terça-feira, 7 de junho de 2016

"Ideologia de gênero": entre a ignorância e a má-fé

Que família, cara pálida?
O ano era 2015. Estava eu voltando à pé para casa quando vi, na frente da Câmara Municipal da minha cidade, uma aglomeração. Ao me aproximar observei alguns indivíduos com camisas de agremiações religiosas segurando cartazes com os seguintes escritos: "Diga não à ideologia de gênero", "Sou a favor da família" e "Educação sim, gênero não". Daí fui me informar e descobri que estava acontecendo uma discussão sobre a inclusão ou exclusão das temáticas de gênero e sexualidade no Plano Municipal de Educação - no Plano Nacional de Educação tais expressões foram retiradas em 2014. Pois bem, decidi me fazer de bobo e fui fazer umas perguntas para algumas pessoas que estavam protestando contra a tal "ideologia de gênero". Cheguei para o primeiro, um sujeito na faixa dos 40 anos segurando um desses cartazes e, como quem não quer nada, perguntei:

- O que que está acontecendo aqui?
- Ah, tão votando uma lei.
- Sobre o que é essa lei, você sabe?
- Ah, é a lei da ideologia de gênero [também conhecida como... Plano Municipal de Educação]
- Ah é? Tava sabendo não [mentira]. Sobre o que é essa lei?
- É uma lei para instituir a educação sexual nas escolas para que a criança possa escolher se quer ser menininho ou menininha.
- É mesmo? Que coisa.
- A criança seria sem sexo, já pensou?



Conversei rapidamente com outros sujeitos - inclusive com o vendedor de cachorro quente que aproveitou da aglomeração para aumentar suas vendas - e todos tinham mais ou menos o mesmo discurso: esta suposta lei, que ninguém sabia dizer qual era ou do que se tratava exatamente, daria à criança a liberdade para escolher qual sexo ou gênero ela gostaria de pertencer. Isto significa para estas pessoas duas coisas: que isto poderia transformar o gênero e a sexualidade das crianças tornando-as mais propensas à transexualidade e à homossexualidade e que se trata de uma intromissão na educação familiar. Um sujeito chegou a me dizer que se essa lei for aprovada "os pais não vão ter mais o direito de educar sexualmente os filhos", seja lá o que isso signifique. Parece que simplesmente não passa pela cabeça dessas pessoas o entendimento de que a inclusão das temáticas de gênero e sexualidade na escola poderia contribuir para uma formação mais humana e respeitosa com a diversidade que busque reduzir os estereótipos, as desigualdades e as violências de gênero e também as opressões sofridas cotidianamente por gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis. Não, claro que não! Para os críticos desta tal "ideologia de gênero", os objetivos de se incluir estas temáticas na escola são certamente malignos, pois envolveriam a extinção das demarcações "naturais" de sexo/gênero e a criação de crianças homossexuais e amorais. 

Eu juro que eu tento entender o ponto de vista destas pessoas e exercitar a empatia que eu tanto defendo. Eu compreendo - embora não concorde - que elas tenham medo de que seus filhos tenham uma sexualidade "diferente" da "normal". Essas pessoas provavelmente foram criadas em ambientes dominados pela ideologia (sim, ideologia) cristã nos quais a homossexualidade e a transexualidade são vistas como pecados ou abominações. Eu sei. Mas não consigo deixar de pensar na enorme ignorância que elas trazem consigo. Os sujeitos com quem eu conversei - e eu acredito que são representativos dos críticos da tal "ideologia de gênero" - não parecem fazer ideia do que é uma ideologia. Pior: não fazem ideia (ou preferem ignorar o fato) de que o que eles pensam e defendem é também uma ideologia - e é exatamente por isso que não faz qualquer sentido, falar em uma escola e uma educação sem ideologia, como alguns projetos tem defendido por aí. Estas pessoas também não fazem ideia do que é o tal "gênero" que eles tanto combatem. Tanto que utilizam as expressões gênero, sexo e sexualidade como sinônimos, ignorando as fundamentais diferenças entre identidade de gênero e orientação sexual e entre sexo e gênero - aliás, esta última diferença está na base da construção do termo "gênero", concebido em contraponto à "sexo" na medida em que problematiza a ideia de que a biologia determinaria totalmente o comportamento dos indivíduos. Eles não percebem também - ou não querem perceber - que as pessoas homossexuais e transexuais, geralmente foram concebidas e criadas por pais heterossexuais e cisgêneros (outro termo que certamente desconhecem ou não aceitam) e provavelmente tiveram educações tradicionais, comumente cristãs, em casa e na escola - alguns, inclusive, foram educados de forma profundamente repressiva. Mas nada disso foi suficiente para impedi-los de ser quem são.  

