quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Seremos substituídos por robôs?

Gari-Robô limpando as ruas da cidade
A série britânica Humans, que já apresentei e discuti em outro post, retrata uma sociedade na qual robôs humanizados, denominados sintéticos ou synths, substituíram os seres humanos em inúmeras tarefas e trabalhos. Ao longo da série, que está atualmente na segunda temporada, vemos synths trabalhando como garis, empregados domésticos, jardineiros, operários, atendentes de loja, cuidadores de idosos, dentre muitas outras funções de menor prestigio na sociedade. Os sintéticos exercem, assim, grande parte dos trabalhos mais precarizados realizados anteriormente pelos seres humanos. Logo no primeiro episódio, um dos desenvolvedores dos sintéticos é questionado se as máquinas, ao substituírem humanos, não estariam desvalorizando a humanidade, e ele responde: "A melhor razão para fazer máquinas parecidas com pessoas é tornar as pessoas menos mecanizadas. A mulher na China, que trabalha 11 horas por dia costurando bolas; o menino em Bangladesh inalando veneno enquanto invade um navio por sucata; o mineiro na Bolívia, que encara a morte a cada dia de trabalho. Eles podem ser passado. Dispositivos sintéticos libertam as pessoas. Tratamos pessoas como máquinas por tempo demais. É hora de libertar suas mentes, seus corpos, para pensar, para sentir, para serem mais humanos. Mas muita gente pode argumentar que trabalho é direito humano, que o trabalho duro traz autovalorização. Deveriam passar uma semana em uma fábrica de microchip". Ainda que se trate de uma reflexão bastante pertinente e atual, ela deixa de fora uma questão extremamente problemática. À medida que mais e mais funções forem executadas por máquinas, menos o ser humano será necessário e maior poderá ser o desemprego.

Joe Hawkins: gerente substituído por sintético
Certamente é possível contra-argumentar que na medida em que que certos empregos forem extintos, outros serão criados - como ocorreu até hoje -, mas isto depende da extensão deste processo de substituição. Se a maioria dos trabalhos atualmente executados por humanos passar a ser executado por máquinas, provavelmente não será possível deslocar todos os sujeitos recém-desempregados para novas funções - especialmente os mais velhos e sem qualificação. Segundo o historiador Yuval Noah Harari, no livro Homo deus - cuja resenha pode ser lida aqui -, "no século XXI, poderíamos assistir à criação de uma maciça classe não trabalhadora: pessoas destituídas de qualquer valor econômico, político ou artístico, que em nada contribuem para a prosperidade, o poder e a glória da sociedade. Eles não estão simplesmente desempregados - eles serão inempregáveis". Harari os chama de "a classe inútil". Na série, o personagem Joe Hawkings passa a fazer parte desta classe. Demitido do cargo de gerente de uma empresa e substituído por um sintético, Joe encontra grande dificuldade em encontrar um novo emprego, haja vista que grande parte das funções, desde as mais simples até as mais complexas (como a de gerente), passam a ser executadas por sintéticos. Esta situação ficcional não se encontra, todavia, tão distante assim da realidade. No livro The future of employment (O futuro do emprego), os pesquisadores Carl Benedikt Frey e Michael Osborne estimam que 47% dos empregos nos Estados Unidos correm alto risco de serem extintos e substituídos por algoritmos nos próximos 20 anos. Segundo os autores, há 99% de probabilidade de que em 2033 operadores de telemarketing e corretores de seguro sejam substituídos por máquinas inteligentes; 97% de que o mesmo ocorra com operadores de caixa; 94% com garçons e assistentes jurídicos; 91% com guias de turismo; 89% com padeiros; 89% com motoristas de ônibus e assim por diante. A situação dos motoristas, especialmente, é bastante delicada. Com o aperfeiçoamento e popularização dos carros autônomos, como aqueles desenvolvidos pelo Google e pela Tesla, é bem possível que em breve toda a categoria dos motoristas e taxistas deixe de existir - como ocorreu, no passado com os telefonistas e os entregadores de leite.

Você pode duvidar que isto venha a acontecer, como eu próprio duvido de muitas destas previsões alarmistas sobre o futuro, mas o fato é que o mundo do trabalho muda a cada momento. Muitas profissões que já estiveram em alta, hoje estão em baixa e outras, inclusive, deixaram de existir. Não dá para saber com exatidão, mas é bem provável que, de fato, máquinas venham a substituir pessoas em algumas funções, como tem ocorrido desde a Revolução Industrial. Certamente, é preferível acreditar que existem funções que jamais poderiam ser executadas por máquinas, funções que somente nós, humanos, poderíamos realizar. O trabalho de psicoterapeuta é um deles. Você consegue imaginar atividade mais "humana" que a de um psicoterapeuta, que dia após dia acolhe, escuta e orienta pessoas em sofrimento? Será que no futuro algum sistema de inteligência artificial conseguirá reproduzir ou pelo menos simular o trabalho de um psicólogo clínico? Na década de 1960 o cientista da computação norte-americano Joseph Weizenbaum desenvolveu o Eliza, um programa de inteligência artificial - ou, segundo este autor, de estupidez artificial - que simulava a atuação de uma terapeuta rogeriana - caso você tenha interesse, é possível "conversar" com Eliza, ou melhor, com uma versão atualizada dela, através deste link. O programa, incrivelmente simples para os padrões atuais, basicamente fazia algumas perguntas, criadas em função das últimas frases escritas pelo "paciente" e buscava algumas palavras-chave como "mãe" ou "família"; quando não encontrava, simplesmente respondia com frases vagas como "Fale mais sobre você" ou "Conte-me mais". Algumas pessoas na época ficaram encantadas com tal tecnologia mas, sinceramente, acho difícil imaginar algo mais distante de um terapeuta real do que um programa como esse. Ele pode até simular vagamente alguns diálogos básicos de um terapeuta, mas falta-lhe muito para ser e agir de fato como um terapeuta. Na realidade, Weizenbaum criou Eliza como uma paródia da interação entre psicoterapeuta e paciente e também como uma forma de demonstrar a superficialidade das relações entre humanos e máquinas. Weizenbaum sabia muito bem que entre a simulação e a realidade há uma longa distância.

Psicóloga Robô atende o casal Hawkins
A série Humans também explora esta possibilidade de uma terapeuta-robô, dando um passo adiante. Na série, o casal Hawkins passa por uma crise conjugal - desencadeada pelo fato de o marido ter feito sexo com uma sintética - e eles decidem procurar uma terapeuta de casal. No entanto, no dia agendado, a terapeuta passa mal e a secretaria oferece para eles a possibilidade de serem atendidos por uma terapeuta-sintética chamada Bárbara. Segundo a secretária, "alguns casais preferem falar com alguém que não os julguem". Eles decidem experimentar e acabam em parte decepcionados e em parte satisfeitos. Eles ficam decepcionados porque a terapeuta-robô age de forma mecânica e automatizada como todos os sintéticos não-conscientes. Em certo momento, Joe questiona Bárbara a respeito de como ela poderia indagar sobre as emoções dele sendo que ela não possui emoções. Bárbara responde, de forma mecanizada: "Eu avalio os registros anônimos e, os relaciono, com análises estatísticas de mais de 38.000 consultas de aconselhamento. Nos casos de infidelidade envolvendo um sintético, cerca de 66% dos entrevistados, relataram que o principal obstáculo para uma reconciliação tratava-se de um desequilíbrio no impacto captado e, do significado do ato, ou, dos atos, de infidelidade". Enfim, Bárbara baseia suas consultas não em teorias e técnicas psicoterapêuticas ou na relação de afeto entre terapeuta e paciente, mas em estatísticas. No entanto, a consulta acaba sendo em parte satisfatória pois, na ausência de uma pessoa real, o casal acaba dialogando como há tempos não fazia. Eles de certa forma aproveitam da artificialidade daquela situação para trazerem à tona a realidade do problema que enfrentam. De toda forma, ainda que esta situação pareça uma terapia e possa até mesmo ser terapêutica em alguma medida, eu tenho lá minhas dúvidas se um robô como esse poderia ser realmente chamado de psicoterapeuta. E eu digo "poderia" porque ainda não temos nada nem vagamente parecido com isso. As inteligências artificiais desenvolvidas até o momento, ainda que úteis para atividades específicas, em nada se assemelham àquilo que vemos nos filmes de ficção científica. Pode ser que no futuro psicólogos, médicos, advogados e todas as outras profissões que exigem uma grande dose de certas aptidões cognitivas, mais do que de aptidões físicas, sejam substituídas por robôs ou programas de inteligência artificial, mas certamente ainda há um longo percurso até que cheguemos a isso - se é que um dia chegaremos. A única certeza, como bem aponta Harari, é que o mundo muda e continuará mudando o tempo todo. Pode ser que no futuro nos tornemos "inúteis" e "inempregáveis", mas até lá, continuaremos, insubstituíveis.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Quando os homens se tornam deuses: uma resenha crítica do livro "Homo Deus"

Após analisar o nosso passado no sensacional Sapiens: uma breve história da humanidade, agora o historiador israelense Yuval Noah Harari decidiu olhar para o futuro com seu novo livro Homo Deus: uma breve história do amanhã, recém-lançado no Brasil. Trata-se de um livro muitíssimo bem escrito, de leitura agradável e que trata, como o primeiro, de grandes e relevantes questões sobre a humanidade. Certamente há alguns equívocos e reducionismos, mas o saldo, definitivamente, é positivo. Tenho de confessar que não me agradava muito a ideia de livros do tipo "uma breve história" - e nem aqueles do tipo "A história do universo/mundo/Brasil para preguiçosos" ou "para quem tem pressa" e muito menos obras como o "Guia politicamente incorreto da história do Brasil" ou qualquer uma destas modinhas literárias - mas também tenho que confessar que há algum tempo decidi ler Sapiens e adorei - e até já recomendei para amigos e parentes. E após tal leitura passei, inclusive, a questionar minha descrença em livros do tipo "uma breve história" afinal, se pararmos para pensar, poucos de nós temos realmente tempo e disposição para ir direto à fonte e estudar a "longa história" do que quer que seja. Se você não é historiador - e mesmo que seja -  dificilmente estudará com grande profundidade a história da humanidade, do mundo ou do Brasil. Isto significa que feliz ou infelizmente, o que nos resta são estas tais "breves histórias".

