quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Quando os 'estranhos' batem à nossa porta: reflexões sobre a crise dos refugiados

A situação dos refugiados é uma das principais, senão a principal, crise humanitária do mundo atualmente. Todos os dias milhares de pessoas são forçadas a sair às pressas de seu país devido à conflitos armados e/ou perseguições e buscarem abrigo em outras nações. Inúmeros países, muitos à contragosto, tem recebido estas pessoas. O Brasil, por exemplo, acolheu até o final de 2016 cerca de 9552 refugiados de diversos países - em especial da Síria, do Congo, do Paquistão, da Palestina, da Angola e, de forma crescente, da Venezuela. No entanto, ao mesmo tempo em que diversas nações, grupos e indivíduos tem se esforçado para receber, acolher e integrar estas pessoas, tem se multiplicado pelo mundo discursos xenofóbicos de ódio que tem como principal mote a ideia de que estas pessoas são invasoras que trazem a desordem e roubam os empregos. No início deste mês, por exemplo, o refugiado sírio Mohamed Ali, que vive e trabalha no Rio de Janeiro há 3 anos, foi hostilizado na rua por um homem que gritou repetidas vezes "Sai do meu país!", afirmando ainda: "O nosso país está sendo invadido por esses homens bombas, que matam crianças". Não gosto de pensar que se trata simplesmente de uma atitude irracional, haja vista que existe alguma racionalidade (diferente da minha, por exemplo) por trás de um ato preconceituoso como esse - ademais, a ideia de irracionalidade é há tanto tempo utilizada como categoria acusatória por pessoas de todos os lados de todos os conflitos e controvérsias, que  acabou por perder a sua força ("Você é irracional!" acusa a pessoal supostamente racional. "Não, você é que é irracional", rebate outra pessoa supostamente racional em uma troca infinita de acusações). Enfim, ao invés de considerar atitudes xenofóbicas e ofensivas como a descrita acima simplesmente como comportamentos irracionais prefiro encará-las como comportamentos preconceituosos baseados em estereótipos, isto é, em visões preconcebidas e generalizantes sobre determinadas pessoas e grupos. De forma mais profunda é possível enxergar em tais atitudes um enorme medo daquilo e daqueles que vem de fora e daquilo que é estranho ou diferente - a ideia de xenofobia aponta justamente nesta direção.

Em sua última obra publicada em vida, Estranhos à nossa porta, o eminente sociólogo polonês Zygmunt Bauman trata justamente desta questão. Segundo o autor,  os refugiados incomodam muitas pessoas exatamente porque trazem as marcas da diferença, seja na língua que falam, na roupa que vestem, na religião que professam e na forma como se comportam. Eles são os tais "estranhos" que batem à nossa porta. Como afirma Bauman, "refugiados da bestialidade das guerras, dos despotismos e da brutalidade de uma existência vazia e sem perspectivas têm batido à porta de outras pessoas desde o início dos tempos modernos. Para quem está por trás dessas portas, eles sempre foram – como o são agora – estranhos. Estranhos tendem a causar ansiedade por serem 'diferentes' – e, assim, assustadoramente imprevisíveis, ao contrário das pessoas com as quais interagimos todos os dias e das quais acreditamos saber o que esperar". Segundo o sociólogo, os refugiados são um "lembrete" permanente para as pessoas que estão detrás das portas, especialmente para aquelas das classes médias e altas, de  que todos estamos à mercê de forças que não controlamos e de que a vida confortável que levam pode ser perdida num piscar de olhos. Como afirma Bauman, "estes nômades - não por escolha, mas por veredicto de um destino cruel - nos lembram de modo irritante, exasperante e aterrador, a (incurável?) vulnerabilidade de nossa própria posição e a endêmica fragilidade de nosso bem-estar arduamente conquistado". O medo, enfim, é que estes estranhos, vindos de lugares exóticos e caóticos, tragam consigo o "vírus do caos e da desordem" que poderá eliminar ou desfigurar o confortável modo de vida que muitas pessoas vivem, especialmente nos países desenvolvidos.  

