam tais expressões de "neuroredundâncias" por simplesmente reforçarem aquilo que já sabemos - só que com uma roupagem neurocientífica. São "mais do mesmo": parecem dizer muito mas não dizem nada - ou, pelo menos, nada novo. Por outro lado, dizer que ouvir Enya e jogar Tetris fazem bem ao cérebro podem até parecer informações novas e interessantes; no entanto, mesmo tais notícias acrescentam muito pouco ao leitor. Isto porque algumas perguntas básicas raramente são respondidas: como foi feito o estudo que embasa esta afirmação? quantas pessoas participaram? qual foi a metodologia? Sem responder tais perguntas é difícil acreditar em afirmações generalistas como "ouvir Enya fazer bem ao cérebro". Que cérebro, cara pálida? Ou melhor, para quais pessoas escutar Enya faz bem? Para algumas certamente, mas não para todas. Algumas pessoas se sentem bem escutando Enya ou música clássica, mas outras preferem heavy metal ou samba - e  isto "faz bem" a elas. De toda forma, é claro que existem coisas que fazem bem, mas isto não significa 1) que fazem bem a todas as pessoas do mundo o tempo todo e 2) que fazem "bem ao cérebro". Se algo faz bem, faz bem à pessoa como um todo. Por tudo, isso, da próxima vez que ler que algo "faz bem ao cérebro" tente refletir sobre o que isso realmente quer dizer. Muitas afirmações parecem dizer muito mas efetivamente não dizem nada.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Transplante de cabeça ou de corpo?

Saiu esta semana em diversos jornais e sites (veja, por exemplo, aqui) a notícia de que o neurocirurgião italiano Sergio Canavero programou a primeira cirurgia de transplante de cabeça para o ano de 2017. Neste momento ele prevê que será possível realizar tal cirurgia com sucesso. Até lá a equipe pretende planejar detalhadamente o complexo procedimento - que estima-se que envolverá 150 médicos e enfermeiros, demorará 36 horas e custará mais de 11 milhões de dólares. O escolhido para tal feito foi o russo Valery Spiridonov, que se voluntariou para o transplante. Spiridonov sofre de uma doença muscular degenerativa chamada Síndrome Werdnig-Hoffman e, com, o transplante de sua cabeça para o corpo de uma pessoa que teve morte cerebral, estima-se que seu tempo de vida seria ampliado em 30 anos. Espera-se que após esta cirurgia pioneira outras pessoas com problemas corporais semelhantes ao de Spiridonov poderão ser beneficiadas com tal procedimento.

A ideia de um transplante de cabeça é antiga e já foi tentada, com relativo sucesso, com animais. Não acredita? Então leia o sensacional livro "Curiosidade Mórbida: a ciência e a vida secreta dos cadáveres", escrito pela jornalista Mary Roach e lançado recentemente no Brasil. Neste livro, Mary resgata uma série de experimentos esdrúxulos realizados com animais (pobres animais!) por alguns cientistas e cirurgiões durante o século XX. Na década de 1950, por exemplo, o russo Vladimir Demikhov transplantou cabeças de filhotes de cachorros - na verdade conjuntos de cabeças, ombros, pulmões e patas dianteiras - nas costas de cães adultos (veja a foto). Na maioria dos experimentos, as "cabeças transplantadas" duraram pouco devido a reações imunológicas: em média, viveram de 2 a 6 dias, mas houve um caso que durou 29 dias. Em suas efêmeras existências, algumas cabeças-filhotes agiam como cães "normais", como é possível observar nestas notas publicadas por Demikhov em seu livro "Transplantes experimentais de órgãos vitais": "9h. A cabeça do doador bebeu água e leite com avidez e mexeu-se como se tentasse separar-se do corpo do receptor; 22h30. Quando o receptor foi posto para dormir, a cabeça transplantada mordeu o dedo de um membro da equipe e o fez sangrar; 26 de fevereiro 18h. A cabeça do doador mordeu a orelha do receptor, que ganiu e sacudiu a cabeça". Não é curioso isto? Na década seguinte, o neurocirurgião norte-americano Robert White realizou cirurgias semelhantes com cachorros e macacos (algumas de cérebro e não de cabeça) e chegou a resultados semelhantes: a cabeça ou o cérebro transplantados esboçavam alguma resposta mas, devido a reações imunológicas, eram rejeitados pelo corpo receptor. O problema permanece.

