sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

É hora de chamar Trump de doente mental?

O artigo que eu traduzi e que disponibilizo abaixo foi publicado no último dia 17 de Fevereiro no jornal New York Times. Seu autor é o psiquiatra Richard A. Friedman. Para ler o artigo no original clique aqui.

Um grande número de pessoas tem questionado a saúde mental do presidente Donald Trump. Este mês, o senador Ted Lieu, um democrata californiano, chegou a dizer que estava considerando propor uma legislação para exigir um psiquiatra na Casa Branca.   

Mais controverso ainda é o número de especialistas que estão se juntando ao coro. Em dezembro, um artigo publicado no jornal Huffington Post incluiu uma carta escrita por três proeminentes professores de psiquiatria que citava "a grandiosidade, a impulsividade, a hipersensibilidade ao desprezo ou às criticas e uma aparente incapacidade de distinguir entre fantasia e realidade" do presidente Trump como evidências de sua instabilidade mental. Embora não tenham dado ao presidente um diagnóstico psiquiátrico formal, os especialistas o convidaram a se submeter a uma completa avaliação médica e neuropsiquiátrica  realizada por pesquisadores imparciais.

Um psicólogo clínico foi além no final de janeiro. Ele foi citado em um artigo do site U.S. News and World Report intitulado “Temperament Tantrum" [Temperamento birrento], dizendo que o Presidente Trump possui um narcisismo maligno, caracterizado pela grandiosidade, pelo sadismo e pelo comportamento antissocial. 

Eu não duvido que estes especialistas acreditem que estão protegendo o país de um presidente cujo comportamento eles - assim como muitos de nós - veem como perigoso. Uma recente carta ao editor publicada neste jornal, assinada por 35 psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais, se expressou desta forma: "nós tememos que muito esteja em jogo para ficarmos em silêncio". E continuou: "Acreditamos que a grave instabilidade emocional demonstrada pelas falas e ações do Sr. Trump, o torna incapaz de atuar de forma segura como presidente". 

No entanto, a tentativa de buscar um diagnóstico para o Presidente Trump e declará-lo mentalmente inapto para o trabalho é equivocada por uma série de razões.

Em primeiro lugar todos os especialistas têm convicções políticas que provavelmente distorcem seu julgamento psiquiátrico. Considere o que minha profissão, em sua maioria liberal, disse sobre o senador Barry Goldwater, candidato republicano a presidente em 1964, logo antes da eleição. Membros da Associação Psiquiátrica Americana (APA) foram questionados pela extinta revista Fact sobre a avaliação que faziam de Goldwater. Muitos o atacaram rotulando-o de "paranóico", "psicótico" e "megalomaníaco". Alguns forneceram diagnósticos como esquizofrenia ou transtorno de personalidade narcísica. Eles usaram seus conhecimentos profissionais como armas políticas contra um homem que eles nunca examinaram e que certamente nunca teria consentido em discutir sua saúde mental em público.

Goldwater processou (com sucesso) e, como resultado, em 1973 a APA desenvolveu a "Regra Goldwater". Ela diz que os psiquiatras podem discutir problemas de saúde mental nos meios de comunicação, mas que é antiético diagnosticar doenças mentais em pessoas que eles não examinaram e cujo consentimento não receberam. 

Contrariamente ao que muitos acreditam, esta regra não significa que os profissionais devam permanecer em silêncio sobre figuras públicas. De fato, as diretrizes  afirmam especificamente que os profissionais de saúde mental devem compartilhar seus conhecimentos para educar o público. 

Assim, enquanto for antiético para um psiquiatra dizer que o Presidente Trump possui um transtorno de personalidade narcísica, ele ou ela poderiam discutir traços comuns à característica narcisista, como a grandiosidade e à intolerância à críticas e como isto pode explicar o comportamento do Sr. Trump. Em outras palavras, os psiquiatras podem falar sobre a psicologia e os sintomas do narcisismo em geral, e o público é livre para decidir se a informação pode se aplicar a um indivíduo específico. 
  
Isto pode parecer uma discussão insignificante, mas não é. A realização de um diagnóstico requer um exame minucioso do paciente, uma história detalhada e todos os dados clínicos relevantes - nenhum dos quais pode ser coletado à distância. O narcisismo, por exemplo, não é a única explicação para o comportamento impulsivo, desatento e grandioso. A pessoa pode estar sofrendo de outro problema clínico como transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, o abuso de drogas, álcool ou estimulantes ou de uma variante do transtorno bipolar, para citar apenas alguns. 

Isto tudo para dizer que quando os profissionais de saúde mental rotulam figuras públicas com doenças mentais, não é apenas antiético - é intelectualmente questionável. Nós não temos os dados clínicos necessários para saber o que estamos falando.
 
Além disso, mesmo se você postular que um presidente possui um transtorno mental, isto diz muito pouco sobre sua aptidão para a função. Afinal, Lincoln tinha depressão severa. Theodore Roosevelt provavelmente era bipolar. Ulysses S. Grant era alcoolista. De acordo com um estudo baseado em dados biográficos, 18 dos primeiros 37 presidentes norte-americanos reunem critérios sugerindo que sofreram de distúrbios psiquiátricos durante a sua vida: 24% de depressão, 8% de ansiedade, 8% de transtorno bipolar e 8% de abuso ou dependência de álcool. E 10 desses presidentes mostraram sinais de doença mental enquanto estavam no cargo
 
Você pode possuir um transtorno psiquiátrico e ser perfeitamente competente, assim como você pode ser mentalmente saudável e totalmente inapto (é claro que certos estados mentais, como a psicose e a demência, tornam o presidente inapto para o serviço).

Há uma última razão pela qual devemos evitar rotular psiquiatricamente nossos líderes: isto deixa de fora a questão moral. Nem todos os maus comportamentos refletem uma psicopatologia. O fato é que a mediocridade e a incompetência humanas são muito mais comuns do que a doença mental. Não devemos contribuir para a medicalização dos maus indivíduos. Isto significa que a nação não precisa de um psiquiatra para ajudá-la a decidir se o Presidente Trump está apto para executar sua função, mentalmente ou de outra forma. Presidentes devem ser julgados pelos méritos de suas ações, por suas declarações e, suponho, por seus tweets. Nenhum perito é necessário para isso - apenas senso comum.  

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Conceber a dependência química como uma doença cerebral promove injustiça social - Carl Hart

Carl Hart
No dia 17 de Fevereiro, o neurocientista norte-americano Carl Hart, professor e pesquisador da Universidade de Columbia, em Nova York, publicou na prestigiosa revista Nature um pequeno mas impactante artigo denominado Viewing addiction as a brain disease promotes social injustice, que eu traduzi e disponibilizo abaixo para os leitores do blog. Cabe apontar que Hart já tratou desta temática em seu maravilhoso livro Um preço muito alto: a jornada de um neurocientista que desafia nossa visão sobre as drogas, lançado no Brasil em 2014 pela editora Zahar, mas neste pequeno texto o autor condensa suas principais ideias possibilitando que mais pessoas tenham acesso a elas. Segue a minha tradução do artigo e, desde já, peço desculpas por eventuais falhas, pois não sou tradutor profissional.

Mais de 25 anos atrás, eu comecei a estudar neurociência porque eu pensava que esta abordagem pudesse resolver o "problema das drogas". Naquele tempo, eu acreditava que a pobreza e o crime existentes na comunidade carente de recursos de onde eu vim eram o resultado direto da dependência de drogas; então eu raciocinei que se eu pudesse curar a dependência, especialmente através de manipulações neurais, eu poderia corrigir a pobreza e o crime em minha comunidade. Mas eu aprendi que enquanto a cocaína - assim como outras drogas recreacionais - altera temporariamente o funcionamento de neurônios específicos no cérebro de todos que consumem a droga, a vasta maioria dos usuários jamais se torna dependente. E em relação à porcentagem relativamente pequena de individuos que se tornam dependentes, existe uma combinação de transtornos psiquátricos e fatores socioeconômicos em uma significativa parcela dos casos. Até o momento, não foi identificado nenhum substrato biológico  que permita diferenciar pessoas não-dependendes de dependentes.