Pois bem, a ideia geral deste novo livro de Harari é tentar entender quais foram os desafios da humanidade até agora e imaginar, a partir do presente, quais serão nossos desafios futuros. Segundo o autor, os grandes obstáculos da humanidade até o presente foram a fome, as pestes e as guerras. Para ele, tais questões, ainda que não tenham sido ainda completamente superadas, já foram amplamente controladas e já não são entendidas como problemas aquém ou além do controle humano. Como aponta Harari, "nas últimas poucas décadas demos um jeito de controlar a fome, as pestes e a guerra. É evidente que estes problemas não foram completamente resolvidos, no entanto foram transformados de forças incompreensíveis e incontroláveis da natureza em desafios que podem ser enfrentados. Não precisamos rezar para nenhum deus ou santo para que nos salvem deles. Sabemos bem o que precisa ser feito para evitar a fome, as pestes e a guerra - e geralmente somos bem sucedidos em fazê-lo". Com relação à fome, por exemplo, o autor afirma que a humanidade conseguiu superar largamente a falta de alimentos, ampliando, entretanto, outro grave problema: a obesidade. Segundo Harari "o hábito de comer demais tornou-se um problema muito pior que o da fome". O autor ignora, todavia, a chamada fome oculta, que se refere à carência de certos micronutrientes essenciais, consequência de uma alimentação ruim, que é considerado atualmente o problema nutricional mais prevalente no mundo. Da mesma forma, Harari parece superestimar a capacidade do ser humano de lidar com o problema da fome, que ainda acomete milhões de pessoas em todo o mundo, inclusive no Brasil. Certamente houveram avanços, mas isto não significa que trata-se de um desafio do passado. A fome continua e provavelmente continuará sendo um problema nas próximas décadas - basta observar os dados do Mapa da Fome 2015, que constatou que 795 milhões de pessoas ainda passam fome no mundo.

Com relação à guerra, Harari segue o entendimento contra-intuitivo disseminado, dentre outros, pelo psicólogo Steven Pinker no livro Os anjos bons da nossa natureza de que a violência vem diminuindo gradativamente ao longo da história. Trata-se de um entendimento controverso, muito criticado por cientistas sociais - que entendem que a violência não se limita à violência física incluindo também a chamada violência simbólica - mas que vem se disseminando amplamente. A ideia básica desta teoria é que atualmente não vigoraria mais no mundo a Lei da Selva, segundo a qual, mesmo que duas políticas convivessem em paz, a guerra permanecia como opção. Atualmente, segundo Harari, a Lei da Selva foi quebrada e não vigora mais na maior parte do mundo. Para o autor, "pela primeira vez na História, quando governos, corporações e indivíduos privados avaliam o futuro imediato, muitos não pensam na guerra como um acontecimento provável". A ideia é que antes a guerra era a regra, hoje tornou-se a exceção. Mas cabe a reflexão de que talvez isso valha para grande parte dos países, especialmente para os "desenvolvidos", mas certamente não para todos. A guerra ainda é a regra em muitas regiões, como bem demonstra o Índice Global da Paz 2015. Finalmente, Harari discorre sobre as pestes, que segundo ele foram amplamente controladas pela humanidade. Para o autor, anteriormente à era moderna, "as autoridades eram completamente impotentes diante da calamidade. Além de organizar orações em massa e procissões, não tinham ideia de como interromper a propagação de uma epidemia - e muito menos de como curá-la". Durante o último século, no entanto, ainda que a humanidade tenha ficado mais vulnerável com o aumento da população e a maior movimentação de pessoas entre os países, "as epidemias representam uma ameaça muito menor à saúde do homem do que representaram no milênio anterior. A imensa maioria das pessoas morre de enfermidades não infecciosas como o câncer e doenças cardiovasculares, ou simplesmente de velhice". Nesse ponto o autor parece estar correto, ainda que em muitas regiões do mundo milhões de pessoas ainda morram vítimas de doenças infecciosas como a malária, o HIV e o ebola. De toda forma, ele tem razão ao afirmar que tais problemas não se devem à fatores naturais ou divinos mas simplesmente à ação, ou melhor, à omissão dos seres humanos.

Sobre estas três grandes questões, Harari aponta, de forma resumida: "Fome, pestes e guerra provavelmente continuarão a reivindicar milhões de vítimas nas próximas décadas. No entanto, não são mais tragédias inevitáveis, além da compreensão e do controle de uma humanidade impotente. Em vez disso, tornaram-se desafios que podem ser manipulados". Tendo isto em vista, Harari passa a pensar, então, quais serão os projetos que substituirão a fome, as pestes e a guerra no topo da agenda humana no século XXI. E sua aposta é que no lugar destas três questões, entrarão em pauta outras três: a imortalidade, a felicidade e a divindade. O primeiro projeto passa pela superação da velhice e da morte. Segundo o autor, por muito tempo a humanidade não santificou a vida em si mesma, mas sim a vida após a morte. Com a ascensão da visão humanista e o declínio da hegemonia religiosa, a vida passou a ter um valor em si mesma e, com isso, a morte passou a ser vista como um problema a ser superado. A ideia de muitos cientistas atuais, que buscam formas de ampliar o tempo de vida e mesmo atingir a imortalidade, é que a morte é um mera falha técnica. Caso descubramos como evitar e tratar certas doenças e substituir determinados órgãos doentes, poderemos então atingir a vida eterna. Este é o projeto; se ele será concretizado é uma outra história. Como aponta Harari, "nosso compromisso ideológico com a vida humana nunca permitirá que simplesmente aceitemos a morte. Enquanto a morte for motivada por alguma coisa, estaremos empenhados em superar suas causas". Sobre este tópico tendo a concordar com Harari que este é realmente um projeto em curso. No entanto, assim como o autor, tenho lá minhas dúvidas se isto um dia será atingido - mas não só: fico pensando se ser imortal é realmente uma boa coisa. Tendo a pensar como a Anciã do filme Doutor Estranho segundo a qual é a morte que dá sentido à vida e é só porque morremos que nos empenhamos em fazer de nossa curta e efêmera existência algo significativo. 

O segundo projeto para o futuro seria a obtenção da felicidade - afinal, como bem aponta Harari, de que adiantaria atingir a imortalidade e passar a eternidade infeliz? Este projeto esbarra, entretanto, em inúmeros limites e dificuldades. O principal deles é que em uma sociedade individualista como a que vivemos, o que faz cada indivíduo feliz varia imensamente. É possível certamente pensar em inúmeras ações coletivas que favoreçam o bem-estar, como diminuir a fome, a desnutrição e a obesidade, buscar a cura e o tratamento de doenças, proporcionar abrigo, segurança, trabalho e diversão para o conjunto da população, dentre muitas outras coisas. Tudo isto pode trazer bem-estar ou minimizar o mal-estar mas não necessariamente trará felicidade. Isto fica evidente, como bem aponta Harari, ao se observar as taxas de suicídios no mundo desenvolvido, que são muito mais elevadas do que nas sociedades tradicionais. Isto significa que indivíduos que possuem as principais necessidades atendidas não necessariamente são felizes - aliás, comumente não o são. Como afirma o autor, "alcançar uma felicidade afirmativa pode ser muito mais difícil do que abolir completamente o sofrimento. Um pedaço de pão era suficiente para alegrar um camponês medieval faminto. Como alegrar um engenheiro entediado, muito bem remunerado e obeso?". Como todos os psicólogos sabem muito bem, nada do que diz respeito ao ser humano é simples - muito menos o que gera felicidade. Harari continua: "a impressão que se tem é que nossa felicidade vai de encontro a um misterioso teto de vidro que não permite seu crescimento, a despeito das conquistas sem precedentes que foram alcançadas. Mesmo se provêssemos alimento grátis para todos, curássemos todas as doenças e assegurássemos a paz mundial, tudo isso não iria necessariamente fazer em pedaços o teto de vidro. Alcançar a verdadeira felicidade não vai ser muito mais fácil do que vencer a velhice e a morte". Mas então o que resta? O caminho que muitos cientistas vem percorrendo para atingir a felicidade individual e coletiva é a busca por novas medicações que levem a uma permanente, embora artificial, felicidade. Sobre isso Harari comenta: "alcançar a felicidade por meio da manipulação biológica não será fácil, pois requer a alteração dos padrões fundamentais da vida. Tampouco foi fácil vencer a fome, a peste e a guerra". Estaríamos, então, caminhando para um Admirável Mundo Novo no qual as medicações determinarão completamente os nossos sentimentos? Espero que não!