Diante destes 'estranhos', todos nós, enquanto pessoas e enquanto nações, temos basicamente duas alternativas iniciais: ou mantemos a porta fechada ou a abrimos e permitimos que entrem. A primeira alternativa, chamada por Bauman de "política da separação" é aquela na qual decidimos manter distância destes estranhos, seja através da negação de vistos ou da construção de muros - o presidente Trump é, talvez, o maior representante desta forma de política, que se manifesta não somente no impedimento de entrada mas também, e especialmente, na segregação e marginalização daqueles que já entraram. Para Bauman, a construção de muros ao invés de pontes, é a pior escolha possível, especialmente porque tal política acaba por gerar aquilo que ela pretende evitar. Como afirma o sociólogo, "enganosamente reconfortantes a curto prazo (por colocarem o desafio fora de vista), essas políticas suicidas armazenam explosivos para uma detonação futura". Isto porque ao segregarem os refugiados - e os imigrantes de uma forma geral - tais políticas acabam por reforçar uma já disseminada distinção entre "nós" e "eles" e, com isso, gerar um sentimento de ódio "deles" contra "nós" que certamente contribui para que alguns se aproximem de determinados grupos extremistas. Mas qual a solução, então? Para Bauman, a única alternativa viável é a solidariedade. Parece algo banal de se dizer, mas eu não teria como discordar de Bauman: a única saída possível para a situação dos refugiados e dos imigrantes  é estendermos os braços para eles e dizermos "Sejam bem vindos. Fiquem à vontade. Mi casa, su casa". Somente se (e quando) compreendermos que não existem "nós" e "eles" mas sim um gigantesco e planetário "nós", e também quando aprendermos a substituir hostilidade por hospitalidade, é que a situação começará a melhorar. Como bem afirma Bauman, "a humanidade está em crise - e não existe outra saída para ela senão a solidariedade dos seres humanos".

Certamente não se trata de uma saída fácil, mas um primeiro passo, como eu tenho insistido neste blog, é ter ou desenvolver empatia por estas pessoas. Isto pode ser construído de diversas maneiras e eu destacaria especialmente a conversa e a convivência com refugiados como formas ímpares de se aproximar e entender suas histórias e pontos de vista. Pessoas que atuam como voluntárias em organizações de apoio e recepção aos refugiados certamente desenvolvem grande empatia pelos indivíduos que ajudam a acolher. No entanto, esta é uma possibilidade distante para muitas pessoas. Uma saída, neste caso, é assistir a documentários como o impactante Fogo no mar, reportagens como esta do magnífico programa Que mundo é esse?, ou então ler livros como Eu venho de Alepo: itinerário de um refugiado, recém-lançado no Brasil pela editora Vestígio. Nesta obra, o refugiado sírio Joude Jassouma conta sua história, desde sua infância e juventude na histórica cidade síria de Alepo, onde chegou a se graduar em Literatura Francesa e trabalhar como professor; o início da guerra que destruiu sua cidade e seu país e o obrigou a se mudar às pressas diversas vezes com a família, deixando tudo para trás; a perigosa fuga feita em um bote para a Grécia e, finalmente, sua instalação na pequena e acolhedora cidade de Martigné-Ferchaud na França. Nesta dolorosa e, curiosamente, esperançosa narrativa, Joude nos permite compreender os motivos e circunstâncias que o forçaram a fugir de seu país, a dor e a angústia que sentiu ao ter de abandonar sua casa e todas as suas coisas em meio a tiroteios e bombas caindo, o medo que sentiu ao atravessar o mar Egeu à bordo de um bote junto de sua mulher e filha de 3 meses e, finalmente, a felicidade que sentiu ao ser acolhido pela França e pelos franceses. Especialmente nesta última etapa da narrativa de Joude, pude perceber claramente que a solidariedade defendida por Bauman é de fato concretizada em muitos lugares e por muitas pessoas. Assim que chegou na França, Joude e sua família foram carinhosamente acolhidos por voluntários de instituições filantrópicas, sendo posteriormente conduzidos a uma pequena cidade na região da Bretanha, onde foram calorosamente recebidos e integrados pelos moradores. Como afirma em certo momento, "desde que estamos aqui, nunca nos sentimos rejeitados nem julgados. Ninguém olha para nós desconfiado ou faz comentário inoportunos. E os moradores de Martigné sempre nos cumprimentam quando passamos". Enfim, a situação dos refugiados é ainda muito grave, a adesão a políticas e políticos contrários ao acolhimento destas pessoas tem crescido, mas bons exemplos tem se multiplicado pelo mundo, o que nos permite vislumbrar ao menos uma centelha de esperança. 