A noção de que a dependência química é um problema cerebral é cativante porém vazia: praticamente não há dados relativos a seres humanos indicando que a dependência é uma doença do cérebro no sentido em que, por exemplo, a Doença de Huntington e o Parkinson são doenças cerebrais. Com estas doenças, é possível olhar para o cérebro dos indivíduos afetados e fazer uma predição acurada a respeito da enfermidade envolvida e de seus sintomas.

Ainda não estamos nem perto de sermos capazes de distinguir os cérebros de pessoas dependentes daquelas que não o são. Apesar disso, a perspectiva do "cérebro doente" tem influenciado desmedidamente o financiamento e a direção das pesquisas, assim como a forma como as drogas são encaradas na sociedade. Por exemplo, a recente iniciativa multimilionária Adolescent Brain Cognitive Development longitudinal study objetiva, em primeiro lugar, coletar dados de neuroimagem para melhor entender o uso e a dependência de drogas entre adolescentes. Este estudo recolhe informação genética e mede o uso de drogas e o rendimento acadêmico, mas carece de considerações cuidadosas sobre a importância dos fatores sociais. Espantosamente, nunca houve um esforço tão ambicioso de financiamento  focado nos determinantes ou nas consequências psicossociais (por exemplo, emprego, status, discriminação racial, características da vizinhança, policiamento) do uso ou da dependência de drogas.

Esta situação contribui para uma política de drogas irrealista, custosa e prejudicial. Se o problema real com a dependência de drogas é, por exemplo, a interação entre a droga e o cérebro do indivíduo, então a solução para este problema está em uma de duas  abordagens possíveis. Ou se remove a droga da sociedade através de políticas e da aplicação da lei (por exemplo, as sociedades livres de drogas) ou se foca exclusivamente no cérebro "dependente" dos individuos como sendo o problema. Em ambos os casos, não há a necessidade nem o interesse em se entender o papel dos fatores socioeconômicos na manutenção do uso ou na mediação da dependência das drogas. 

O efeito prejudicial da aplicação da lei como medida primária para lidar com o uso de drogas é bem documentado. Milhões são presos todos os anos por posse de drogas e a prática abominável do racismo floresce na aplicação de tais políticas. Nos Estados Unidos, por exemplo, a posse de maconha é responsável por quase metade das 1,5 milhões de prisões anuais relacionadas às drogas, e os negros tem quatro vezes mais chances de serem presos por posse de maconha do que os brancos, ainda que a taxa de uso da droga seja similar nos dois grupos.

Uma suposição enganadora relacionada à teoria da doença cerebral é que qualquer uso de certas drogas é considerado patológico, mesmo o uso não problemático e recreacional que caracteriza a experiência da esmagadora maioria dos usuários de drogas. Por exemplo, em uma popular campanha anti-drogas dos Estados Unidos, está implícito que apenas uma dose de metanfetamina seria suficiente para causar um dano irreversível.

Nos anos 80, o uso de crack foi culpabilizado por tudo, desde a violência extrema até os altos índices de desemprego, a morte prematura e o abandono infantil. De forma ainda mais assustadora, foi dito que a dependência de drogas se instalava após somente um episódio de uso. Especialistas em drogas, inclinados às neurociências, reforçavam este argumento. "O melhor meio de reduzir a demanda", afirmou o professor de psiquiatria da Universidade de Yale Frank Gawin para a Newsweek (16 de junho/1986) "seria fazer com que Deus redesenhasse o cérebro humano mudando a forma como a cocaína reage com certos neurônios".

Documentário 13ª emenda











As "neuro" observações feitas sobre as drogas, em geral carentes de embasamento, foram perniciosas: elas ajudaram a moldar um ambiente no qual se disseminou o objetivo  injustificado e irrealista de eliminar certos tipos de uso de drogas a qualquer custo dos cidadãos marginalizados. Em 1986, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma legislação que estabelecia penalidades que eram literalmente 100 vezes mais severas para o crack do que para violações relacionadas à cocaína em pó. Mais de 80% dos condenados por delitos relativos ao crack eram negros, apesar do fato da maioria dos usuários da droga serem brancos. Atualmente, muitos consideram as leis de crack/cocaína repugnantes porque elas exageram os efeitos prejudicias do crack e reforçam uma prática de discriminação racial, mas poucos examinam criticamente o papel desempenhado pela comunidade científica na sustentação das suposições subjascentes a estas leis.

A comunidade científica, por sua vez, praticamente ignora a vergonhosa discriminação racial que ocorre na aplicação da lei de drogas. Os próprios pesquisadores são em sua esmagadora maioria brancos e não tem de viver com as consequências de suas ações. Eu não tenho esse luxo. Toda vez que eu olho para os rostos dos meus filhos ou regresso ao local onde vivi minha juventude, eu sou forçado a encarar a dizimação resultante da discriminação racial, que é tão desenfreada na aplicação da lei de drogas e que é incitada por argumentos escassamente fundamentados em evidências científicas.

Nós não podemos mais permitir que os neuroexageros determinem nossas prioridades e direções no financiamento das pesquisas sobre drogas e moldem nossas opiniões e políticas relativas a esta questão. Os riscos são muito altos e o custo humano é incalculável.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

La La Land: quando os sonhos encontram a realidade

(Atenção: Spoilers!) Provável vencedor do Oscar 2017 de Melhor Filme, La La Land é um musical atípico. Na contramão de toda uma tradição de musicais leves e otimistas, este filme, como bem definiu Wilson Ferreira no blog Cinegnose, possui um "amargo realismo", tendendo ao pessimismo. Vi algumas pessoas falando sobre o quanto o filme seria "mágico" e "inspirador" mas, sinceramente, eu não o vi desta maneira (da mesma forma como não consigo enxergar um final feliz no episódio San Junipero da série Black Mirror). Certamente o filme tem o seu encanto e sua beleza, mas sua mensagem final não me pareceu assim tão positiva e edificante. Caso você ainda não o tenha assistido, é possivel dizer, de forma resumida, que La La Land conta a história do encontro de duas pessoas fracassadas e sonhadoras - que os meritocratas norte-americanos facilmente rotulariam de "losers": Mia, uma aspirante a atriz que tenta, em vão, passar em testes para atuar no cinema ou na TV e que, para sobreviver, trabalha em uma cafeteria localizada dentro de um estúdio cinematográfico (como bem disse Ferreira, ela está ao mesmo tempo "tão perto e tão longe" de seu objetivo) e Sebastian, um talentoso pianista que deseja abrir um clube de jazz "raiz" mas que, para sobreviver, faz bicos em bares e festas e se apresenta junto a bandinhas "nutella" - sendo sempre obrigado a tocar músicas que não suporta. Enfim, duas pessoas infelizes e frustradas com suas vidas mas que sonham com uma outra realidade - e que desejam, pelo menos inicialmente, permanecer juntas na busca por seus sonhos.

Durante todo o filme, é possível observar um constante embate entre a fantasia, trazida à tona nos belíssimos números musicais, e a realidade, que frequentemente interrompe de forma abrupta todo este faz-de-conta - a cena inicial do filme, com todos aqueles motoristas dançando e cantando alegremente durante um congestionamento infernal, é bastante representativa disto, que Ferreira chama de "clichê da quebra-da-ordem-e-retorno-à-ordem”. E neste doloroso embate, a realidade parece sempre vencer, mesmo no final do filme. De fato, os sonhos profissionais dos protagonistas são atingidos - Sebastian abre seu tão desejado clube de jazz e Mia vira uma atriz famosa - mas junto com a realização destes desejos não vem a tão esperada felicidade, ou, pelo menos, não aquela felicidade de "comercial de margarina" tradicionalmente disseminada por Hollywood. O final de La La Land possui uma melancolia e uma amargor inesperados para um filme cuja mensagem, em teoria, é "corra atrás de seus sonhos pois é possível alcançá-los". Uma parte desta melancolia se deve ao fato de os protagonistas não terminarem o filme juntos - o que vai frontalmente de encontro às nossas expectativas - mas eu apontaria também para uma outra razão: a vida continua após a realização de um sonho. Feliz ou infelizmente, por sermos seres constitutivamente incompletos - ou, como diriam os psicanalistas, "faltantes" - não nos satisfazemos definitivamente após a consumação de um desejo. Pelo contrário, pouco tempo após obtermos aquilo que sonhávamos nos sentimos novamente insatisfeitos e precisamos construir outros sonhos - ou então encarar o abismo da falta de sentido. Como bem afirmou o escritor e dramaturgo Oscar Wilde, "neste mundo só há duas tragédias. Uma é não conseguir o que desejamos. A outra é conseguir". Mia e Sebastian atingiram seus sonhos. O desafio agora, pra eles e para todos nós, é construir e reconstruir continuamente os objetivos e seguir adiante enfrentando os desafios da realidade - que não é propriamente uma La La Land.