Finalmente, o terceiro e último projeto para o futuro seria a transformação do homem em uma divindade. Este projeto na verdade abarca e vai além dos outros dois, afinal, como aponta Harari, "ao buscar a felicidade e a imortalidade, os humanos estão na verdade tentando promover-se à condição de deuses. Não só porque esses atributos são divinos, mas igualmente porque, para superar a velhice e o sofrimento, terão de adquirir primeiro um controle de caráter divino sobre o próprio substrato biológico". Este projeto, para o autor, poderá ser concretizado por três principais vias: 1) através da engenharia biológica, que modificará ativamente nossos genes, hormônios e neurônios, transformando, com isso, nosso corpo e nossa mente; 2) através da engenharia cibernética, que fundirá nosso corpo orgânico com dispositivos não orgânicos, elevando-nos à condição de ciborgues; e 3) através da engenharia de seres não orgânicos, que criará formas de vida totalmente independentes da biologia. Caso estas vias sejam efetivamente atingidas, o ser humano deixará a condição de Homo sapiens para transformar-se em  Homo deus. De forma resumida, Harari aponta: "Depois de assegurar níveis sem precedentes de prosperidade, saúde e harmonia, e considerando tanto nossa história pregressa como nossos valores atuais, as próximas metas da humanidade serão provavelmente a imortalidade, a felicidade e a divindade. Reduzimos a mortalidade por inanição, a doença e a violência; objetivaremos agora superar a velhice e mesmo a morte. Salvamos pessoas da miséria abjeta; temos agora de fazê-las positivamente felizes. Tendo elevado a humanidade acima do nível bestial da luta pela sobrevivência, nosso propósito será fazer dos humanos deuses e transformar o Homo sapiens em Homo deus". Após traçar tais possibilidades - que não são propriamente profecias - o autor questiona, então, se é possível pisar nos freios e impedir que tudo isto aconteça. Sua resposta é negativa. O principal motivo é que a pesquisa científica e o desenvolvimento tecnológico estão se desenvolvendo de uma forma tão rápida que é difícil para qualquer um de nós compreender totalmente o que está acontecendo. E assim, "como ninguém compreende o sistema como um todo, ninguém pode fazê-lo parar". Faz sentido. Além disso, aponta Harari, "as pessoas comumente têm medo da mudança porque temem o desconhecido. Mas a única grande constante da história é que tudo muda". Desta forma, por mais que individualmente desejemos evitar determinados caminhos, não temos como evitar que o mundo mude e nem temos pleno controle do desenrolar dos acontecimentos. O que será será.

O autor Yuval Noah Harari
Tudo o que comentei nos parágrafos anteriores está contido nas primeiras setenta páginas de Homo deus. O livro tem quase quinhentas. Isto significa que é impossível nestas parcas linhas apresentar todo o conteúdo da obra, que trata de uma infinidade de temas e questões. O autor, demonstrando mais uma vez uma incrível erudição, expõe em cada parte do livro um aspecto das suas projeções para o futuro, sempre tentando manter os olhos no passado e os pés no presente. Na primeira parte, denominada O Homo sapiens conquista o mundo, Harari trata da diferença do homem para os outros animais e tenta entender como, afinal, pudemos nos sobrepor a todos eles e dominar o planeta. Na segunda parte, O Homo sapiens dá um significado ao mundo, o autor busca compreender que tipo de mundo os humanos criaram para si e explora especialmente a ascensão da "religião" humanista, que coloca o ser humano no centro do universo. Finalmente, na terceira parte, denominada O Homo sapiens perde o controle, Harari traz reflexões sobre como a biotecnologia e a inteligência artificial ameaçam o humanismo e podem contribuir para a ascensão de uma sociedade pós-humanista. Esta última parte é a que mais se aproxima de um exercício de futurologia que, como qualquer tentativa de prever o futuro, pode se demonstrar terrívelmente equivocada. Mas isto não abala o autor. Como aponta ainda na introdução, sua predição "é menos uma profecia e mais um modo de discutir nossas escolhas atuais. Se esta discussão nos fizer optar por algo diferente, de modo que a predição se demonstre errada, melhor ainda. De que vale fazer predições se elas não forem capazes de provocar nenhuma mudança?" Isto significa que sua proposta não é, de forma alguma, tentar adivinhar como será o nosso amanhã, mas, especialmente, buscar entender como estamos conduzindo o mundo e a nossa humanidade no presente para, quem sabe, alteramos a rota. Sua empreitada, anda que equivocada em alguns pontos - e eu destacaria especialmente o dispensável deslumbramento demonstrado pelo autor, um historiador, com as neurociências e com a biologia de uma forma geral - é extremamente frutífera ao analisarmos a totalidade de sua obra. Homo deus, da mesma forma que Homo sapiens, nos permite olhar para o passado e o presente da humanidade de uma forma ampla e reflexiva - o que nos possibilita vislumbrar e questionar o futuro que estamos contruíndo. Uma obra que faz pensar...

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Desconstruindo Marte e Vênus: reflexões sobre neurossexismos e neurofeminismos

De acordo com um famoso livro de auto-ajuda "os homens são de Marte e as mulheres são de Vênus", o que é uma outra forma de dizer que a diferença entre  os dois sexos seria tão grande que é como se habitassem planetas distintos. Mas paremos para pensar um pouco: homens e mulheres são realmente tão diferentes assim? Grande parte das pessoas provavelmente diria que sim, afinal basta olhar para perceber que, em geral, homens e mulheres se vestem de formas diferentes e se comportam de maneiras distintas - o que sinaliza que também, e talvez, pensem e sintam diferentemente. Eu não discordaria totalmente desta resposta, mas faria mais algumas perguntas: por que homens e mulheres são diferentes? Será que já nasceram diferentes ou estas diferenças foram sendo construídas no decorrer do processo de desenvolvimento? Muitas pessoas, assim como muitos cientistas, tendem a acreditar na existência de diferenças inatas entre homens e mulheres - e por inato quero dizer tudo aquilo que a criança já possui ao nascer. Muitos cientistas acreditam que a nossa masculinidade e a nossa feminilidade são construídas, ou no mínimo pré-moldadas, antes mesmo de nascermos. Nossa genética, que herdamos de nossos pais, assim como a ação de certos hormônios durante a gestação, fariam com que nossos cérebros se diferenciassem - e é esta diferença que tornaria os homens essencialmente diferentes das mulheres e vice-versa. O papel da cultura e da educação, ainda que não seja negado completamente, é diminuido ao ser entendido como coadjuvante da biologia, esta sim a verdadeira protagonista do processo de diferenciação sexual.

Alguns autores vão além e buscam a explicação para as diferenças entre homens e mulheres em nosso passado evolutivo. A narrativa é quase sempre a mesma: em um passado distante, na "época das cavernas", os homens eram responsáveis pela caça e pela procura de alimentos enquanto as mulheres pela preparação de tais alimentos e pelo cuidado dos filhos. Esta narrativa, amplamente disseminada pelos livros de auto-ajuda e de divulgação científica, busca a explicação de nossos comportamentos atuais neste passado distante. A ideia é que homens e mulheres seriam diferentes atualmente  porque possuiriam histórias evolutivas diferentes, que teriam moldado seus genes de forma diferenciada, gerando com isso cérebros e comportamentos igualmente diferenciados. O grande problema de tal explicação é que ela permanece hipotética - como, aliás, quase todas as explicações do campo da psicologia evolutiva. A principal dificuldade é como saber com precisão como viviam os seres humanos há 50 mil anos, momento em que a escrita ainda não tinha sido inventada? Os arqueólogos bem que tentam, mas é muito difícil reconstruir fidedignamente este passado baseando-se apenas nos escassos vestígios deixados por nossos antepassados. Além disso, como apontam a neurocientista Catherine Vidal e a jornalista científica Dorothée Benoit-Browaeys no livro Cérebro, sexo e poder, tal explicação não passa "de uma representação mítica que consiste em projetar os nossos quadros mentais [do presente] na cultura dos homens do passado".