Update 16/08/2017: um outro exemplo bastante interessante de solidariedade foi a reação de muitos cariocas à agressão sofrida pelo refugiado sírio Mohamed Ali narrada no início deste post. Após o video da agressão ser amplamente divulgado nas redes sociais, um empresário carioca organizou pelo Facebook um "Esfirraço" com o objetivo de reunir pessoas para comprar as esfirras vendidas pelo sírio em sua barraquinha em Copacabana. No dia marcado, mais de 3 mil esfirras foram vendidas e muitas pessoas passaram pelo local para dar um abraço e demonstrar solidariedade com ele. Mohamed ficou extremamente contente com toda esta repercussão e afirmou ser "a pessoa mais feliz do mundo". Sobre este episódio, a professora Vanessa Souza afirmou para o jornal O Globo: "estamos vivendo um movimento mundial de muita intolerância. E essa iniciativa mostra que a força das pessoas que não concordam com isso é muito grande". Impossível discordar dela! Aliás, quer uma prova bastante concreta deste "movimento de intolerância" citado por ela? A poucos quilômetros da barraquinha do Mohamed, no Arpoador, um pequeno protesto contra os muçulmanos foi organizado por um grupo de cerca de 20 evangélicos ligados à Igreja Pentecostal Geração Jesus Cristo, que seguravam cartazes com dizeres como "Alcorão: guia de estupros e assassinatos" e "Muçulmanos: assassinos, sequestradores, estupradores". Felizmente, o apoio a este protesto foi muito menor que aquele demonstrado à Mohamed. A tolerância e o respeito, pelo menos neste caso, venceram!

A tolerância - Mohamed e apoiadores durante o Esfirraço
A intolerância - Protesto contra muçulmanos

terça-feira, 1 de agosto de 2017

3 best-sellers para exercitar a empatia


Preâmbulo - Eric Arthur Blair queria se tornar escritor, mas não sabia bem por onde começar. Nascido na Índia em 1903,  Eric se mudou para uma pequena cidade na Inglaterra quanto tinha pouco mais de um ano. Sua família era, segundo sua própria descrição, de "classe média-alta inferior". Quando tinha cerca de 20 e poucos anos, após uma temporada em Burma (atual Myanmar), onde trabalhou em um posto na Polícia Imperial Indiana, decidiu retornar à Inglaterra e colocar em prática o seu desejo de escrever. Mas sobre o que escrever? Inspirado em Jack London, um autor que gostava muito, e também em certas ideias socialistas que lhe instigavam, Eric resolveu explorar a periferia de Londres. Mas ele não queria simplesmente observar, mas efetivamente se colocar no lugar de alguém que não possuia quaisquer bens materiais. Eric queria sentir na pele como era ser pobre em Londres na década de 1920. E para tanto viveu, por algum tempo, como um mendigo, perambulando pelas ruas miseráveis da cidade. O relato deste período se transformou em seu primeiro ensaio, intitulado "The strike". Em seguida, Eric se mudou para Paris, onde se hospedou em um alojamento vagabundo e chegou a trabalhar, por um tempo, como lavador de pratos em um hotel. Neste período, em que chegou a passar fome em diversas ocasiões, pôde vivenciar e efetivamente sentir como é ser pobre. Eric escreveu, então, um relato pormenorizado destas duas experiências, que resultaram na obra Na pior em Paris e Londres - seu primeiro livro, publicado em 1933. E foi para a publicação desta obra que decidiu adotar o pseudônimo que o tornaria célebre: George Orwell. Posteriormente à publicação desta obra, Blair lançou muitas outras, dentre as quais duas que lhe conduziram ao panteão dos grandes escritores: 1984 e Revolução dos bichos. Mas não seria equivocado dizer que a "imersão empática" empreendida pelo jovem Eric na vida dos pobres cimentou a visão social crítica que o maduro Orwell consagraria em sua obra vindoura. 