Update 16/02/2017: de acordo com o site The Phrase Finder, que reúne o significado e a origem de inúmeras palavras e frases, a expressão "La La Land" significa, em uma tradução amadora minha, "um local imaginário caracterizado pela fantasia, pela auto-absorção e pela alegre falta de contato com a realidade". Ainda de acordo com o site, a expressão, que começou a ser utilizada no final da década de 1970 nos Estados Unidos, também é empregada para se referir à cidade de Los Angeles, local onde se passa o filme. Isto se deveria, em parte ao fato da cidade ser popularmente chamada pela sigla LA e em parte devido ao "suposto comportamento frívolo e excêntrico da comunidade cinematográfica da cidade".

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

"O duelo dos neurocirurgiões": uma fascinante viagem pela história das neurociências

O trabalho do divulgador científico não é fácil. Para atingir o seu objetivo de transformar ou "traduzir" o conhecimento científico para não-especialistas, ele tem o grande desafio de ser simples sem ser simplista, de informar e encantar o leitor sem, contudo, reduzir a complexidade daquilo que comunica. Poucos possuem tal habilidade. De uma forma geral, o cientista detém grande conhecimento sobre seu objeto de estudo e escreve muito bem sobre ele para revistas e eventos científicos, que são lidos e vistos basicamente por outros cientistas, mas, frequentemente, eles demonstram grande dificuldade na comunicação com não-iniciados - e note bem que eu chamo tais pessoas de não-iniciados ou não-especialistas e não de "público leigo", haja vista que o conhecimento científico cada vez mais especializado faz com que mesmo dentro de uma pequena área do conhecimento cada pesquisador seja de alguma forma leigo nas demais subáreas (o que significa, em última instância, que todos, inclusive os cientistas, são leigos com relação à maioria dos assuntos, com exceção daquele que é especialista). Por outro lado, um divulgador que não é um cientista - por exemplo um jornalista científico - comumente acaba se comunicando de forma simplista e equivocada, exatamente por não compreender as complexidades do campo que pretende divulgar. Não é um desafio simples de ser vencido - e só o foi, de fato, por pouquíssimas pessoas.

Eu contaria nos dedos de uma mão os divulgadores científicos que conseguem encantar e despertar a curiosidade dos leitores e, ao mesmo tempo, trazer uma visão não-idealizada, contextualizada e até mesmo crítica da ciência - e nunca é demais lembrar que a crítica está (ou deveria estar) na base da produção e do conhecimento científicos. Divulgadores famosos como Carl Sagan, Richard Dawkins ou Stephen Hawking embora tenham sido bem sucedidos no encantamento de seus leitores, acabaram caindo numa visão excessivamente idealizada da ciência, entendendo a narrativa científica como superior a outras narrativas existentes, como a religiosa, a filosófica ou a artística - Dawkins e sua cruzada pró-ateísmo é um triste exemplo desta tendência. Infelizmente, poucos divulgadores escaparam e escapam deste modus operanti. Stephen Jay Gould, autor, dentre muitos outros, do magnífico livro A falsa medida do homem - um verdadeiro tratado contra o determinismo biológico - foi um deles. O brasileiro Marcelo Gleiser, autor do esplêndido A ilha do conhecimento: os limites da ciência e a busca por sentido, é outro. O jornalista Sam Kean, autor do recém-lançado O duelo dos neurocirurgiões - E outras histórias de trauma, loucura e recuperação do cérebro humano (Zahar, 2016), de certa forma também compõe este seleto grupo de divulgadores que encantam o leitor e, ao mesmo tempo, contextualizam e expõem as controvérsias envolvidas na produção do conhecimento científico. Certamente, Kean ainda não atingiu o brilhantismo e a sensatez de Gould e de Gleiser, mas ele é jovem ainda e tem tudo para adentrar no panteão dos grandes divulgadores.

Sam Kean
Kean, que também é autor das excelentes obras O polegar do violinista, sobre a história da genética,  e A colher que desaparece, sobre a história da química, agora se debruça sobre as neurociências, fazendo um rico e fascinante panorama histórico do campo, ao mesmo tempo em que apresenta de uma maneira simples, mas sem ser simplista, o conhecimento atual sobre o funcionamento do cérebro. Na verdade, Kean não faz propriamente uma história das neurociências, haja vista que este campo foi criado somente na década de 1960 após a expressão "neurociências" ser cunhada pelo pesquisador norte-americano Francis O. Schmitt (personagem que curiosamente não está presente no livro); na verdade, Kean faz um apanhado de diversas histórias relativas aos estudos e reflexões sobre o cérebro desde o século XVI.  O livro tem início com a interessante história que dá título à obra, uma curiosa situação desencadeada por um acidente sofrido pelo Rei Henrique II da França, que colocou em disputa dois importantes cirurgiões: Ambroise Paré, o cirurgião-real e Andreas Vesalius, famoso autor do pioneiro tratado de anatomia De Humani Corporis Fabrica. A partir daí, Kean retrata inúmeras outras histórias que envolvem desde cirurgiões e estudiosos do cérebro (alguns célebres como Paul Broca, Karl Wernicke, Santiago Ramon Y Cajal, Camilo Golgi, Paul Bach-y-Rita, Aleksandr Luria, Wilder Penfield, V.S. Ramachandran, Roger Sperry e Michael Gazzaniga, outros menos conhecidos como Brenda Milner, Edward Spitzka, David Hubel, Carleton Gajdusek, Eduard Hitzig e Gustav Fritsch) até pacientes com lesões cerebrais e/ou vitimas de estranhas síndromes (alguns "anônimos célebres" identificados pelas siglas H.M, C.K, S.M., W.J ou pelos apelidos Tan ou Lelo, outros simplesmente célebres como Phineas Cage, William Douglas ou Woodrow Wilson). O mais interessante é que Kean consegue conciliar a apresentação de casos menos famosos, como aquele que retrata a descoberta dos príons, com a exposição de detalhes pouco conhecidos de casos famosos, como o de Phineas Cage - sobre o qual o último capítulo do livro, denominado "O homem, o mito, a lenda", é dedicado.

E à medida que as histórias vão sendo contadas por Kean, vamos compreendendo como os conhecimentos que hoje possuímos foram construídos. Na história sobre a disputa entre Santiago Ramon Y Cajal e Camillo Golgi em torno da questão de se o sistema nervoso é formado por uma rede contínua (teoria reticular, defendida por Golgi) ou por neurônios individuais (teoria neuronal, defendida por Ramon Y Cajal), acabamos por descobrir como e porque a teoria defendida pelo pesquisador espanhol acabou prevalecendo; já na história sobre a disputa entre os "sopas", pesquisadores que defendiam que a conexão entre os neurônios seria química, e os "faíscas", que defendiam que tal conexão seria elétrica, acabamos por entender como foi o processo de descoberta das sinapses e dos neurotransmissores; finalmente, na história envolvendo os neuroanatomistas Paul Broca e Karl Wernicke podemos compreender como  se iniciou a disputa, ainda não plenamente resolvida, entre os localizacionistas e os distribuicionistas, ou seja, entre os defensores da ideia de que cada área do cérebro é responsável por determinadas funções e aqueles que entendem que o cérebro funciona como um todo. Como já deve ter ficado claro por estes exemplos, a história das neurociências - assim como de qualquer outra área da ciência - é a história das disputas entre diferentes ideias. Por uma série de motivos, eventualmente determinadas ideias ou teorias acabam prevalecendo, mas isto não significa que elas sejam verdadeiras, apenas que resistiram às tentativas de refutação. A "verdade", nesse sentido, é aquilo que resiste ao tempo. Pode ser que no futuro, determinadas ideias que hoje julgamos verdadeiras, não resistam mais e acabem por sucumbir - da mesma forma como inúmeras ideias disseminadas e defendidas no passado. O livro de Kean, ainda que não trate propriamente destas questões, é um excelente lembrete de como a ciência é e sempre será um conhecimento provisório, exatamente por ser construída por pessoas reais em contextos históricos e sociais específicos. Como bem afirma o físico e divulgador científico Marcelo Gleiser no maravilhoso livro A ilha do conhecimento, "a versão da realidade que chamamos 'verdadeira' em determinado período da história não continuará a sê-lo na outra... O que chamamos de 'realidade' está sempre mudando". 

