domingo, 19 de junho de 2016

A neurociência superou a psicanálise... #sqn

Em entrevista publicada no dia 18 de Junho de 2016 no jornal Folha de São Paulo, o eminente neurocientista Ivan Izquierdo fez algumas afirmações polêmicas. Dentre outras coisas ele disse que "Freud é uma grande referência, deu contribuições importantes. Mas a psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência". Segundo o pesquisador, a psicanálise "é coisa de quando não tínhamos condições de fazer testes, ver o que acontecia no cérebro". E continua: "Hoje a pessoa vai me falar em inconsciente? Onde fica? Sou cientista, não posso acreditar em algo só porque é interessante. Para mim, a psicanálise hoje é um exercício estético, não um tratamento de saúde. Se a pessoa gosta, tudo bem, não faz mal, mas é uma pena quando alguém que tem um problema real que poderia ser tratado deixa de buscar um tratamento médico achando que psicanálise seria uma alternativa". E outros tipos de análise que não a freudiana?, questiona a jornalista da Folha, ao que Izquerdo responde "Terapia cognitiva, seguramente. Há formas de fazer o sujeito mudar sua resposta a um estímulo".

Tenho profundo respeito pelo neurocientista Ivan Izquierdo, que aos 78 anos de idade e 60 de carreira "é uma grande referência, deu contribuições importantes", como ele próprio afirma sobre Freud. Izquierdo tem uma vasta produção acadêmica no campo das neurociências e ainda publicou diversas obras de divulgação cientifica, especialmente sobre o tema da memória, como os livros  "A arte de esquecer" e "Questões sobre memória", dentre outros. Sua importância para o campo neurocientífico brasileiro é inquestionável. Maaaaas... definitivamente não concordo com suas afirmações sobre a psicanálise - e olha que eu não sou psicanalista! Mas por que não concordo? Em primeiro lugar ele afirma que apesar de ter sido uma referência e ter feito importantes contribuições, hoje as ideias de Freud (e mais amplamente da própria psicanálise, que vai além de seu criador) já estariam superadas pelos estudos em neurociência. Mas o que significa superar? Segundo o dicionário Aurélio, superar significa ao mesmo tempo "vencer, subjugar, dominar" e também "destruir, devastar, arrasar, aniquilar, livrar-se de, afastar, remover". Então vejamos: a neurociência venceu ou destruiu a psicanálise? De forma alguma, pois isto somente aconteceria caso os dois campos partilhassem dos mesmos objetivos, o que não é o caso. Dizer, nesse sentido, que a neurociência superou a psicanálise seria como dizer que a física superou a biologia ou que o direito superou a sociologia (ou mesmo que o rock superou o samba). Áreas diferentes que possuem objetivos diferentes não podem superar umas às outras.

Mas quais são especificamente os objetivos da neurociência e da psicanálise? No caso do campo neurocientífico, cuja emergência se deu na segunda metade do século XX após o termo "neurociências" ter sido cunhado em 1962 por Francis O. Schmitt, pesquisador do Massachusetts Institute of Technology, nos EUA, o objetivo é claro: estudar e entender o funcionamento do sistema nervoso dos seres vivos (não somente dos seres humanos) - e não custa lembrar que o sistema nervoso inclui o cérebro mas não se reduz a ele. Isto significa que o campo neurocientífico tem como objetivo central entender o funcionamento não do ser humano como um todo e nem da consciência em geral mas do sistema nervoso do homem e de outros animais. Mesmo o campo da neurociência cognitiva, que se propõe a estudar as capacidades mentais complexas normalmente associadas ao ser humano, como a linguagem, a memória e a autoconsciência, tem como foco o estudo do sistema nervoso, especialmente do cérebro. 