Mas para além de uma cirurgia extremamente complexa do ponto de vista técnico, o transplante de cabeça traz em seu escopo, também, uma série de questões filosóficas igualmente complexas. Se o nosso eu (ou seja, a soma de nossas memórias, pensamentos e sentimentos) está localizado exclusivamente no cérebro, como defendem muitos neurocientistas contemporâneos, então um transplante de cabeça (ou de cérebro) seria, na verdade, um transplante de corpo. Se o "eu" está no cérebro, a cabeça transplantada em um novo corpo levaria junto a personalidade de seu dono (ou seja, do dono da cabeça). Caso sejam superadas as dificuldades técnicas de "fundir" os sistemas nervosos da cabeça e do novo corpo, de "despertar" a cabeça e de não haver rejeição imunológica, aí poderemos saber se esta teoria está correta ou não. Se a cabeça neste novo corpo mantiver a personalidade do "dono" do cérebro original, isto significaria que o cérebro é realmente o lócus do "eu". Mas a questão é saber se haverão também perdas. Isto significa avaliar o quanto do nosso "eu" depende do (ou está relacionado ao) nosso corpo. Adeptos da chamada teoria da cognição incorporada defendem que a nossa cognição, e a nossa mente de uma forma geral, não apenas dependem do corpo mas, de certa forma, são nosso corpo. Mente e corpo não seriam entidades distintas mas uma unidade. Isto significaria que o nosso corpo é fundamental para a constituição do que somos - e se, por acaso, nosso corpo se alterasse, já não seríamos os mesmos (se é que, de fato, há uma unidade no que somos ao longo de nossas vidas). Assim, a ideia de um transplante de cabeça - e mais radicalmente, de um transplante de cérebro - não significaria, de forma alguma, um transplante de alma ou de "eu". Com outro corpo, seríamos outros. Agora cabe-nos aguardar os próximos capítulos desta jornada rumo a um transplante de cabeça para avaliarmos como, de fato, será essa nova pessoa resultado da fusão de dois corpos.  

Update 15/09/15: Veja abaixo uma reportagem do Domingo Espetacular sobre o tema.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