Essa ideia de que discutir determinados assuntos na escola vai contaminar as crianças tornando-as mais propensas à homossexualidade ou à transexualidade, não faz o menor sentido - este video do Porta dos fundos ironiza justamente essa ideia. Da mesma forma como não faz sentido a visão contrária, defendida por estas pessoas, de que retirando-se estas temáticas "perniciosas" da educação, os pais poderão educar os filhos como bem entenderem e, com isto, as crianças estarão, finalmente, estabelecidas em seu gênero "natural" e "protegidas" da possibilidade de se tornarem homossexuais ou transexuais. A visão de tais pessoas só reforça para mim a necessidade de se inserir discussões sobre gênero e sexualidade na educação básica - e também na educação superior! Se a educação pretende preparar a pessoa para o mundo e para a vida em comum nada mais sensato do que trazer para a escola discussões fundamentais como estas. Ademais, mesmo que tais questões não sejam inseridas no contexto escolar, ainda sim os sujeitos estarão expostos à elas, seja na vida "real" ou na vida "virtual", e inevitavelmente se envolverão em discussões e reflexões em algum momento, quer se queira ou não.

Em 2015, após as conversas que tive na frente da Câmara Municipal, voltei para casa e, ainda tentando compreender o que é a tal "ideologia de gênero", fui pesquisar na internet e acabei caindo no artigo "Nova ameaça da ideologia de gênero", escrito pelo arcebispo Orani João e publicado no Jornal do Brasil. Pois bem, o artigo começa reproduzindo uma definição proposta por um médico chileno: “A ideologia de gênero é uma tentativa de afirmar para todas as pessoas que não existe uma identidade biológica em relação à sexualidade. Quer dizer que o sujeito, quando nasce, não é homem nem mulher, não possui um sexo masculino ou feminino definido, pois, segundo os ideólogos do gênero, isto é uma construção social”. O que eu acho bastante curioso é a defesa incisiva da visão biológica dos gêneros e da sexualidade. Sim, a mesma igreja que rechaça argumentos biológicos quando lhe convém em outros momentos os utiliza com veemência. Trata-se, como ouvi certa vez, de um secularismo estratégico, ou seja, da utilização do discurso científico para legitimar o que, na realidade, no fundo, é um discurso religioso. Isto não é problemático em si, mas se torna na medida em que em um estado que se propõe laico, nenhuma visão religiosa específica pode direcionar as políticas - e isso vem acontecendo mais frequentemente do que seria aceitável.

Em outro artigo, publicado no Diário do Sertão, o autor, Damião Fernandes, é mais explícito com relação à sua visão da ideologia de gênero. Para ele, "a Ideologia de Gênero é diabólica, visto que pisoteia em uma das principais e fundamentais bases do Cristianismo, onde de acordo com as narrativas bíblicas da criação, a essência da criatura humana é de ter sido criada com uma dualidade: Homem e Mulher". Agora, pelo menos, o autor foi claro e não ficou se utilizando de um discurso pretensamente científico para legitimar sua visão. De toda forma, o cerne da questão parece estar no medo de uma relativização da "sexualidade humana". Para estas pessoas, existem homens e existem mulheres. E pessoas que nasceram homens ou mulheres e possuem, portanto, pênis ou vagina, serão para sempre homens e mulheres. E a heterossexualidade é a norma e o normal. E ponto final. Mas como explicar, por exemplo, a existência dos/das transexuais, nos quais não há uma coincidência entre o gênero que a pessoa se identifica no presente e o gênero que a identificaram ao nascer? Gostaria sinceramente de entender como estas pessoas explicam a transexualidade. Porque se o gênero é algo definido geneticamente, como explicar a existência dos/das transexuais? E dos intersexuais? Será que são "falhas de deus"? Mas deus não é onipotente?  Até o momento não encontrei nenhuma resposta minimamente sensata. Afinal, dizer que algo é errado ou pecaminoso não explica sua gênese.
 