Já a psicanálise, por outro lado, possui uma origem diversa e outros objetivos. Criada (e não descoberta!) na virada do século XIX para o século XX por Freud, a psicanálise se constituiu, desde o início, como um campo de investigações sobre a psiquê humana e também de intervenção clínica (intervenção essa que está na base do processo investigativo). Embora Freud tenha atuado inicialmente como neurologista, e até escrito alguns textos sob esta ótica, aos poucos foi abandonando, ou deixando de lado, seu "projeto para uma psicologia científica" (título de um de seus primeiros livros, escrito em 1895) para desenvolver uma teoria do inconsciente - ou, mais amplamente, uma teoria da mente ou da subjetividade. O cérebro, neste sentido, deixou de ser o foco de seu interesse - especialmente a partir da publicação de Interpretação dos sonhos, em 1900. Na verdade é possível constatar um progressivo distanciamento (ainda que não propriamente um rompimento) com a neurologia e, mais amplamente, com a biologia. No entanto, como afirma o psicanalista Benilton Bezerra Jr. no livro Projeto para uma Psicologia Científica: Freud e as neurociências, não é que Freud teria rejeitado a intenção de investigar neurologicamente a psiquê, mas sim "reconhecido que, no horizonte restrito de seu tempo, não existiam as condições para que pudesse ser realizada". Independentemente dos motivos para tal afastamento, de fato a psicanálise se desenvolveu por um caminho distinto e distante das neurociências, o que significa que ainda que tenham o ser humano como "objeto" de estudo e intervenção, os dois campos o fazem por caminhos, perspectivas e métodos muito diferentes. E é exatamente por isso que jamais a neurociência poderia superar a psicanálise - e vice-versa.

Além do mais, entender o funcionamento do cérebro não é o mesmo que entender o funcionamento da mente. Certamente, como já disse outras vezes neste blog, há uma relação entre os dois. Quando, por exemplo, o cérebro é lesionado ou quando ingerimos determinadas medicações/drogas, isto normalmente gera efeitos na mente (entendendo aqui mente como sinônimo de subjetividade ou, segundo expressões bastante utilizadas no campo da filosofia da mente, de perspectiva de primeira pessoa ou qualia). Por outro lado, a mente também influencia o cérebro e o corpo como um todo, o que pode ser observado no efeito placebo ou ao avaliarmos o impacto das terapias psicológicas no cérebro. E isto significa também que cérebro e mente são "coisas" diferentes. Não substâncias diferentes, como os chamados "dualistas de substância" acreditam, mas "propriedades" diferentes. Os "dualistas de propriedades",  dentre os quais me incluo, acreditam que mente e cérebro possuem propriedades diferentes. Por exemplo, o cérebro pode ser analisado objetivamente através de equipamentos como tomografias computadorizadas, ressonâncias magnéticas e microscópios. A mente não. Esta só pode ser acessada pelo próprio indivíduo via introspecção - e por outras pessoas indiretamente através do relato do indivíduo. Nenhum equipamento jamais acessará diretamente a mente, permitindo um estudo objetivo da mesma. E é exatamente por isso que a psicanálise não é (e nem pretende ser) uma ciência como a neurociência e é também por isso que vejo com muito ceticismo propostas como a neuropsicanálise, que pretende juntar ou aproximar os dois campos. Como aponta o filósofo Francisco Ortega e a psicóloga Rafaela Zorzanelli no livro Corpo em evidência: a ciência e a redefinição do humano, "a pretensão de reunir psicanálise e neurociências ou reagrupá-las sob um mesmo vocabulário só pode ser considerada um equívoco, pois não leva em conta a ruptura com a biologia realizada pela teoria freudiana".

Aliás, esta ruptura com o biológico é a razão de a psicanálise não ser propriamente uma forma de tratamento médico, como a intervenção medicamentosa feita por um psiquiatra. Embora a psicanálise tenha surgido da medicina e Freud tenha sido médico, a terapia psicanalítica não objetiva simplesmente a "cura" ou a redução sintomática de determinados transtornos mentais. A psicanálise e os psicanalistas em geral não operam por esta lógica e não se utilizam dos conceitos e diagnósticos psiquiátricos, como aqueles descritos nos manuais oficiais de saúde mental. E isto aponta para objetivos bastante distintos das terapias psicanalíticas com relação às terapias cognitivas e às intervenções medicamentosas. A psicanálise certamente não pretende "fazer o sujeito mudar sua resposta a um estímulo", como afirmou Izquierdo ao se referir à terapia cognitiva, entendida por ele como muito mais científica, e portanto, efetiva. De forma alguma. Os objetivos da terapia psicanalítica são outros e estariam muito mais próximos daquilo que leigamente chamamos de autoconhecimento. Isto significa então, como sugeriu Izquierdo, que a psicanálise não seja eficaz? Não, significa apenas que ela opera em outra lógica, muito diferente daquela que leva em conta apenas estímulos, respostas e química cerebral. Eficácia, no caso da psicanálise, não é algo que possa simplesmente ser mensurado em um teste duplo-cego como aqueles realizados para se avaliar a eficácia de uma determinada medicação. Mas isto não significa que a terapia psicanalítica não tenha o seu valor e sua efetividade. Quem já fez terapia, seja psicanalítica ou de outra abordagem, sabe que se trata de um processo complexo, cheios de altos e baixos, de progressos e estagnações, cuja eficácia não pode ser facilmente medida ou avaliada. Isto porque se trata de um processo essencialmente subjetivo e que tem na subjetividade sua principal matéria prima. Negar esta subjetividade, como faz Izquierdo, transformando as dificuldades humanas em meros processos neuroquímicos e de estímulo-resposta que devem ser devidamente "tratados" através de procedimentos "médicos" e "científicos" só pode ser visto como um discurso reducionista e, mais do que isso, simplista. O mundo é muito grande, Dr. Izquierdo, e ele tem espaço pra diversas perspectivas e intervenções. Um conhecimento não precisa "superar" ou suplantar o outro. A neurociência não superou e não precisa superar a psicanálise. Afinal, como bem disse a escritora Siri Hustvedt no maravilhoso livro A mulher trêmula - em uma frase que carrego comigo como um mantra - "jamais fui capaz de aceitar que qualquer sistema, por mais sedutor que pareça, possa abranger as ambiguidades inerentes a ser uma pessoa no mundo".
Comentários
3 Comentários