Update 10/02/2016: existem pouquíssimas publicações no Brasil sobre a "história das neurociências". O único livro quase inteiramente dedicado a este tema que eu tenho conhecimento é o História e filosofia da neurociência (Ed. Liber Ars, 2015). Além disso, nos grandes manuais de neurociência comumente existe um capítulo ou uma seção dedicada à história da disciplina - caso, por exemplo, da obra Neurociência Cognitiva: a Biologia da mente, organizada pelo neurocientista Michael Gazzaniga, que possui um capítulo denominado Breve história da Neurociência Cognitiva (leia aqui). Mas, para além de livros, quem tem uma considerável produção sobre a história das neurociências é o professor Renato Sabbatini, biomédico e coordenador da revista virtual de divulgação científica Cérebro&Mente - que possui uma série de artigos sobre a história dos estudos cerebrais (veja aqui). Sabbatini também é o responsável por um curso à distância denominado Curso de Introdução à História das Neurociências. Eu já fiz e recomendo. O material didático é excelente e a cada capítulo há uma aula em video do professor falando sobre o tema (veja aqui uma aula introdutória).

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Novidades e controvérsias sobre a cirurgia de transplante de cabeça

PRÓLOGO - Lançado em 1962, o bizarro filme trash O cérebro que não queria morrer (no original The Brain That Wouldn't Die) conta a história do experiente e obsessivo cirurgião Bill Cortner que, paralelamente à sua atuação no hospital, realiza uma série de experiências secretas com transplantes de órgãos. Certo dia, passeando de carro com sua noiva Jan, eles sofrem um grave acidente. Cortner se salva sem muitos ferimentos mas sua noiva é consumida pelo fogo. Sem hesitar, ele pega a cabeça dela, que bizarramente parecia já estar solta de seu corpo, e leva para seu laboratório secreto. Lá ele coloca sua cabeça em uma bandeja e a conecta a uma série de tubos e fios, o que surpreendentemente faz com que Jan, ou melhor, sua cabeça, retorne à vida. No entanto, ao contrário do que sugere o título do filme em português, "o cérebro" de Jan quer morrer e repete insistentemente: "deixe-me morrer!" - na verdade, a expressão wouldn't die do título original aponta para a ideia de que o cérebro não deveria morrer e não que não queria morrer. De toda forma, Cortner não está disposto a deixar Jan morrer; pelo contrário, ele pretende encontrar um novo corpo para sua amada e transplantar sua cabeça nele. O sombrio assistente de Cortner, Kurt, não concorda todavia com este plano, como fica claro neste interessante diálogo entre os dois:

Dr. Cortner: Eu tive êxito com transplantes. Posso fazer isso com ela.
Kurt: Transplantá-la para que?
 - Eu a trouxe de volta. Viverá e arrumarei outro corpo. Posso torná-la completa novamente.
- Só um louco acreditaria que ela seria como antes.
- Não discuta comigo. Eu a amo demais para deixar que fique assim... Você verá!
- Não consegue perceber? Não consegue enxergar? Há um padrão para tudo o que vive. Uma ordem! Uma organização! Ela tinha um coração e um cérebro. O espírito estava em ambos e não em um ou em outro.
- Não! Eu lhe darei um cérebro e um coração.
- E quanto à alma dela? Você diz que a ama. Lembra do amor dela por você? Como pode torná-la uma experiência de horror?

Cortner opta por ignorar as preocupações de Kurt e dá início à busca por um novo corpo para Jan. Para tanto percorre sorrateiramente bordéis e agencias de modelos, em busca do "corpo perfeito" para ela - a ideia é sequestrar e matar uma bela mulher sem que ninguém perceba. Enquanto isso, Kurt e Jan conversam no laboratório. Em certo momento ela afirma: "Ele devia ter me deixado morrer. O odeio pelo que ele fez comigo. Se ao menos ele soubesse como é estar assim... Nada pode ser mais terrível que eu: uma cabeça sem um corpo". Mais adiante Jan, que é enfermeira, questiona o imaginado sucesso do procedimento de transplante de cabeça afirmando que "os tecidos do meu corpo rejeitariam os de outro. Rejeitariam como o corpo estranho que é. O transplante jamais daria certo". Kurt rebate: "Sim, mas a nova descoberta dele, esse novo soro, pode mudar tudo isso. O soro injetado na corrente sanguínea age nos tecidos linfóides, aqui no pescoço. Os linfóides produzem os anticorpos do sangue que detectam membros estranhos transplantados. Não tinha sido testado ainda". A ideia é que tal soro, criado por Cortner, seja usado no transplante de Jan assim como no de Kurt, que perdeu o braço esquerdo e teve um transplante malsucedido feito por Cortner. Pois bem, no fim das contas o cirurgião captura um corpo para Jan. Na verdade, ele consegue atrair para seu laboratório uma modelo que tem uma queimadura na lateral do rosto e deseja passar por uma cirurgia reparadora - temos, enfim, um encaixe perfeito: uma mulher que quer ter um outro rosto e uma mulher que precisa de um outro corpo. Cortner então dá uma substância entorpecente para esta mulher e ela desmaia. No entanto, logo antes de iniciar a cirurgia, uma criatura monstruosa que Cortner mantinha presa em seu laboratório, e na qual ele fazia inúmeras experiências malsucedidas de transplante, se solta, mata Cortner, bota fogo no local e salva a modelo (mas não a cabeça de Jan). O transplante de cabeça não pôde, enfim, ser realizado... nem na ficção e, até hoje, nem na vida real. Mas um cirurgião, visto por muitos como um "cientista maluco" - como o Dr. Cortner ou o Dr. Frankenstein - promete que este ano ocorrerá o primeiro transplante de cabeça da história. E é sobre isso que falarei a seguir...

Sérgio Canavero
Em um post de 2015 eu apresentei e discuti algumas dificuldades técnicas e implicações filosóficas da promessa feita pelo neurocirurgião italiano Sérgio Canavero de que este ano, 2017, será realizada a primeira cirurgia de transplante de cabeça - o paciente, inclusive, já foi escolhido. Valery Spiridonov, um programador russo que sofre de uma gravíssima doença muscular degenerativa chamada síndrome de Werdnig-Hoffman, terá sua cabeça cortada e transplantada em um outro corpo. Ao que tudo indica, a promessa ainda está de pé e pode ser que até o fim deste ano a cirurgia seja de fato realizada - se será bem sucedida é uma outra história... Pois bem, desde o primeiro anúncio em fevereiro de 2015 muitas águas rolaram e muitas controvérsias surgiram. Comecemos pelas novidades - ou supostas novidades, pois muitos estão céticos com relação aos resultados de alguns experimentos realizados por Canavero e seus colaboradores. A primeira novidade é a aproximação de Canavero com cirurgiões e pesquisadores chineses e sul-coreanos. Tal aproximação, além de juntar cirurgiões e pesquisadores que tem o mesmo propósito, pode ainda facilitar a concretização da cirurgia na China ou na Coréia do Sul, haja vista que na Europa uma série de entraves éticos pode dificultar sua concretização. A primeira parceria estabelecida por Canavero foi com Xiaoping Ren, um neurocirurgião chinês que já teria (repito: teria) realizado mais de mil transplantes de cabeça em ratos e até mesmo um transplante em um macaco - sobre essa última suposta cirurgia, Canavero comentou em um evento que após ter a cabeça cortada, resfriada a -15ºC e transplantada em outro corpo, o macaco teria sobrevivido "sem qualquer lesão neurológica" - e também sem  movimentos corporais, pois não houve a tentativa de fundir as medulas da cabeça e do novo corpo. A ideia era replicar o experimento realizado na década de 1970 pelo cirurgião norte-americano Robert White (veja aqui as imagens desta cirurgia) de forma a verificar se era possível manter a cabeça separada do corpo sem lesões cerebrais e com suprimento de sangue - o que, segundo eles, ocorreu. No entanto, o macaco teria sido mantido vivo por apenas 20 horas após o procedimento por "razões éticas" (?!?). Muitos cirurgiões e cientistas estão céticos com relação à realização e suposto sucesso desta cirurgia, pois Ren e Canavero não divulgaram nenhum video do procedimento e nenhum artigo foi publicado em um periódico científico detalhando a cirurgia; só o que temos é a palavra de Canavero e uma foto pós-cirúrgica do macaco - como bem apontou Arthur Caplan, fundador da Divisão de Bioética da Universidade de Nova York, isto "é ciência através de relações públicas"; e acrescentou: "somente quando isto for publicado em uma revista revisada por pares eu vou ficar interessado"