Finalmente eu não poderia deixar de mencionar a "psicóloga" missionária cristã Marisa Lobo, para quem "Ideologia de gênero" "é um conjunto de ideias que quer impor a toda a ciência, a toda à história da humanidade, a todo o senso crítico, que descarta a biologia, a genética, que descarta todos os pensamentos e se atenta apenas no conhecimento sociológico de uma militância, é o que estão querendo impor nas escolas do país e não podemos deixar isso acontecer”. Marisa acabou de lançar um livro denominado "Ideologia de gênero na educação: Como esta doutrinação está sendo introduzida nas escolas e o que pode ser feito para proteger a criança e os pais", onde "desenvolve" tais ideias, baseadas essencialmente em uma visão, por assim dizer, biológico-cristã do gênero e da sexualidade. Para ela, a relativização/desconstrução das categorias binárias (homem/mulher, heterosexual/homossexual) promovidas por abordagens "construtivistas" como a Teoria Queer poderão levar a uma relativização absoluta em que nada mais fará sentido, inclusive as noções "cristãs" de normalidade. A abolição de tais categorias, biologicamente inatas, levaria, como afirma constantemente, à desconstrução da família, ou melhor, da família tradicional (pai, mãe, filhos) e também, mais profundamente, à destruição da própria humanidade. E é justamente para evitar tal "tragédia" que Marisa e seus colaboradores (só gente boa, como o pastor Marcos Feliciano e o deputado Jair Bolsonaro) se envolvem em uma verdadeira cruzada contra esta diabólica "ideologia de gênero".

O que eu acho mais curioso nesta história toda é que as mesmas pessoas que afirmam que o gênero é algo biológico e não uma construção social, afirmam ser a orientação sexual uma construção social e não algo biológico - e é exatamente esta visão que abre espaço para terapias e ações de "cura" das homossexualidades. Então quer dizer que o gênero é algo inato e, portanto, impossível de mudar e a orientação sexual, pelo contrário, é algo construído e passível de modificação? O que estas pessoas não conseguem ver, na minha opinião, é que nós não somos nem só biologia nem só cultura. Nós somos formados num caldo de biologia e cultura no qual não é nada simples diferenciar o que é "inato" do que é "construído". Perspectivas científicas contemporâneas, como a epigenética e a noção de neuroplasticidade, bagunçam e colocam no chão, ainda mais, as visões deterministas - sejam elas biológicas ou sociais. Se, como tem demonstrado o campo da epigenética, a expressão dos genes pode ser influenciada, em alguns casos, por nossos comportamentos e pelo ambiente e se nosso cérebro se modifica em nossa interação com o mundo (a noção de neuroplasticidade, tão em voga atualmente, aponta nesta direção), então não faz o menor sentido dizer nem que o gênero e a orientação são inatos nem que são construídos. Eles são, por assim dizer, inatos e construídos. Herdamos características de nosso DNA mas também somos profundamente influenciados, e efetivamente construídos, pelo mundo físico e cultural. Isto não significa que não existam homens ou mulheres, mas que esta polaridade não dá conta de todos os casos e também que é possível não se conformar ao gênero atribuído ao nascimento. Quer queiram os críticos da "ideologia de gênero" ou não, existem - e continuarão existindo - homens com vagina e mulheres com pênis. Feliz ou infelizmente não é o órgão sexual que definirá a identidade de gênero da pessoa. E também continuarão existindo gays, lésbicas, bissexuais, assexuais, pansexuais e tudo o mais. Estes defensores da moral e dos bons costumes podem espernear, podem conseguir retirar todas as menções à gênero e sexualidade dos Planos Municipais de Educação, podem até criar as leis mais retrógradas possíveis, mas a realidade é que eles nunca conseguirão impedir as pessoas de serem quem elas são - ou quem elas quiserem ser. Aceitem que dói menos, queridos.


Indicação: uma ótima dica para se iniciar em discussões sérias e necessárias sobre gênero e sexualidade na educação para além desta visão catastrófica disseminada pelos críticos da tal "ideologia de gênero" é o livro "Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola", escrito conjuntamente pelos cientistas sociais Beatriz Accioly Lins, Bernardo Machado e Michele Escoura e publicado este ano pela editora Reviravolta. Neste livro você encontrará as principais discussões e conceitos relativos às temáticas do gênero e da sexualidade apresentadas de uma forma bastante didádica e acessível. Ao final da obra constam ainda um glossário e uma série de indicações de ações práticas para se debater tais questões em sala de aula.
Comentários
2 Comentários

2 comentários:

Michel Aquino disse...

Sua abordagem sobre a Identidade de Gênero é interessante, mas ao mesmo tempo, delicada. Gostaria de saber, se há nos países de primeiro mundo essa mesma discussão levantada pós defensores da ideologia e qual é a posição dos seus cidadãos em relação ao assunto.

Unknown disse...

Excelente!!!!!!