Mais recentemente, tal explicação tem se misturado a outras narrativas que envolvem hormônios, neurônios e sinapses. A ideia básica é que a estrutura e o funcionamento do nosso cérebro seriam determinados ou fortemente influenciados pela dominância de certos hormônios. Se durante e após o período de gestação formos inundados por hormônios "masculinos" nos masculinizaremos - e teremos "cérebros masculinos"; se formos inundados por hormônios "femininos", nos feminizaremos - e teremos "cérebros femininos". Esta teoria explicaria tanto as características "típicas" masculinas e femininas quanto a existência de "homens feminilizados" e "mulheres masculinizadas", assim como dos(as) transexuais, que teriam uma espécie de dominância hormonal inversa à de seu sexo biológico original. Os hormônios seriam, assim, os grandes responsáveis por termos cérebros e comportamentos "masculinos" e "femininos". Repare bem nas aspas pois, de fato - como já apontei anteriormente - cérebros e hormônios não podem ser masculinos ou femininos; somente as pessoas, ou seja, os indivíduos como um todo, podem ser. A testosterona, por exemplo, é chamada de hormônio masculino por ser mais elevada nos homens; no entanto, as mulheres também possuem tal hormônio - assim como os homens possuem estrogênio, um hormônio "feminino".  Da mesma forma, é equivocado falar em comportamento masculino ou feminino pois a forma como os homens e mulheres se comportam varia imensamente entre as culturas - e mesmo dentro da mesma cultura - assim como variou no decorrer da história. Os homens são mais agressivos e as mulheres mais dóceis? Depende. Alguns indivíduos se encaixam dentro deste estereótipo; outros não. Por mais que se queira generalizar, existem homens dóceis e mulheres agressivas e isto não significa que tais indivíduos não sejam homens e mulheres; significa apenas que eles não se encaixam nos estereótipos de gênero. 

No sensacional livro Homens não são de Marte, mulheres não são de vênus, a psicóloga Cordelia Fine chama de neurossexismo justamente as interpretações dos achados neurocientíficos que naturalizam os estereótipos de gênero socialmente construídos. Como afirma a autora, "algumas pessoas usam a neurociência de uma maneira que ela foi frequentemente usada no passado: para reforçar, com toda a autoridade da ciência, estereótipos e papéis antiquados". E é justamente contra este discurso cerebralista e neurossexista que a autora volta sua mira. Felizmente ela não está sozinha neste empreitada. Desde 2010 um grupo de pesquisadoras que se descrevem como neurofeministas - que inclui a própria Cordelia Fine - vem se articulando  em uma rede internacional denominada NeuroGenderings, cuja proposta, segundo a pesquisadora Marina Nucci, é “criticar o dualismo e a noção de dismorfismo sexual e discutir como fatos neurocientíficos sobre sexo e gênero são produzidos, chamando atenção para o contexto histórico, cultural e político e para as consequências éticas desses estudos”. Um dos principais focos desta rede é justamente combater o neurossexismo. Cabe salientar que as neurofeministas não pretendem efetivar tal "combate" simplesmente criticando as pesquisas neurocientíficas mas também, e especialmente, produzindo ciência - tanto que uma frase bastante repetida pelas pesquisadoras, e que dá título ao artigo de Nucci, é "Não chore, pesquise". Embora tais pesquisadoras sejam comumente taxadas de anti-neurociências a proposta delas não é simplesmente descartar a biologia, mas entender de que forma nosso sistema nervoso interage com o ambiente. O conceito de neuroplasticidade é extremamente importante nesse sentido, pois aponta para o entendimento de que nosso cérebro é moldado continuamente no/pelo mundo. Como afirma Fine em seu livro, "o nosso cérebro, como estamos começando a entender, é modificado pelo nosso comportamento, pelo nosso pensamento e pelo nosso mundo social. A nova perspectiva neuroconstrutivista do desenvolvimento do cérebro enfatiza o emaranhado simples e estimulante de uma contínua interação entre os genes, o cérebro e o ambiente". Para a autora, as diferenças entre os sexos/gêneros devem ser entendidas levando-se em conta esta permanente interação. E é por isso que, segundo este ponto de vista, seria equivocado dizer que homens são de Marte e mulheres são de Vênus. Não! Homens e mulheres habitam o mesmo mundo e são por ele formados - e suas diferenças não se devem simplesmente à ação dos genes e hormônios, mas sim a um complexo processo de interação entre biologia e cultura.

Observação: Um importante estudo publicado em 2015 no prestigioso periódico Proceedings of the National Academy of Sciences/PNAS apresentou fortes evidências de que embora existam algumas diferenças no funcionamento cerebral de homens e mulheres, tais diferenças não seriam suficientes para se falar em "cérebros masculinos" e "cérebros femininos" - isto porque haveriam também significativas diferenças entre os próprios homens e as próprias mulheres. Após realizarem exames de ressonância magnética no cérebro de mais de 1400 homens e mulheres e avaliarem tanto o volume de suas substâncias branca e cinzenta, quanto a quantidade de conexões neuronais e espessura do córtex cerebral, os pesquisadores concluíram que "embora existam diferenças de sexo/gênero no cérebro e no comportamento, humanos e cérebros humanos são compostos de 'mosaicos' únicos de características, algumas mais comuns em mulheres comparadas com homens, algumas mais comuns em homens em comparação com mulheres e algumas comuns em mulheres e homens. Nossos resultados demonstram que, independentemente da causa das diferenças observadas entre sexo/gênero no cérebro e no comportamento (natureza ou cultura), os cérebros humanos não podem ser categorizados em duas classes distintas: cérebro masculino/cérebro feminino" (veja aqui uma palestra TEDx da primeira autora deste artigo, a neurocientista e neurofeminista israelense Daphna Joel, falando sobre esta questão três anos antes deste estudo ser publicado - o video tem legendas em português, basta acioná-las). Comentando esta pesquisa, o psiquiatra Michael Bloomfield da University College London, afirmou o seguinte: "Se os resultados deste estudo forem replicados e relacionados ao pensamento e comportamento, este estudo não apoia a teoria de que os homens são de Marte e as mulheres de Vênus. Em vez disso, ele é uma evidência das ideias propostas pelo filósofo grego Platão e desenvolvidas pelo psiquiatra suíço Carl Jung, que nossas mentes seriam parte masculina e parte feminina".

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

"A chegada" e a difícil comunicação com o Outro

No sensacional filme de ficção científica A chegada, recém-lançado nos cinemas, doze enormes naves espaciais invadem a Terra e "estacionam" de forma aparentemente aleatória em cima de algumas cidades. No entanto, ao contrário do que ocorre em quase todos os filmes de invasão alienígena, os ETs não destroem a Terra nem matam os seres humanos. Suas naves ficam lá paradas e eles não dão o ar da graça, pelo menos inicialmente. Mas é claro que esta "chegada" mobiliza rapidamente governos e exércitos de todo o mundo, que erguem grandes estruturas de monitoramento nas proximidades das naves. Com tais estruturas, os governos pretendem não somente agir no caso de um eventual ataque mas também buscar as respostas para algumas perguntas inquietantes: o que eles querem? Por que vieram à Terra? E por que se mantém em silêncio? Em certo momento, os militares descobrem que durante alguns instantes do dia a nave se abre e os ETs aparecem atrás de uma parede transparente. E é logo após esta descoberta que a linguista Louise Banks é convidada a integrar a equipe composta por vários cientistas. Sua função específica é tentar se comunicar com os ETs e entender porque, afinal de contas, eles vieram à Terra. No entanto, como é de se imaginar, não se trata de uma comunicação simples - da mesma forma como não foi simples a comunicação entre colonizadores e colonizados e como não é simples a comunicação entre pessoas de diferentes países e entre os seres humanos em geral. Superar toda essa Torre de Babel é um desafio de dimensões interplanetárias.

No caso dos ETs, a comunicação é dificultada pelo fato de haver poucas referências em comum entre nós e eles. No caso de uma primeira comunicação entre pessoas que falam línguas distintas é possível buscar elementos no mundo que favoreçam um entendimento mútuo. Imagine, por exemplo, que você queira se comunicar com uma pessoa chinesa mas você não fala ou entende absolutamente nada de chinês. Como você faria? Aposto que inicialmente apontaria para si mesmo(a) e diria seu nome, esperando, assim, que a outra pessoa diga o dela. Em seguida você poderia apontar, por exemplo, para um livro e dizer "livro", esperando com isso que a pessoa nomeie o mesmo objeto em sua língua. A mesma metodologia poderia ser utilizada com diversos outros objetos ou elementos do mundo, o que permitiria um diálogo inicial - um diálogo um tanto simplório, certamente, mas ainda assim um diálogo. Mas como dialogar desta maneira com um ET? Você pode apontar para si  mesmo e dizer seu nome - como a Dra. Banks faz no filme -, mas será: 1) que eles conseguem enxergar e escutar? e 2) que eles possuem nomes? Acho bem possível imaginar uma sociedade, na Terra ou em outro planeta, na qual cada um de seus integrantes não possua um nome individual mas apenas um mesmo nome coletivo, por exemplo (como "os Negan" da série The Walking Dead). Nossa noção ocidental moderna - e terráquea - de individualidade não vale necessariamente para todo o universo, não é mesmo? Da mesma forma, parecem existir poucos elementos do mundo em comum entre humanos e ETs. A linguista poderia apontar para um livro e dizer ou escrever "livro", mas se eles não possuem objetos semelhantes àqueles que chamamos de livros nada disto faria sentido - e o mesmo vale para quase todos os objetos e coisas que pensarmos. Como então dialogar com tais criaturas?