A "suposta" recuperação do cachorro
A segunda parceria estabelecida por Canavero foi com C-Yoon Kim, professor e pesquisador no Departamento de Biologia de Células-Tronco da Faculdade de Medicina da Universidade Konkuk, na Coréia do Sul. Juntamente com outros pesquisadores sul-coreanos, Kim publicou em Agosto de 2016 no periódico Surgical Neurology International, em um volume inteiramente editado por Canavero, dois artigos nos quais relata experiências com dano e reparação da medula espinhal em ratos e em um cachorro. Ambos experimentos foram conduzidos essencialmente da mesma forma: uma lesão cervical "quase completa", de 90%, teria sido feita na medula dos animais e então os pesquisadores aplicaram na área danificada uma substância denominada Texas-PEG, que é uma versão aprimorada do Polietilenogicol (PEG) - o nome Texas-PEG se deve ao fato de que os pesquisadores que a desenvolveram estarem ligados à Universidade de Rice, que fica no estado do Texas nos Estados Unidos. Esta substância estimularia a regeneração das células da medula, funcionando na prática como uma "cola" entre as duas extremidades - daí a expectativa de que ela seja uma peça chave na cirurgia de transplante de cabeça em humanos (o Texas-PEG é, para Canavero, uma espécie de versão 2.0 do "soro" mágico desenvolvido pelo Dr. Cortner). Nos videos divulgados destas experiências (que podem ser vistos aqui) é possível observar uma gradual recuperação dos animais ao longo das semanas. No caso dos ratos, a experiência foi feita com cinco animais, mas apenas um (aquele que aparece no video) teria sobrevivido e gradualmente voltado a andar após duas semanas. No caso do cachorro, um dia após a realização do dano medular, seu corpo permaneceu paralisado; no entanto, após 3 dias, um movimento mínimo foi detectado em seus membros; após duas semanas ele conseguiu se arrastar com ajuda das patas traseiras e após 3 semanas, finalmente, ele conseguiu andar. Jerry Silver, neurocientista da Universidade Case Western Reserve nos Estados Unidos, afirmou sobre estas duas experiências que elas não dão suporte para a replicação da técnica em  humanos. Disse ainda, sobre a segunda experiência, que "o cachorro é um relato de caso e você não aprende muito com apenas um único animal e sem que haja um grupo de controle. [Além disso] eles disseram que cortaram a medula espinhal em cerca de 90% mas não há nenhuma evidência disso no artigo, apenas algumas imagens grosseiras". Já o bioeticista Arthur Caplan, de forma ainda mais crítica, afirmou sobre os dois experimentos: "estes estudos os colocaria [Canavero e Cia]  três ou quatro anos até a reparação de uma medula espinhal em seres humanos, mas a sete ou oito anos de qualquer tentativa como um transplante de cabeça".

O sistema de realidade virtual
Além de críticas relativas à crueldade dos experimentos, os pesquisadores foram bastante questionados com relação ao suposto sucesso do procedimento já que no caso dos ratos, 4 dos 5 animais testados morreram. Desta forma, se não há até agora grande sucesso na recuperação de ratos (e ainda mais tendo em vista que o dano na medula não foi completo) será que é possível pensar já para este ano em uma cirurgia de transplante de cabeça com humanos? Talvez Canavero e seus colaboradores estejam, como diz o ditado, colocando o carro na frente dos bois. O cirurgião italiano, como já era de se esperar, não concorda com esta visão e afirma que tais experimentos, somados a outros que serão realizados ao longo deste ano com animais e também com cadáveres humanos, fornecerão o embasamento necessário para que a cirurgia aconteça até o Natal de 2017. Além disso, Canavero apresentou no ano passado duas novas tecnologias que poderão contribuir para o sucesso da empreitada. A primeira delas é uma "nanolâmina", ou seja, um dispositivo de corte para procedimentos delicados, que ele pretende utilizar durante a cirurgia. Em um evento científico realizado em 2016 nos Estados Unidos, o cirurgião exibiu slides com o projeto desta tal "nanolâmica" mas não apresentou nenhum objeto físico - o que deu ainda mais munição para seus críticos, que entendem que Canavero apresenta sempre muito mais do que possui. A outra tecnologia apresentada pelo italiano no final de 2016 foi um sistema de realidade virtual, desenvolvido pela empresa norte-americana Inventum Bioengineering Technologies, que teria como objetivo ajudar os sujeitos transplantados no processo de adaptação ao novo corpo. De acordo com o presidente da empresa, Alexander Pavlovcik, a ideia é "prevenir a ocorrência de reações psicológicas inesperadas". Segundo ele, "o paciente será imergido em experiências de realidade virtual que envolverão atividades que exigem o uso de movimentos corporais. Essas experiências são desenvolvidas em referência às técnicas utilizadas na neuro(re)habilitação convencional com o propósito de fornecer sensações mais realistas envolvidas nas funções motoras voluntárias. O paciente passará pelo treinamento de realidade virtual meses antes do início do procedimento com o objetivo de se preparar de modo adequado para a normalidade da vida em um novo corpo" - neste video é possível entender exatamente como funcionará esta tecnologia. 

Com relação às controvérsias, a mais bizarra delas foi a teoria de que toda esta história de transplante de cabeça não passaria de uma grande campanha de marketing de um novo jogo de video game chamado "Metal Gear Solid V: Phantom pain". Tal controvérsia teve início com a publicação de um video de divulgação do jogo, que mostrava um médico extremamente semelhante a Canavero (veja a imagem acima). Tanto a empresa Konami, produtora do jogo, quanto o próprio Canavero, negaram tal teoria, que se mostrou, como inúmeras outras teorias da conspiração, uma grande bobagem. A explicação da semelhança entre Canevero e o personagem do jogo é mais simples: o médico serviu de inspiração para o personagem. Nada mais e nada menos que isso. Mas existem outras controvérsias mais sérias e contundentes. Por exemplo, o bioeticista Arthur Caplan, que já mencionei acima, chamou Canavero de "charlatão" e afirmou que com toda essa promessa de transplante de cabeças ele está "vendendo falsas esperanças". Caplan ainda disse que Canavero deveria estudar a regeneração do nervo com o PEG em pessoas com lesão medular antes de tentar um transplante de cabeça. Segundo ele, "há centenas de milhares de pessoas que poderiam se beneficiar de algo que iria regenerar a medula espinhal. É como dizer que eu quero voar para a próxima galáxia, ao passo que seria bom criar primeiro uma colônia em Marte, e eu considero essas mesmas probabilidades", completou. Já Hunt Batjer, presidente eleito da Associação Americana de Cirurgiões Neurológicos, disse à CNN: "Eu não desejo isso a ninguém. Eu não permitiria que ninguém fizesse isso em mim, pois há muitas coisas piores do que a morte" - como Kurt afirma no filme, uma cirurgia como essa seria uma "experiência de horror". Finalmente, Wang Yifang, professor de Ética Médica na Universidade de Beijing, afirmou sobre a cirurgia: "é muito complicado. Você tem sua própria cabeça mas um outro corpo. Então quem é você?". E acrescentou: "mesmo que isso venha a ser possível, ao utilizar o corpo de um doador em apenas uma pessoa, cujos órgãos saudáveis podem ajudar várias outras, pode ser que isso não seja justo". Em geral a comunidade científica se divide entre duas categorias na avaliação que fazem de Canavero: uma parte considerável - eu arriscaria dizer majoritária - o considera uma espécie de Dr. Frankenstein picareta que busca apenas a fama disseminando falsas promessas; uma outra parte, em menor número, o considera um inovador, um sujeito disposto a tentar aquilo que muitos consideram impossível. Tendo em vista que no passado inúmeros cientistas se mostraram céticos com relação às cirurgias de transplante de coração, e mais recentemente, de transplante de rosto, é possível que os céticos (dentre os quais me incluo) se mostrem equivocados. Só o futuro dirá quem tem razão.