"Que horas ela volta?" e a (des)naturalização das desigualdades sociais

Existem filmes bons, existem filmes interessantes, existem até filmes importantes. E existem também filmes fundamentais. O brasileiro "Que horas ela volta?", escrito e dirigido pela Anna Muylaerte, faz parte de um restritíssimo grupo de obras que se enquadra nesta última categoria. Trata-se de um filme fundamental para entender o nosso mundo - e mais especificamente a sociedade brasileira. Mas não só. Penso que o filme, além de abrir os olhos de muitos para a absurda desigualdade social que vivemos (e que apesar dos inúmeros avanços, ainda permanece), pode ainda favorecer uma necessária mudança social. É claro que mudanças são lentas, mas os debates que tem se espalhado pelo Brasil sobre este filme, podem gerar consequências positivas. Quero acreditar nisso. No cinema onde fui - em um bairro de classe média-alta - não havia somente os espectadores típicos dos cinemas. Vi também pessoas que muito provavelmente trabalham como empregadxs, porteirxs e motoristxs destes espectadores típicos. Não eram muitos, claro, mas estavam lá. E isto tem ocorrido em vários cinemas do país. 
E estas pessoas vão lá e muito provavelmente se identificam plenamente com a personagem Val, vivida de forma soberba pela Regina Casé (tenho lá minhas críticas ao programa Esquenta e até à própria pessoa da Regina Casé mas tenho que admitir que, como atriz, ela é sensacional). Se você já leu alguma coisa sobre o filme deve saber que Val é empregada doméstica, já há muitos anos, de uma família de classe média alta de São Paulo - ela é "praticamente" da família (#sqn). O filme retrata, do ponto de vista de Val e de sua filha a complexa e verticalizada relação entre patrões e empregados - que reproduz de forma mais ou menos explícita a relação Casa Grande e Senzala. Mas o que este filme traz de interessante não é simplesmente essa constatação, mas a produção de um incômodo constante ao colocar determinadas pessoas fazendo o que elas não "deveriam" estar fazendo. Exemplifico: é "sabido" que empregadas não devem almoçar na mesa com os patrões nem desfrutar da piscina da casa. Isto é entendido, normalmente, sem qualquer questionamento nem das empregadas nem dos patrões. Como diz Val, “a pessoa já nasce sabendo". Simplesmente "é" assim - como, supostamente, sempre teria sido. Mas e se de repente, não mais que de repente, a empregada (no caso a filha da empregada) almoçasse na mesa do patrão e nadasse na piscina? O que o filme nos causa todo o tempo é este incômodo de ver pessoas não seguindo os papéis sociais que elas "deveriam" estar seguindo. 
Com isto, o filme consegue desnaturalizar determinadas regras sociais e com uma vantagem: sem demonizar os patrões. Estes não são retratados como sujeitos cruéis e sádicos que adoram submeter as empregadas a regras escrotas e sem sentido. Não. Eles são pessoas como eu ou você que simplesmente reproduzimos, muitas vezes sem pensar, determinadas regras implícitas e nos incomodamos quando elas são rompidas. Na verdade, a família retratada no filme é muito mais "progressista" do que muitas famílias de outros filmes e séries do tipo (e eu penso especialmente no filme francês Mulheres do sexto andar e na série Downton Abbey) e mesmo do que muitas das famílias classe-média-alta que se vê por aí. Em muitos momentos eles demonstram se importar com Val e parecem realmente gostar dela. A grande questão é que eles gostam e se importam com ela na medida em que ela (e por pressuposto, sua filha), segue determinadas regras. Quando estas são questionadas ou rompidas todo este aparente progressismo começa a ruir e a relação Casa Grande-Senzala fica evidente como nunca. Neste momento fica claro que Val não é "praticamente" da família: ela é empregada e eles patrões. Todo o véu de hipocrisia que cobre a relação patrão-empregado é exposto de forma nua e crua nesta obra fundamental do cinema brasileiro contemporâneo. #ficaadica

Update 10/09: Ainda refletindo sobre "Que horas ela volta?" pude perceber mais claramente que o filme retrata não somente um passado (e um presente) no qual a relação entre patrões e empregados remete à relação entre senhores e escravos, mas também a uma mudança em curso. E esta mudança é simbolizada de forma fenomenal pela personagem Jéssica, filha de Val. Jéssica não considera natural as regras implícitas e verticalizadas entre patrões e empregados e questiona essa relação assim como questiona as desigualdades do mundo. Mas não só. Jéssica almeja - porque pode almejar - outros objetivos para sua vida. Deseja fazer Arquitetura e Urbanismo na USP e de fato é aprovada - ao contrário de Fabinho, o filho mimado da patroa de Val. Jéssica pode e irá além. E isto porque uma série de políticas públicas iniciadas ou fortalecidas desde o primeiro governo Lula permitiram e incentivaram que pessoas como Jéssica pudessem chegar à universidade e almejar uma vida diferente daquela que seus pais tiveram e tem. Em meu cotidiano de trabalho (inicialmente como psicólogo e agora como assessor de assistência estudantil) em uma universidade pública tenho me deparado todos os dias e cada vez mais com pessoas como Jéssica: filhos e filhas de trabalhadores precarizados que ousam - porque podem ousar - estudar em uma universidade pública, tradicionalmente composta por filhos das classes média e alta que fizeram sua formação básica em escolas particulares. A universidade hoje é muito mais diversa e inclusiva do que a universidade de 20 anos atrás. E isto, ao contrário do que pregam os críticos (que apontam para um "rebaixamento da qualidade da educação superior"), é maravilhoso. Certamente muitos ajustes e aperfeiçoamentos ainda precisam ser feitos para que o acesso e permanência sejam fortalecidos, mas não é maravilhoso que Jéssicas e Fabinhos possam ter acesso e estudar juntos em uma universidade pública?