Pois bem, no filme, a primeira tentativa de diálogo adotada pela Dra. Banks é justamente escrever o próprio nome em uma lousa e apontar para si mesma. Curiosamente, isto gera o efeito desejado e as bizarras criaturas, que se assemelham a polvos gigantes, esguicham jatos de tinta preta na parede transparente, formando símbolos arredondados que passam a ser vistos e entendidos como palavras. Mas se são palavras, o que significam? E de que forma tais símbolos se relacionam com os sons emitidos pelas criaturas? A intuição de Banks sobre os primeiros símbolos esguichados pelos Heptapods, como eles passam a ser chamados, é que se refeririam aos nomes dos dois seres que "dialogam" com a equipe - mas poderia ser também que significassem outra coisa. Aos poucos, isto é, a cada contato frente a frente e a cada tentativa de diálogo com os ETs - que parecem realmente dispostos a "conversar" -, a linguista e sua equipe, com a ajuda de alguns programas de computador, acabam por descobrir determinados padrões na linguagem escrita alienígena e isto faz com que o diálogo avance. Banks passa em certo momento a se utilizar da própria linguagem deles para dialogar. Não creio ela tenha se tornado fluente na língua alienígena, mas é possível constatar que a linguista aprendeu o suficiente para que um diálogo de verdade pudesse ocorrer. E com isso ela pôde finalmente compreender os motivos deles. Não entrarei aqui nesta questão e nem explorarei o surpreendente ato final. Gostaria apenas de discutir este complexo processo de comunicação entre a linguista e os ETs que, de certa forma, reproduz as dificuldades de comunicação entre os próprios seres humanos.

Como já comentei em outro post, empatia é a capacidade de nos imaginar no lugar do Outro. Não podemos, de fato, nos colocar no lugar deste Outro; o máximo que podemos fazer é utilizar nossa imaginação para induzir em nossa mente aquilo que acreditamos que outras pessoas (ou seres) sentem. E isto, embora seja algo positivo, aponta para um enorme abismo entre todos nós, pois de fato nunca saberemos exatamente como as outras pessoas se sentem - e nem, efetivamente, se sentem. Só o que fazemos e o que podemos fazer é pressupor, acreditar, imaginar. E nada mais. Isto significa que a angústia ou a alegria que eu sinto não necessariamente são iguais às que você sente, embora nós dois chamemos determinadas sensações mentais e corporais de angústia e alegria. Jamais saberemos de fato. Essa visão de que vivemos uma solidão essencial, caracterizada por este "abismo subjetivo", é chamada pelos filósofos de solipsismo (do latim solus ipse, que significa "um ser sozinho"). Os solipsistas acreditam que não é possível saber se outras pessoas possuem consciência - talvez elas sejam simplesmente robôs ou zumbis que simulam estados conscientes. Só o que podemos saber é que nós próprios somos conscientes e possuímos mentes. A ideia básica dos solipsistas, como sintetiza Eric Matthews no livro Mente: conceitos-chave em filosofia, é que "eu poderia ser o único ser consciente, o único ser com uma mente em todo o universo". Este pensamento, ainda que logicamente faça algum sentido, é efetivamente uma loucura - afinal, quem realmente acredita que nenhuma outra pessoa no mundo seja consciente? De toda forma, o solipsismo aponta para uma certa distância subjetiva entre as pessoas, que seria responsável por muitos dos problemas de comunicação que enfrentamos em nossas vidas. A ideia é que somos, de alguma forma, ETs uns para os outros: nossa forma peculiar de agir, pensar e sentir, ainda que seja construída coletivamente no mundo social, possui uma configuração individual única que dificulta sua apreensão pelas outras pessoas e consequentemente nosso processo de comunicação. E isto significa que embora compartilhemos o mesmo mundo físico, possuimos mundos subjetivos diferentes, o que faz com que passemos grande parte do tempo aprendendo e reaprendendo a nos comunicar uns com os outros. Algumas vezes a distância entre estes mundos diminui e a comunicação ocorre de forma plena; outras vezes - muitas vezes - a distância aumenta e a comunicação deixa de fluir. Como bem afirma Eric Matthews - e como comprova o maravilhoso filme A chegada -  "a comunicação humana, por mais difícil que seja, é ao menos possível de vez em quando".

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O que nos torna humanos? Reflexões a partir da série "Humans" (SEM SPOILERS)

O que nos torna humanos? O que nos diferencia dos outros animais e o que nos diferenciaria de eventuais máquinas pensantes? Com relação aos animais, Aristóteles afirmava que o ser humano é o único "animal político", querendo com isso dizer que somente nós temos a capacidade de pensar e agir racionalmente em prol do bem comum. Já para Descartes a grande diferença é que o homem seria o único dotado de alma. Os outros animais, para o filósofo, não passariam de máquinas desalmadas e, portanto, irracionais. A dor expressa por um cachorro, por exemplo, nada mais seria do que uma espécie de defeito na máquina. Após Darwin, o entendimento sobre o que nos diferencia dos outros animais se alterou consideravelmente, pois passou-se a entender tais diferenças como sendo de grau e não mais de qualidade ou natureza. O cérebro e, como consequência, a mente humana, da mesma forma que todo o nosso corpo, seriam, nesse sentido, frutos da evolução por seleção natural. E isto significa que nossas características mais peculiares também podem ser encontradas, em alguma medida, nos outros animais - e é esta proximidade que, de alguma forma, justifica e, por outro lado, torna problemática a utilização de animais para fins científicos. Nossa linguagem, por exemplo, nos faz realmente únicos, mas isto não significa que estejamos totalmente sozinhos neste quesito. Outros animais, como cachorros, golfinhos e macacos, também possuem sistemas de comunicação - menos elaborados que o nosso, certamente, mas que lhes permitem atingir determinados fins. Da mesma forma, me parece consensual ou pelo menos majoritário entre os cientistas contemporâneos o entendimento de que outros animais possuem emoções, memórias e inteligência, embora em menor complexidade do que nos seres humanos.

No entanto, para além de tudo que nos distancia, de fato compartilhamos com todos os outros animais a "posse" um corpo biológico dotado de uma anatomia e uma fisiologia assim como de determinados sentidos que permitem sejamos afetados pelo mundo e o afetemos. Como os animais e também as plantas e os fungos, somos seres biológicos - certamente não nos reduzimos a esta biologia, mas sem ela não seríamos quem somos e não faríamos o que fazemos. Como seria, então, se criássemos máquinas inteligentes com aparência humana? No que nos diferenciaríamos de tais "criaturas" não-biológicas? A série Humans, fantástica produção inglesa lançada em 2015, traz algumas respostas para estas perguntas - mas fique tranquilo, não revelarei nada de significativo sobre a série. No mundo retratado em Humans, que se passa em uma Londres ao mesmo tempo futurista e atual, humanos e sintéticos, como são denominadas as máquinas humanizadas, convivem de forma relativamente pacífica. Isto porque os sintéticos, também chamados de synths, embora sejam capazes de realizar inúmeras atividades desempenhadas anteriormente por seres humanos - especialmente aquelas mais degradantes e perigosas -, não possuem consciência de si e do mundo. Apenas agem automaticamente a serviço do homem. Os synths não possuem autonomia; são meramente "escravos". A grande questão é que um de seus criadores decidiu ir além e acabou por criar um grupo androides conscientes. O que ele fez, em suma, foi desenvolver uma verdadeira inteligência artificial, como ainda não possuímos e talvez nunca possuiremos. Tais sintéticos tem a capacidade não somente de agir como seres humanos mas também de pensar e sentir de forma aproximada à nossa. E isto significa, então, que o cientista criou seres humanos não-biológicos? Ou não são seres humanos, apenas máquinas que simulam os comportamentos, pensamentos e sentimentos humanos? De toda forma, no que estes seres ou coisas se assemelham e no que se diferenciam de nós?