Observação 1: no Brasil, o site que vem realizando a melhor e mais completa cobertura das ações e promessas de Canavero e Cia Ltda é o Assombrado.com, que já publicou sete longos textos/reportagens sobre o assunto desde 2015. Para acessá-los clique nos números a seguir, relativos a cada um das publicações: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 #ficaadica

Observação 2: uma refilmagem do filme "O cérebro que queria morrer" já foi gravada e está em fase de pós-produção. A previsão de lançamento é para 2018. Veja fotos dos bastidores e informações detalhadas sobre a produção e o elenco  neste link. Abaixo, o cartaz do filme.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Seremos substituídos por robôs?

Gari-Robô limpando as ruas da cidade
A série britânica Humans, que já apresentei e discuti em outro post, retrata uma sociedade na qual robôs humanizados, denominados sintéticos ou synths, substituíram os seres humanos em inúmeras tarefas e trabalhos. Ao longo da série, que está atualmente na segunda temporada, vemos synths trabalhando como garis, empregados domésticos, jardineiros, operários, atendentes de loja, cuidadores de idosos, dentre muitas outras funções de menor prestigio na sociedade. Os sintéticos exercem, assim, grande parte dos trabalhos mais precarizados realizados anteriormente pelos seres humanos. Logo no primeiro episódio, um dos desenvolvedores dos sintéticos é questionado se as máquinas, ao substituírem humanos, não estariam desvalorizando a humanidade, e ele responde: "A melhor razão para fazer máquinas parecidas com pessoas é tornar as pessoas menos mecanizadas. A mulher na China, que trabalha 11 horas por dia costurando bolas; o menino em Bangladesh inalando veneno enquanto invade um navio por sucata; o mineiro na Bolívia, que encara a morte a cada dia de trabalho. Eles podem ser passado. Dispositivos sintéticos libertam as pessoas. Tratamos pessoas como máquinas por tempo demais. É hora de libertar suas mentes, seus corpos, para pensar, para sentir, para serem mais humanos. Mas muita gente pode argumentar que trabalho é direito humano, que o trabalho duro traz autovalorização. Deveriam passar uma semana em uma fábrica de microchip". Ainda que se trate de uma reflexão bastante pertinente e atual, ela deixa de fora uma questão extremamente problemática. À medida que mais e mais funções forem executadas por máquinas, menos o ser humano será necessário e maior poderá ser o desemprego.

Joe Hawkins: gerente substituído por sintético
Certamente é possível contra-argumentar que na medida em que que certos empregos forem extintos, outros serão criados - como ocorreu até hoje -, mas isto depende da extensão deste processo de substituição. Se a maioria dos trabalhos atualmente executados por humanos passar a ser executado por máquinas, provavelmente não será possível deslocar todos os sujeitos recém-desempregados para novas funções - especialmente os mais velhos e sem qualificação. Segundo o historiador Yuval Noah Harari, no livro Homo deus - cuja resenha pode ser lida aqui -, "no século XXI, poderíamos assistir à criação de uma maciça classe não trabalhadora: pessoas destituídas de qualquer valor econômico, político ou artístico, que em nada contribuem para a prosperidade, o poder e a glória da sociedade. Eles não estão simplesmente desempregados - eles serão inempregáveis". Harari os chama de "a classe inútil". Na série, o personagem Joe Hawkings passa a fazer parte desta classe. Demitido do cargo de gerente de uma empresa e substituído por um sintético, Joe encontra grande dificuldade em encontrar um novo emprego, haja vista que grande parte das funções, desde as mais simples até as mais complexas (como a de gerente), passam a ser executadas por sintéticos. Esta situação ficcional não se encontra, todavia, tão distante assim da realidade. No livro The future of employment (O futuro do emprego), os pesquisadores Carl Benedikt Frey e Michael Osborne estimam que 47% dos empregos nos Estados Unidos correm alto risco de serem extintos e substituídos por algoritmos nos próximos 20 anos. Segundo os autores, há 99% de probabilidade de que em 2033 operadores de telemarketing e corretores de seguro sejam substituídos por máquinas inteligentes; 97% de que o mesmo ocorra com operadores de caixa; 94% com garçons e assistentes jurídicos; 91% com guias de turismo; 89% com padeiros; 89% com motoristas de ônibus e assim por diante. A situação dos motoristas, especialmente, é bastante delicada. Com o aperfeiçoamento e popularização dos carros autônomos, como aqueles desenvolvidos pelo Google e pela Tesla, é bem possível que em breve toda a categoria dos motoristas e taxistas deixe de existir - como ocorreu, no passado com os telefonistas e os entregadores de leite.

Você pode duvidar que isto venha a acontecer, como eu próprio duvido de muitas destas previsões alarmistas sobre o futuro, mas o fato é que o mundo do trabalho muda a cada momento. Muitas profissões que já estiveram em alta, hoje estão em baixa e outras, inclusive, deixaram de existir. Não dá para saber com exatidão, mas é bem provável que, de fato, máquinas venham a substituir pessoas em algumas funções, como tem ocorrido desde a Revolução Industrial. Certamente, é preferível acreditar que existem funções que jamais poderiam ser executadas por máquinas, funções que somente nós, humanos, poderíamos realizar. O trabalho de psicoterapeuta é um deles. Você consegue imaginar atividade mais "humana" que a de um psicoterapeuta, que dia após dia acolhe, escuta e orienta pessoas em sofrimento? Será que no futuro algum sistema de inteligência artificial conseguirá reproduzir ou pelo menos simular o trabalho de um psicólogo clínico? Na década de 1960 o cientista da computação norte-americano Joseph Weizenbaum desenvolveu o Eliza, um programa de inteligência artificial - ou, segundo este autor, de estupidez artificial - que simulava a atuação de uma terapeuta rogeriana - caso você tenha interesse, é possível "conversar" com Eliza, ou melhor, com uma versão atualizada dela, através deste link. O programa, incrivelmente simples para os padrões atuais, basicamente fazia algumas perguntas, criadas em função das últimas frases escritas pelo "paciente" e buscava algumas palavras-chave como "mãe" ou "família"; quando não encontrava, simplesmente respondia com frases vagas como "Fale mais sobre você" ou "Conte-me mais". Algumas pessoas na época ficaram encantadas com tal tecnologia mas, sinceramente, acho difícil imaginar algo mais distante de um terapeuta real do que um programa como esse. Ele pode até simular vagamente alguns diálogos básicos de um terapeuta, mas falta-lhe muito para ser e agir de fato como um terapeuta. Na realidade, Weizenbaum criou Eliza como uma paródia da interação entre psicoterapeuta e paciente e também como uma forma de demonstrar a superficialidade das relações entre humanos e máquinas. Weizenbaum sabia muito bem que entre a simulação e a realidade há uma longa distância.