3 comentários:

Roberta Ecleide disse...

Sábias, consistentes e precisas palavras. Obrigada.

Bel disse...

Ótimo texto! Gostaria que fosse tão divulgado quanto foi a matéria sobre Izquierdo, mas infelizmente o pensamento técnico-científico se pretende hegemônico e há pouco espaço para que conhecimentos baseados em epistemologias diferentes apareçam.

Vitor Sales disse...

"A psicanálise certamente não pretende "fazer o sujeito mudar sua resposta a um estímulo", como afirmou Izquierdo ao se referir à terapia cognitiva, entendida por ele como muito mais científica, e portanto, efetiva. De forma alguma. Os objetivos da terapia psicanalítica são outros e estariam muito mais próximos daquilo que leigamente chamamos de autoconhecimento. "

Mas a finalidade do autoconhecimento não é justamente fazer o sujeito mudar sua resposta a um estímulo? Como por exemplo se tornar uma pessoa mais equilibrada diante de certas situações? A psicanálise, por exemplo, quando pretende trabalhar para atenuar efeitos de uma experiência traumática não visa justamente fazer o sujeito mudar sua resposta a um estímulo?

Na verdade a falta de empirismo da psicanálise não é devido à sua natureza psicológica (behaviorismo é de natureza psicológica e ainda assim é empírico). Psicanálise não é empírica simplesmente pq se restringe exclusivamente a fazer suposições e interpretações arbitrárias, que não encontram qualquer validação experimental. É verdade que a metafísica precede a ciência, mas não é por conta disso que devemos acreditar em qualquer suposição ou construção teórica abstrata, muito menos adotá-la como ciência, sem haver a mínima possibilidade de verificação da validade destes conceitos e explicações.

Um exemplo de como a neurociência já supera a psicanálise é a utilização de neurofeedback. Através desse tipo de avaliação, o psicólogo é capaz de avaliar em tempo real as respostas que o paciente oferece na medida em que é exposto aos estímulos, e assim é possível fazer com que o cérebro do paciente gradativamente vá se acostumando e se moldando a determinados estímulos, diminuindo ou eliminando a aparição de respostas indesejadas (como nas lembranças de experiências traumáticas, por exemplo). Se o mesmo paciente fosse realizar, ao invés de neurofeedback, um tratamento psicanalítico, ele passaria anos a fio discutindo e especulando abstrações sobre os motivos que o levam a ter certas respostas a determinados estímulos relacionados àquela experiência traumática, sem no entanto obter muitos avanços nesse sentido.

Dito isto, não sou da opinião que a psicologia devesse se abster totalmente de discutir sobre questões puramente mentais e abstratas. A discussão é válida. No entanto, a psicanálise não apenas se propõe a discutir neste âmbito, mas cria verdadeiros fantasmas, entidades e estruturas mentais a partir de abstrações, e o pior, utiliza desses fantasmas de forma pragmática e dogmática, para categorizar todo espectro do comportamento humano nos termos que ela própria inventou arbitrariamente, numa "ânsia totalizante e reducionista" de explicar a mente humana.