Uma primeira e mais elementar resposta para esta última pergunta é que não sendo seres biológicos, os sintéticos jamais vivenciariam muitas das coisas que fazem parte da vida cotidiana de todos os seres humanos e de muitos seres vivos. Por não possuírem um corpo biológico, eles nunca sentiriam fome e nunca precisariam se alimentar - na série, eles precisam apenas serem carregados em uma tomada. Da mesma forma, por não se alimentarem, não haveria qualquer processo de digestão e nunca precisariam defecar ou urinar. Eles também nunca sentiriam dor de barriga ou qualquer outra dor interna, pois não possuiriam órgãos - na série, somente os sintéticos conscientes sentem dor e apenas quando lesionam a pele. Eles também não precisariam e provavelmente não poderiam tomar banho ou realizar qualquer ritual de higiene - no máximo, talvez, passar um perfuminho para agradar aos humanos. Também não poderiam beber qualquer líquido e, por isso, jamais experimentariam a embriaguez - na série, uma sintética que se disfarça de humana usa uma bolsa dentro da garganta para que possa "beber" e "comer" em situações sociais; no entanto ela bebe horrores e jamais fica bêbada. Da mesma forma, dificilmente veríamos um sintético vomitando, arrotando, soluçando ou peidando, ações absolutamente cotidianas para qualquer ser humano. Além disso, um ser não-biológico não precisaria, ainda que pudesse, fazer sexo ou se masturbar e jamais ejacularia de prazer, ainda que possuísse algum fluido corporal artificial. Também não poderia engravidar e jamais teria filhos "naturais". Mas não só: por ter sido fabricado e não nascido como um bebê, um sintético não cresce, não envelhece e não morre - uma máquina certamente pode ser desligada ou danificada mas suas peças podem ser trocadas e o dano reparado, exceto talvez, em casos de perda total. E por não morrer "naturalmente", provavelmente não teria medo da morte, algo absolutamente essencial na vida humana. Enfim, não ser uma criatura biológica certamente traz alguns benefícios, mas também uma série de prejuízos. O que se ganha em durabilidade, por exemplo, se perde em humanidade. Como chamar de humano um ser que não come, não bebe, não caga, não mija, não goza, não se embriaga, não fica doente, não envelhece e não morre? Um ser como esse, pode até se parecer fisicamente conosco; pode até possuir uma inteligência superior à nossa e executar cálculos e raciocínios com muito mais rapidez; pode até dispor uma memória extraordinária e até mesmo sentir determinadas emoções. Mas ainda faltará muito para que tal criatura se torne integralmente um ser humano.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

"Experimentos": a psicologia social no cinema

Experimentos do campo da psicologia social já foram retratados algumas vezes no cinema. A clássica experiência da "prisão de Stanford" - que colocou 24 voluntários em uma prisão simulada dentro da Universidade de Stanford, sendo doze caracterizados como prisioneiros e doze como guardas - inspirou pelo menos três filmes: o alemão A experiência (no original Das experiment, 2001), a fraca versão norte-americana Detenção (no original The experiment, 2010) e, mais recentemente, o também norte-americano O experimento de aprisionamento de Stanford (no original The Stanford Prison Experiment, 2015). Embora todos estes filmes sejam inspirados no experimento original realizado em Agosto de 1971 pelo psicólogo Phillip Zimbardo, somente o último pretende-se fiel aos acontecimentos. Os dois primeiros extrapolam os fatos reais tentando imaginar o que teria acontecido se o experimento de aprisionamento tivesse durado mais do que seis dias, como de fato durou (o experimento real teve de ser interrompido antes do prazo previsto de duas semanas devido à alguns episódios de violência entre presos e guardas). Existem ainda outros filmes que retratam experiências relevantes para o campo da psicologia social, ainda que não tenham sido conduzidas propriamente por psicólogos. Um deles é o documentário Olhos azuis (no original Blue eyed, 1996), que retrata a impactante intervenção sobre racismo e preconceito conduzida pela socióloga Jane Elliot. O outro é assustador filme alemão A onda (no original Des welle, 2008), que ficcionaliza um experimento real sobre o nazismo realizado pelo professor de história Ron Jones em uma escola da cidade de Palo Alto, nos EUA. 

Pois a mais recente produção a retratar uma experiência do campo da psicologia social é o filme Experimentos (no original Experimenter, 2015). Escrito e dirigido por Michael Almereyda, o filme retrata a vida e o trabalho do famoso psicólogo social Stanley Milgran, com destaque para o controverso experimento sobre obediência à autoridade conduzido por ele na década de 1960. O título original do filme, Experimenter, seria melhor traduzido por Experimentador, mas a distribuidora brasileira preferiu intitulá-lo de Experimentos, sugerindo, desta forma, que o filme não trata apenas de um experimento mas de vários - e de fato, inúmeros experimentos conduzidos por Milgran ao longo de sua carreira, assim como por colegas como Solomon Asch, são retratados. De uma forma geral, o filme é péssimo: o roteiro é muito mal construído, a estratégia de colocar Milgran falando para a câmera é terrível e não parece ter outro propósito além de mastigar o conteúdo para o público, os atores principais (que incluem Peter Sarsgaard como Milgran e Winona Ryder como sua esposa Sasha), apesar de bons em outras produções, aqui não conseguem empolgar e os cenários em geral são absolutamente toscos - isto para não falar da nada sutil propaganda da Coca-Cola presente em diversas cenas. Certamente, grande parte desses problemas se devem ao baixo orçamento do filme, mas isto de forma alguma justifica as terríveis escolhas do roteiro e direção. Ainda assim, apesar de tudo isso, o filme vale a pena ser visto - por um simples motivo: os experimentos que ele retrata, com bastante fidelidade, são fascinantes e deviam ser mais conhecidos pela população. Retratá-los em um filme certamente contribui para que isto aconteça.

Pois bem, imagino que você já tenha ouvido falar do controverso experimento de Milgran sobre obediência à autoridade. Se não for o caso - e mesmo se for - gostaria de explicar brevemente como ele foi conduzido, o que no filme é retratado com maiores detalhes. Em primeiro lugar, um "experimentador", vestido com um jaleco, conduzia dois sujeitos, supostamente voluntários, para uma sala e explicava para eles como iria funcionar o experimento. Ele lhes dizia, enganosamente, que se tratava de uma investigação sobre a influência da punição sobre o aprendizado e que um deles iria atuar como "professor" e o outro como "aluno". O "aluno" (L na imagem) ficaria atrás de uma parede, incomunicável com o "professor" (T), respondendo determinadas questões de múltipla escolha através de um painel. A cada erro cometido, o professor deveria aplicar um choque no aluno, sendo uma voltagem mais alta a cada erro. A grande sacada/sacanagem do experimento é que o "aluno" era um ator contratado por Milgran que, de fato, não recebia choque algum, apenas fingia recebê-lo. Desta forma, na medida em que as punições iam sendo aplicadas, o aluno/ator dava alguns gritos,  demonstrando que não estava bem e que queria sair logo dali - o que era ouvido pelo "professor". Em alguns momentos, o aluno ficava quieto, parecendo ter desmaiado ou morrido. Comumente, o "professor" demonstrava preocupação  e desconforto para o "experimentador" (E), que ficava logo atrás. No entanto, o experimentador era instruído a falar simplesmente: "você deve continuar" ou então "você não tem escolha". E grande parte das pessoas, cerca de 65%, continuou até o fim, até a mais alta voltagem ser supostamente aplicada no aluno. Poucos, muito menos do que imaginava e mesmo desejava Milgran, resistiram à autoridade do experimentador e ao fato deste se colocar como responsável por tudo o que acontecesse com o "aluno".

Stanley Milgran (1933-1984)
Milgran, que nasceu em 1933, era filho de pai húngaro e mãe romena, ambos judeus, que imigraram da Europa para os Estados Unidos fugindo do nazismo em ascenção e se estabeleceram em Nova Iorque. Sua história familiar foi decisiva para a criação deste experimento. A grande questão que intrigava Milgran era como o ser humano foi (e é) capaz de contribuir diretamente com atos atrozes e desumanos, como foi o caso do Holocausto. Olhando para a câmera, Milgran afirma no filme: "é isso o que está por trás dos experimentos de obediência. O pressentimento de que eu estava perseguindo o que mais me incomodava. Como seres humanos civilizados participam de desumanos atos de destruição? Como o genocídio foi implementado tão sistematicamente, de forma tão eficiente? E como os autores destes assassinatos conseguiram viver com suas consciências?". Outra questão que perseguia Milgran era: é possível não obedecer à autoridade? É possível resistir? Embora grande parte das pessoas continuasse o experimento, apesar do desconforto de estarem supostamente causando dor a outro ser humano, alguns resistiram. No filme é retratada a situação de um engenheiro elétrico holandês, que já sentira a dor de um choque e, por isso, se recusa a continuar. O experimentador, como de praxe, afirma que ele não tem escolha, ao que o sujeito rebate: "Por que eu não tenho escolha? Eu vim aqui por vontade própria. Pensei que poderia ajudar em um projeto de pesquisa. Mas se tiver que ferir alguém, se eu estivesse no lugar dele... Não, não posso continuar. Provavelmente já fui longe demais. Sinto muito". Ele resistiu, em grande medida, porque sentiu empatia com o "aluno" - e ele o sentiu porque já experimentou como é levar choques, o que não é o caso de muitos. Enfim, não é nada simples resistir. É muito mais fácil ceder à autoridade, abrindo mão da própria responsabilidade, e continuar causando dor a uma outra pessoa. É muito mais "normal" e esperado, agir como Adolf Eichmann, funcionário do sistema nazista, que teria dito durante seu julgamento - em uma tentativa de justificar suas ações - que "eu nunca fiz nada grande ou pequeno sem instruções expressas de meus superiores" (tal julgamento é tema do maravilhoso filme Hannah Arendt). Esta "banalidade do mal", segundo expressão de Arendt, parece ser, infelizmente, a norma. No entanto, como conclui Milgran no filme, dirigindo-se diretamente ao público, "você poderia dizer que somos marionetes. Mas eu acredito que somos marionetes com percepção, com consciência. Às vezes, podemos ver os cordões e, talvez, a nossa consciência seja o primeiro passo para nossa libertação". Que somos profundamente influenciados pelo contexto e pelas circunstâncias, disto não há dúvida - a psicologia social já demonstrou isto de inúmeras formas ao longo dos anos. A grande questão, ainda não resolvida, é se (e como) podemos resistir e agir autonomamente.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Medicina sem glamour: reflexões sobre o livro "Sem causar mal" e o filme "Sob pressão"