Psicóloga Robô atende o casal Hawkins
A série Humans também explora esta possibilidade de uma terapeuta-robô, dando um passo adiante. Na série, o casal Hawkins passa por uma crise conjugal - desencadeada pelo fato de o marido ter feito sexo com uma sintética - e eles decidem procurar uma terapeuta de casal. No entanto, no dia agendado, a terapeuta passa mal e a secretaria oferece para eles a possibilidade de serem atendidos por uma terapeuta-sintética chamada Bárbara. Segundo a secretária, "alguns casais preferem falar com alguém que não os julguem". Eles decidem experimentar e acabam em parte decepcionados e em parte satisfeitos. Eles ficam decepcionados porque a terapeuta-robô age de forma mecânica e automatizada como todos os sintéticos não-conscientes. Em certo momento, Joe questiona Bárbara a respeito de como ela poderia indagar sobre as emoções dele sendo que ela não possui emoções. Bárbara responde, de forma mecanizada: "Eu avalio os registros anônimos e, os relaciono, com análises estatísticas de mais de 38.000 consultas de aconselhamento. Nos casos de infidelidade envolvendo um sintético, cerca de 66% dos entrevistados, relataram que o principal obstáculo para uma reconciliação tratava-se de um desequilíbrio no impacto captado e, do significado do ato, ou, dos atos, de infidelidade". Enfim, Bárbara baseia suas consultas não em teorias e técnicas psicoterapêuticas ou na relação de afeto entre terapeuta e paciente, mas em estatísticas. No entanto, a consulta acaba sendo em parte satisfatória pois, na ausência de uma pessoa real, o casal acaba dialogando como há tempos não fazia. Eles de certa forma aproveitam da artificialidade daquela situação para trazerem à tona a realidade do problema que enfrentam. De toda forma, ainda que esta situação pareça uma terapia e possa até mesmo ser terapêutica em alguma medida, eu tenho lá minhas dúvidas se um robô como esse poderia ser realmente chamado de psicoterapeuta. E eu digo "poderia" porque ainda não temos nada nem vagamente parecido com isso. As inteligências artificiais desenvolvidas até o momento, ainda que úteis para atividades específicas, em nada se assemelham àquilo que vemos nos filmes de ficção científica. Pode ser que no futuro psicólogos, médicos, advogados e todas as outras profissões que exigem uma grande dose de certas aptidões cognitivas, mais do que de aptidões físicas, sejam substituídas por robôs ou programas de inteligência artificial, mas certamente ainda há um longo percurso até que cheguemos a isso - se é que um dia chegaremos. A única certeza, como bem aponta Harari, é que o mundo muda e continuará mudando o tempo todo. Pode ser que no futuro nos tornemos "inúteis" e "inempregáveis", mas até lá, continuaremos, insubstituíveis.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Quando os homens se tornam deuses: uma resenha crítica do livro "Homo Deus"

Após analisar o nosso passado no sensacional Sapiens: uma breve história da humanidade, agora o historiador israelense Yuval Noah Harari decidiu olhar para o futuro com seu novo livro Homo Deus: uma breve história do amanhã, recém-lançado no Brasil. Trata-se de um livro muitíssimo bem escrito, de leitura agradável e que trata, como o primeiro, de grandes e relevantes questões sobre a humanidade. Certamente há alguns equívocos e reducionismos, mas o saldo, definitivamente, é positivo. Tenho de confessar que não me agradava muito a ideia de livros do tipo "uma breve história" - e nem aqueles do tipo "A história do universo/mundo/Brasil para preguiçosos" ou "para quem tem pressa" e muito menos obras como o "Guia politicamente incorreto da história do Brasil" ou qualquer uma destas modinhas literárias - mas também tenho que confessar que há algum tempo decidi ler Sapiens e adorei - e até já recomendei para amigos e parentes. E após tal leitura passei, inclusive, a questionar minha descrença em livros do tipo "uma breve história" afinal, se pararmos para pensar, poucos de nós temos realmente tempo e disposição para ir direto à fonte e estudar a "longa história" do que quer que seja. Se você não é historiador - e mesmo que seja -  dificilmente estudará com grande profundidade a história da humanidade, do mundo ou do Brasil. Isto significa que feliz ou infelizmente, o que nos resta são estas tais "breves histórias".

Pois bem, a ideia geral deste novo livro de Harari é tentar entender quais foram os desafios da humanidade até agora e imaginar, a partir do presente, quais serão nossos desafios futuros. Segundo o autor, os grandes obstáculos da humanidade até o presente foram a fome, as pestes e as guerras. Para ele, tais questões, ainda que não tenham sido ainda completamente superadas, já foram amplamente controladas e já não são entendidas como problemas aquém ou além do controle humano. Como aponta Harari, "nas últimas poucas décadas demos um jeito de controlar a fome, as pestes e a guerra. É evidente que estes problemas não foram completamente resolvidos, no entanto foram transformados de forças incompreensíveis e incontroláveis da natureza em desafios que podem ser enfrentados. Não precisamos rezar para nenhum deus ou santo para que nos salvem deles. Sabemos bem o que precisa ser feito para evitar a fome, as pestes e a guerra - e geralmente somos bem sucedidos em fazê-lo". Com relação à fome, por exemplo, o autor afirma que a humanidade conseguiu superar largamente a falta de alimentos, ampliando, entretanto, outro grave problema: a obesidade. Segundo Harari "o hábito de comer demais tornou-se um problema muito pior que o da fome". O autor ignora, todavia, a chamada fome oculta, que se refere à carência de certos micronutrientes essenciais, consequência de uma alimentação ruim, que é considerado atualmente o problema nutricional mais prevalente no mundo. Da mesma forma, Harari parece superestimar a capacidade do ser humano de lidar com o problema da fome, que ainda acomete milhões de pessoas em todo o mundo, inclusive no Brasil. Certamente houveram avanços, mas isto não significa que trata-se de um desafio do passado. A fome continua e provavelmente continuará sendo um problema nas próximas décadas - basta observar os dados do Mapa da Fome 2015, que constatou que 795 milhões de pessoas ainda passam fome no mundo.

Com relação à guerra, Harari segue o entendimento contra-intuitivo disseminado, dentre outros, pelo psicólogo Steven Pinker no livro Os anjos bons da nossa natureza de que a violência vem diminuindo gradativamente ao longo da história. Trata-se de um entendimento controverso, muito criticado por cientistas sociais - que entendem que a violência não se limita à violência física incluindo também a chamada violência simbólica - mas que vem se disseminando amplamente. A ideia básica desta teoria é que atualmente não vigoraria mais no mundo a Lei da Selva, segundo a qual, mesmo que duas políticas convivessem em paz, a guerra permanecia como opção. Atualmente, segundo Harari, a Lei da Selva foi quebrada e não vigora mais na maior parte do mundo. Para o autor, "pela primeira vez na História, quando governos, corporações e indivíduos privados avaliam o futuro imediato, muitos não pensam na guerra como um acontecimento provável". A ideia é que antes a guerra era a regra, hoje tornou-se a exceção. Mas cabe a reflexão de que talvez isso valha para grande parte dos países, especialmente para os "desenvolvidos", mas certamente não para todos. A guerra ainda é a regra em muitas regiões, como bem demonstra o Índice Global da Paz 2015. Finalmente, Harari discorre sobre as pestes, que segundo ele foram amplamente controladas pela humanidade. Para o autor, anteriormente à era moderna, "as autoridades eram completamente impotentes diante da calamidade. Além de organizar orações em massa e procissões, não tinham ideia de como interromper a propagação de uma epidemia - e muito menos de como curá-la". Durante o último século, no entanto, ainda que a humanidade tenha ficado mais vulnerável com o aumento da população e a maior movimentação de pessoas entre os países, "as epidemias representam uma ameaça muito menor à saúde do homem do que representaram no milênio anterior. A imensa maioria das pessoas morre de enfermidades não infecciosas como o câncer e doenças cardiovasculares, ou simplesmente de velhice". Nesse ponto o autor parece estar correto, ainda que em muitas regiões do mundo milhões de pessoas ainda morram vítimas de doenças infecciosas como a malária, o HIV e o ebola. De toda forma, ele tem razão ao afirmar que tais problemas não se devem à fatores naturais ou divinos mas simplesmente à ação, ou melhor, à omissão dos seres humanos.

Sobre estas três grandes questões, Harari aponta, de forma resumida: "Fome, pestes e guerra provavelmente continuarão a reivindicar milhões de vítimas nas próximas décadas. No entanto, não são mais tragédias inevitáveis, além da compreensão e do controle de uma humanidade impotente. Em vez disso, tornaram-se desafios que podem ser manipulados". Tendo isto em vista, Harari passa a pensar, então, quais serão os projetos que substituirão a fome, as pestes e a guerra no topo da agenda humana no século XXI. E sua aposta é que no lugar destas três questões, entrarão em pauta outras três: a imortalidade, a felicidade e a divindade. O primeiro projeto passa pela superação da velhice e da morte. Segundo o autor, por muito tempo a humanidade não santificou a vida em si mesma, mas sim a vida após a morte. Com a ascensão da visão humanista e o declínio da hegemonia religiosa, a vida passou a ter um valor em si mesma e, com isso, a morte passou a ser vista como um problema a ser superado. A ideia de muitos cientistas atuais, que buscam formas de ampliar o tempo de vida e mesmo atingir a imortalidade, é que a morte é um mera falha técnica. Caso descubramos como evitar e tratar certas doenças e substituir determinados órgãos doentes, poderemos então atingir a vida eterna. Este é o projeto; se ele será concretizado é uma outra história. Como aponta Harari, "nosso compromisso ideológico com a vida humana nunca permitirá que simplesmente aceitemos a morte. Enquanto a morte for motivada por alguma coisa, estaremos empenhados em superar suas causas". Sobre este tópico tendo a concordar com Harari que este é realmente um projeto em curso. No entanto, assim como o autor, tenho lá minhas dúvidas se isto um dia será atingido - mas não só: fico pensando se ser imortal é realmente uma boa coisa. Tendo a pensar como a Anciã do filme Doutor Estranho segundo a qual é a morte que dá sentido à vida e é só porque morremos que nos empenhamos em fazer de nossa curta e efêmera existência algo significativo. 