O curso de medicina é, disparado, o mais concorrido no Sisu - como era, anteriormente, em todos os vestibulares. É o curso mais desejado, não só no Brasil como em todo o mundo. Isto se deve, sem dúvida, a muitos fatores - como a tradição, o status, o mercado de trabalho, etc - mas eu gostaria de destacar um fator em especial: a visão extremamente idealizada da profissão médica disseminada pela mídia. Os médicos normalmente são retratados nos noticiários, novelas, séries e filmes como super-heróis, como pessoas poderosas, destemidas e infalíveis que, na batalha diária entre a vida e a morte, normalmente derrotam a morte e salvam vidas. Isto não deixa de ser verdade, claro - e longe de mim pretender falar da "realidade" da profissão médica, haja vista que em todas as profissões coexistem diversas realidades muito distintas entre si - mas certamente existe um lado B da profissão, um aspecto mais trágico e menos glamouroso, que raramente é retratado pela mídia. Pois este ano foram lançadas no Brasil duas obras que expõem algumas das feridas da profissão médica - especialmente do ramo da cirurgia - e que acabam por expor também os dilemas e limites dos sistemas de saúde.

A primeira obra que gostaria de indicar e comentar é o aclamado livro Sem causar mal: histórias de vida, morte e neurocirurgia, escrito pelo neurocirurgião inglês Henry Marsh, um dos mais conceituados e experientes profissionais desta especialidade cirúrgica na Inglaterra. O livro tem início com uma frase maravilhosamente trágica do médico René Leriche (1879-1955) segundo o qual "todo cirurgião traz dentro de si um pequeno cemitério, onde, de tempos em tempos, ele vai orar. É um lugar de amargura e arrependimentos, onde ele deve procurar uma explicação para os seus fracassos". A frase se encaixa perfeitamente à proposta do livro que é justamente escancarar o cemitério que Marsh carrega dentro de si e que inclui inúmeros erros e arrependimentos. Como se estivesse em um confessionário (ou em um divã), March expõe com muita sensibilidade todas as dores, mas também algumas delícias, de ser um neurocirurgião. De fato não se trata de um trabalho fácil; pelo contrário, não consigo imaginar tarefa mais desafiadora do que operar um órgão tão sensível e complexo como o cérebro humano, "o misterioso substrato de todo pensamento e sensação, de tudo o que é importante na vida humana" como ele próprio define. O grande problema das cirurgias no cérebro segundo Marsh é que "mesmo se houver um pequeno acidente, as consequências podem ser catastróficas". E o que não faltam no livro são histórias de pequenos acidentes com consequências catastróficas. Em uma cirurgia cerebral, qualquer erro, por mais ínfimo que seja, pode deixar a pessoa cega, paralizada ou até mesmo matá-la - o que se contrapõe diretamente ao Juramento de Hipócrates segundo o qual o médico deve, em primeiro lugar, "não causar mal" (daí o título do livro). Certamente os pacientes, em grande parte vítimas de terríveis tumores, precisam confiar no médico e acreditar que ele é um super-herói infalível, mas de fato ele é humano e como tal, está sujeito a erros. Marsh, nesse sentido, admite que errou muito ao longo de suas mais de três décadas como neurocirurgião. Como afirma em certo momento, "eu trouxe a felicidade a muitos pacientes com operações bem-sucedidas, mas houve também muitos fracassos terríveis. E a vida dos cirurgiões é pontuada por períodos de desespero profundo". Na mesma direção, o autor aponta que "cirurgiões tem dificuldade de admitir erros, tanto para si quanto para os outros, e há toda sorte de maneiras com as quais eles disfarçam seus erros e tentam colocar a culpa em outros fatores". Marsh, agora já no fim de sua carreira, já não quer mais agir desta forma e prefere encarar de frente os erros do passado que ainda lhe assombram. Seu livro talvez seja, neste sentido, uma tentativa de expiação destes fracassos - uma bela e sensível tentativa, eu acrescentaria. Um dos melhores livros do ano!

Já a segunda obra sobre a qual gostaria de trazer algumas reflexões é o filme Sob pressão, nova produção do diretor Andrucha Waddington (o mesmo dos maravilhosos Eu, tu, eles e Casa de Areia). O filme acompanha um dia no trabalho de uma equipe médica de um hospital público situado em uma favela do Rio de Janeiro. A equipe da chamada Unidade Vermelha, setor de emergência do hospital, é chefiada pelo cirurgião Evandro (vivido com intensidade pelo ator Júlio Andrade) e inclui também um anestesista, uma médica novata e mais dois residentes. O filme tem início com Evandro saindo momentaneamente do hospital para tomar seu café da manhã após uma longa noite de trabalho quando um tiroteio começa do outro lado do morro. Instantes depois chega uma ambulância trazendo dois sujeitos gravemente feridos na troca de tiros: um é policial e o outro é bandido. Junto com a ambulância chega também no hospital o capitão da PM, que pressiona fortemente o médico para que ele trate o policial e deixe o bandido morrer (agora você já sabe a inspiração para a polêmica enquete do Programa da Fátima Bernardes). Tal pressão deixa Evandro furioso. Ali dentro do hospital, vocifera o médico, quem manda é ele; é ele quem faz as escolhas; é ele quem decide que será tratado primeiro e quem terá de esperar - pois de fato as condições do hospital são tão precárias, tanto em termos de equipamento quanto de pessoal, que não há como cuidar de todos ao mesmo tempo. E no meio desta confusão chega ao hospital mais um sujeito baleado, desta vez um garoto filho de um poderoso dono de jornal. Tudo ao mesmo tempo e agora. No restante do filme os médicos correm de um lado para o outro, brigam entre si e fazem cirurgias complexas na mais completa precariedade, enfim, "se viram nos 30" com quase nada - e tudo isso sob uma imensa pressão dos pacientes, dos familiares, dos policiais, dos traficantes, da administração do hospital, etc. É tanta pressão e precariedade que eu passei o filme todo me perguntando: como eles aguentam esta rotina de guerra dia após dia, meu deus? Enfim, esqueça aquelas séries norte-americanas de hospital - como Grey's Anatomy, House ou E.R.  - nas quais médicos esbeltos, cheirosos e descansados trabalham junto a equipes numerosas em locais assépticos e equipados. Na realidade infernal exposta em Sob pressão - que retrata de forma bastante fiel o trabalho de muitos médicos no Brasil - não há beleza, glamour ou status. Há trabalho duro, escolhas difíceis, noites insones e muita, mas muita pressão.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Doutor Estranho: a mente entre a matéria e o espírito

O filme Doutor Estranho, nova produção da Marvel, conta a história do competente e arrogante neurocirurgião Stephen Strange - ou melhor, Doutor Stephen Strange, como ele sempre afirma - que sofre um terrível acidente de carro e tem os nervos de suas mãos, essenciais para seu ofício, gravemente lesionados. Desesperado e ansioso para voltar a trabalhar, Strange recorre a todos os procedimentos possíveis na medicina ocidental: passa por diversas cirurgias, faz fisioterapia e toma medicações. Tudo em vão. Até que certo dia ele fica sabendo de um sujeito, chamado Jonathan Pangborn, que teria se recuperado completamente de uma séria e debilitante lesão medular. Strange decide procurá-lo e este lhe afirma que sua cura teria sido ocasionada por uma "intervenção" realizada em um local denominado Kamar-Taj. E como não tinha mais nada a perder, pois já havia perdido sua principal fonte de subsistência e realização pessoal, isto é, seu trabalho, Strange vende todos os seus bens e viaja até a cidade de Katmandu no Nepal em busca deste local misterioso - que acaba encontrando depois de um tempo. E descobre que trata-se de um templo sagrado onde vivem um grupo de monges dedicados a proteger o universo das forças do mal. Mas logo que adentra o templo, Strange ainda não sabe de nada disso e pensa que se trata de uma espécie de clínica onde espera receber algum tipo de tratamento experimental para seu problema. No entanto, assim que encontra a Anciã descobre que o tal "tratamento" não é nada daquilo que ele imaginou. O primeiro diálogo entre eles, que reproduzo integralmente abaixo, é bastante interessante e ilustrativo de uma discussão que farei em seguida sobre a natureza da mente.