O segundo projeto para o futuro seria a obtenção da felicidade - afinal, como bem aponta Harari, de que adiantaria atingir a imortalidade e passar a eternidade infeliz? Este projeto esbarra, entretanto, em inúmeros limites e dificuldades. O principal deles é que em uma sociedade individualista como a que vivemos, o que faz cada indivíduo feliz varia imensamente. É possível certamente pensar em inúmeras ações coletivas que favoreçam o bem-estar, como diminuir a fome, a desnutrição e a obesidade, buscar a cura e o tratamento de doenças, proporcionar abrigo, segurança, trabalho e diversão para o conjunto da população, dentre muitas outras coisas. Tudo isto pode trazer bem-estar ou minimizar o mal-estar mas não necessariamente trará felicidade. Isto fica evidente, como bem aponta Harari, ao se observar as taxas de suicídios no mundo desenvolvido, que são muito mais elevadas do que nas sociedades tradicionais. Isto significa que indivíduos que possuem as principais necessidades atendidas não necessariamente são felizes - aliás, comumente não o são. Como afirma o autor, "alcançar uma felicidade afirmativa pode ser muito mais difícil do que abolir completamente o sofrimento. Um pedaço de pão era suficiente para alegrar um camponês medieval faminto. Como alegrar um engenheiro entediado, muito bem remunerado e obeso?". Como todos os psicólogos sabem muito bem, nada do que diz respeito ao ser humano é simples - muito menos o que gera felicidade. Harari continua: "a impressão que se tem é que nossa felicidade vai de encontro a um misterioso teto de vidro que não permite seu crescimento, a despeito das conquistas sem precedentes que foram alcançadas. Mesmo se provêssemos alimento grátis para todos, curássemos todas as doenças e assegurássemos a paz mundial, tudo isso não iria necessariamente fazer em pedaços o teto de vidro. Alcançar a verdadeira felicidade não vai ser muito mais fácil do que vencer a velhice e a morte". Mas então o que resta? O caminho que muitos cientistas vem percorrendo para atingir a felicidade individual e coletiva é a busca por novas medicações que levem a uma permanente, embora artificial, felicidade. Sobre isso Harari comenta: "alcançar a felicidade por meio da manipulação biológica não será fácil, pois requer a alteração dos padrões fundamentais da vida. Tampouco foi fácil vencer a fome, a peste e a guerra". Estaríamos, então, caminhando para um Admirável Mundo Novo no qual as medicações determinarão completamente os nossos sentimentos? Espero que não!

Finalmente, o terceiro e último projeto para o futuro seria a transformação do homem em uma divindade. Este projeto na verdade abarca e vai além dos outros dois, afinal, como aponta Harari, "ao buscar a felicidade e a imortalidade, os humanos estão na verdade tentando promover-se à condição de deuses. Não só porque esses atributos são divinos, mas igualmente porque, para superar a velhice e o sofrimento, terão de adquirir primeiro um controle de caráter divino sobre o próprio substrato biológico". Este projeto, para o autor, poderá ser concretizado por três principais vias: 1) através da engenharia biológica, que modificará ativamente nossos genes, hormônios e neurônios, transformando, com isso, nosso corpo e nossa mente; 2) através da engenharia cibernética, que fundirá nosso corpo orgânico com dispositivos não orgânicos, elevando-nos à condição de ciborgues; e 3) através da engenharia de seres não orgânicos, que criará formas de vida totalmente independentes da biologia. Caso estas vias sejam efetivamente atingidas, o ser humano deixará a condição de Homo sapiens para transformar-se em  Homo deus. De forma resumida, Harari aponta: "Depois de assegurar níveis sem precedentes de prosperidade, saúde e harmonia, e considerando tanto nossa história pregressa como nossos valores atuais, as próximas metas da humanidade serão provavelmente a imortalidade, a felicidade e a divindade. Reduzimos a mortalidade por inanição, a doença e a violência; objetivaremos agora superar a velhice e mesmo a morte. Salvamos pessoas da miséria abjeta; temos agora de fazê-las positivamente felizes. Tendo elevado a humanidade acima do nível bestial da luta pela sobrevivência, nosso propósito será fazer dos humanos deuses e transformar o Homo sapiens em Homo deus". Após traçar tais possibilidades - que não são propriamente profecias - o autor questiona, então, se é possível pisar nos freios e impedir que tudo isto aconteça. Sua resposta é negativa. O principal motivo é que a pesquisa científica e o desenvolvimento tecnológico estão se desenvolvendo de uma forma tão rápida que é difícil para qualquer um de nós compreender totalmente o que está acontecendo. E assim, "como ninguém compreende o sistema como um todo, ninguém pode fazê-lo parar". Faz sentido. Além disso, aponta Harari, "as pessoas comumente têm medo da mudança porque temem o desconhecido. Mas a única grande constante da história é que tudo muda". Desta forma, por mais que individualmente desejemos evitar determinados caminhos, não temos como evitar que o mundo mude e nem temos pleno controle do desenrolar dos acontecimentos. O que será será.

O autor Yuval Noah Harari
Tudo o que comentei nos parágrafos anteriores está contido nas primeiras setenta páginas de Homo deus. O livro tem quase quinhentas. Isto significa que é impossível nestas parcas linhas apresentar todo o conteúdo da obra, que trata de uma infinidade de temas e questões. O autor, demonstrando mais uma vez uma incrível erudição, expõe em cada parte do livro um aspecto das suas projeções para o futuro, sempre tentando manter os olhos no passado e os pés no presente. Na primeira parte, denominada O Homo sapiens conquista o mundo, Harari trata da diferença do homem para os outros animais e tenta entender como, afinal, pudemos nos sobrepor a todos eles e dominar o planeta. Na segunda parte, O Homo sapiens dá um significado ao mundo, o autor busca compreender que tipo de mundo os humanos criaram para si e explora especialmente a ascensão da "religião" humanista, que coloca o ser humano no centro do universo. Finalmente, na terceira parte, denominada O Homo sapiens perde o controle, Harari traz reflexões sobre como a biotecnologia e a inteligência artificial ameaçam o humanismo e podem contribuir para a ascensão de uma sociedade pós-humanista. Esta última parte é a que mais se aproxima de um exercício de futurologia que, como qualquer tentativa de prever o futuro, pode se demonstrar terrívelmente equivocada. Mas isto não abala o autor. Como aponta ainda na introdução, sua predição "é menos uma profecia e mais um modo de discutir nossas escolhas atuais. Se esta discussão nos fizer optar por algo diferente, de modo que a predição se demonstre errada, melhor ainda. De que vale fazer predições se elas não forem capazes de provocar nenhuma mudança?" Isto significa que sua proposta não é, de forma alguma, tentar adivinhar como será o nosso amanhã, mas, especialmente, buscar entender como estamos conduzindo o mundo e a nossa humanidade no presente para, quem sabe, alteramos a rota. Sua empreitada, anda que equivocada em alguns pontos - e eu destacaria especialmente o dispensável deslumbramento demonstrado pelo autor, um historiador, com as neurociências e com a biologia de uma forma geral - é extremamente frutífera ao analisarmos a totalidade de sua obra. Homo deus, da mesma forma que Homo sapiens, nos permite olhar para o passado e o presente da humanidade de uma forma ampla e reflexiva - o que nos possibilita vislumbrar e questionar o futuro que estamos contruíndo. Uma obra que faz pensar...