Anciã: Você passou por muitos procedimentos. Sete, certo?
Strange: Sim.... E você curou um homem chamado Pangborn? Ele era paralítico.
- De certo modo.
- Ajudou-o a andar de novo.
- Sim.
- Como corrigiu uma fratura completa na [vértebra] C7 e C8?
- Eu não corrigi. Ele não conseguia andar. Convenci-o que conseguia.
- Você não está dizendo que era psicossomático, não é?
- Quando você reconecta um nervo cortado, quem o cura é você ou o corpo?
- As células.
- E elas são programadas para se juntarem de maneira muito específica.
- Isso mesmo.
- E se eu dissesse que seu corpo poderia ser convencido a se ligar de todas as formas possíveis.
- Você está falando de regeneração celular. Isso é tecnologia médica de ponta. Por isso trabalha aqui, sem uma junta governamental? Digo... quão experimental é seu tratamento?
- Um pouco.
- Então descobriu um modo de reprogramar as células nervosas para se curarem?
- Não, Sr. Strange. Sei como reorientar o espírito para uma melhor cura corporal. (...)
- [Irritado] Eu gastei o meu último centavo para vir aqui. Uma passagem só de ida e está falando de cura através de fé?
- [Você] é um homem que olha o mundo por uma fechadura...e passou a vida tentando expandir essa fechadura.Ver mais, saber mais. E agora, sabendo que pode fazê-lo, de maneiras que não pode imaginar... você rejeita a possibilidade?
- Estou rejeitando pois não creio em historinhas sobre chakras, energia ou poder da fé. Não existe essa coisa de espírito! Somos feitos de matéria, nada mais. Você só é uma partícula minúscula e temporária em um universo indiferente.

Logo após Strange dizer isso, a anciã lhe dá um forte empurrão que faz com que sua alma saia de seu corpo e o veja de cima. Em seguida a alma de Strange faz uma alucinante e psicodélica viagem para outros mundos e universos incrivelmente surreais - as imagens desta primeira "viagem" são fantásticas! E logo após ele voltar ao seu corpo, embasbacado com a experiência, a Anciã lhe explica que "na raiz da existência, mente e matéria se encontram" e que "os pensamentos moldam a realidade". A partir deste momento Strange adere sem mais questionamentos à filosofia de sua, agora, mestre. Pois bem, o que acho muito interessante neste primeiro diálogo entre a Anciã e Strange é que ele traz à tona um "conflito" ao mesmo tempo antigo e atual sobre a natureza da mente. Em um pólo deste conflito nós temos os materialistas ou fisicalistas, para quem tudo o que existe - inclusive a mente - é puramente material ou físico. A mente é o cérebro, afirmam. Para os adeptos desta corrente monista, majoritária no campo científico contemporâneo, não existe alma ou espírito assim como não existem anjos, deuses ou demônios. No outro pólo deste "conflito" nós temos os anti-materialistas ou pós-materialistas, para quem a realidade - incluindo a mente - não se reduz à matéria. A mente não é o cérebro, afirmam. Para os adeptos desta corrente dualista (que inclui os espiritualistas), embora a mente se relacione com cérebro e dependa dele de alguma maneira, "ela" não pode ser reduzida a "ele". Mente e cérebro seriam substâncias ou propriedades distintas. Certamente, entre estas duas posições extremas é possível encontrar muitas outras visões intermediárias sobre a natureza da mente, mas para os propósitos deste post tal divisão, ainda que artificial, é suficiente.

Os cientistas contemporâneos tendem a ser majoritariamente materialistas por acreditarem que esta perspectiva, entendida como fato, é o "resultado natural e inevitável do avanço das investigações científicas", como afirma o pesquisador Saulo Araújo. Creem, assim, que quem é cientista "de verdade" só pode ser materialista. No entanto, isto não passa de uma falácia. Em seu livro Psicologia e Neurociência: uma avaliação da perspectiva materialista no estudo dos fenômenos mentais, Araújo expõe de uma forma bastante clara os motivos pelos quais esta afirmação não é correta. Em primeiro lugar, porque o materialismo não é propriamente uma tese científica, mas uma tese metafísica, geral e abrangente, que, como tal, não pode ser testada empiricamente. Nenhum experimento científico teria como comprovar o materialismo ou, pelo contrário, refutar o anti-materialismo. Neste sentido, a expressão ‘materialismo científico’ não passaria de uma posição ideológica ou uma designação do status profissional de seus adeptos, os cientistas, o que leva o autor a concluir que “ciência e materialismo são coisas distintas, que só por um deslize conceitual podem ser tratadas como idênticas”. Em segundo lugar, o materialismo não é, de fato, uma tese nova, tendo aparecido sob diferentes formas no decorrer da história do pensamento ocidental - Araújo aponta, neste sentido, para um eterno retorno do materialismo

Finalmente, reforçando ainda mais o primeiro motivo, está o fato de que existe um significativo número de cientistas anti ou pós-materialistas e até mesmo espiritualistas - e isto não faz deles cientistas piores ou menores necessariamente. Um marco bastante significativo da existência de um movimento anti-materialista no âmago do mundo científico foi a publicação em 2014 do Manifesto por uma ciência pós-materialista, assinado por mais de cem cientistas de diversas áreas do conhecimento de todo o mundo. Neste importante documento (traduzido aqui), os cientistas criticam de forma veemente a forma dogmática com que a crença no "materialismo científico" tem sido defendida por muitos cientistas. Segundo eles, "este sistema de crença prega que a mente nada mais é que fruto da atividade cerebral  e que nossos pensamentos não podem ter qualquer efeito sobre nossos cérebros e corpos, nossas ações e nosso mundo físico". Em contraponto a esta visão, os cientistas pós-materialistas defendem que "a mente representa um aspecto da realidade tão primordial quanto o mundo físico"  e que "há uma profunda inter-conectividade entre a mente e mundo físico". Alertam ainda que o pós-materialismo não exclui a matéria, mas também não se limita a ela. Enfim, o que este manifesto aponta e defende é que o materialismo não é a única forma de se enxergar o mundo, de se conceber a mente ou de se fazer ciência. É apenas uma narrativa possível, dentre muitas outras. Diferentes visões, inclusive as anti-materialistas devem ter espaço e serem levadas em consideração e não simplesmente descartadas como sendo anti-científicas. E tudo isto significa que tanto a visão materialista defendida inicialmente pelo Doutor Strange quando a visão anti-materialista e espiritualista defendida pela Anciã podem coexistir, sem que uma necessariamente se sobreponha ou anule a outra. Tais visões não passariam, neste sentido, de diferentes atos de fé.

Update 21/11/2016: uma outra discussão bastante interessante apresentada pelo filme é aquela que contrapõe duas visões sobre a morte. De um lado temos o "vilão" Kaecilius, um defensor ardoroso da imortalidade, que seria obtida ao entregamos o domínio do nosso mundo para o líder da Dimensão Negra Dormammu. No primeiro diálogo com Strange, Kaecilius deixa bastante claro sua visão sobre a morte. Leia a seguir, na íntegra:

Kaecilius: Diga-me, Mestre...
Strange: Olhe, meu nome é Doutor Stephen Strange.
- É um doutor? Um médico, um cientista. Você entende as leis do Universo. Tudo envelhece. Tudo morre. No final, nosso Sol se extingue. Nosso Universo esfria e perece. Mas a Dimensão Negra é um lugar além do tempo... Este mundo não tem de morrer, Doutor. Ele pode tomar seu lugar junto a tantos outros. Como parte de um todo. Um todo grandioso e belo. Podemos todos viver para sempre
- Sério? O que você ganha com essa utopia de Nova Era?
- O mesmo que você e todo mundo. Vida. Vida eterna. As pessoas pensam em termos de bem e mal, mas na verdade o tempo que é nosso inimigo real. O tempo mata tudo.
- E as pessoas que você matou?
- Não são nada. Ciscos momentâneos em um Universo indiferente. Sim, você entende. Você entende o que estamos fazendo. O mundo não é o que deveria ser. A humanidade anseia pela vida eterna. Um mundo além do tempo, pois o tempo nos escraviza. O tempo é um insulto. A morte é um insulto. Doutor, Não queremos governar este mundo. Queremos salvá-lo e entregá-lo a Dormammu que é o ápice de toda evolução. A razão principal por existirmos. A Maga Suprema defende a existência. O que levou você a Kamar-Taj, Doutor? Esclarecimento? Poder? Você foi para ser curado, assim como todos nós. Kamar-Taj é um lugar que acolhe os problemáticos. Todos fomos com a promessa de cura, mas, ao invés disso, a Anciã nos deu truques baratos. A magia de verdade ela guarda para si mesma. Já se perguntou como ela pôde viver tanto?
- Não. Vi os rituais no Livro de Cagliostro.
- Então você sabe. O ritual me deu o poder para derrubar a Anciã e destruir os Sanctums dela. Para que venha a Dimensão Negra. Pois o que a Anciã esconde, Dormammu compartilha. A vida eterna. Ele não é o destruidor de mundos, Doutor. Ele é o salvador. 

 
Do outro lado, temos a "mocinha" da história, a Anciã, que é uma forte defensora da mortalidade, embora ela própria seja imortal. Segundo ela é "a morte é que dá sentido à vida". Se não morrêssemos, jamais nos preocuparíamos em dar significado e valor à nossa existência. É a inevitabilidade de nossa finitude que faz com que busquemos preencher os nossos dias da melhor forma possível. O que acho bastante interessante no filme é que ele inverte a lógica tradicional ao colocar como vilão um sujeito que defende a imortalidade e como "mocinha" uma mulher que embora seja tão espiritualista como o vilão, defende a importância da morte para a vida.