Posteriormente, outros escritores recorreram a esta estratégia de "imersão" para tentar compreender como se sentem e vivem determinados indivíduos e grupos sociais. Quase setenta anos após a experiência de Orwell, a jornalista Barbara Ehrenreich (que já apresentei em outro post) decidiu sentir na pele como é ser pobre nos Estados Unidos. Para tanto, trabalhou por um longo período em uma série de subempregos (como garçonete, faxineira e atendente em um asilo) e tentou se "virar nos 30" com os baixíssimos salários. O resultado é o maravilhoso livro Miséria à americana, lançado em 2001 e já publicado no Brasil Outro exemplo interessante de jornalismo de imersão é o livro Cabeça de Turco, escrito pelo jornalista alemão Günter Wallraff. Nesta obra, o autor relata a dolorosa experiência de viver e trabalhar por dois anos em empregos precários como se fosse um imigrante turco na Alemanha. O livro, lançado em 1985, foi um escândalo na época por escancarar o preconceito e a marginalização a que estavam sujeitos os imigrantes no país. Muitos outros exemplos poderiam ser citados de experiências de imersão, no entanto gostaria de trazer uma reflexão sobre esta maneira de se "exercitar" a empatia. Ainda que se constitua como uma forma profunda de "sentir na pele", trata-se de um método extremamente complicado de se colocar em prática - tanto por exigir um grande investimento pessoal de tempo e energia quanto por demandar grande coragem. No entanto, existem outras formas mais simples de se exercitar a empatia: ler livros, ver filmes, viajar, conversar, etc. E é tendo isto em vista que gostaria de indicar 3 livros, dentre os mais vendidos atualmente no Brasil, que podem contribuir para uma ampliação da capacidade de empatia de seus leitores. Certamente, como já disse anteriormente, não é possível se colocar de fato na pele e na perpectiva de outra pessoa, mas é possível imaginar como ela se sente. E este processo de imaginação pode ser decisivo para a construção de uma compreensão profunda a respeito de como vivem e quais dificuldades enfrentam determinadas pessoas e grupos diferentes de nós. Os três livros indicados e brevemente analisados abaixo podem contribuir fortemente para isso. #ficaadica

1- Na minha pele - Editora Objetiva, 2017.

Neste livro de ensaios autobiográfico, o ator, diretor e produtor Lázaro Ramos reflete sobre os inúmeros desafios de ser negro - e de ser um ator negro - no Brasil. Sua história começa na pequena Ilha do Paty, na Bahia, onde Lázaro nasceu e viveu até a adolescência e segue até o presente. Neste percurso, o ator consagrado e agora escritor iniciante, faz um esforço narrativo - extremamente bem-sucedido, na minha visão - para que nos coloquemos momentaneamente "em sua pele". A ideia é que possamos compreender, especialmente aqueles que não são negros, o persistente, inegável e lastimável racismo existente no Brasil. Para tanto, Lázaro nos conta inúmeras histórias de sua própria vida e também da vida de companheiros e companheiras de luta que expõem a ilusão do mito da democracia racial no país - ainda defendido por algumas pessoas. Mas para além de histórias, Lázaro traz uma série de importantes reflexões sobre a contrução da identidade e da militância negra, sobre a inserção dos negros no mercado de trabalho (e também na publicidade, nas novelas e filmes), sobre os desafios da ascensão social e da criação de filhos negros, dentre muitas outras questões. Mas não se engane pensando que se trata de um livro voltado somente para pessoas negras. De forma alguma, afinal, a luta contra o racismo e a favor do respeito e da inclusão é (ou deveria ser) uma luta de todos. Como bem afirma o rapper Emicida, em uma frase escolhida por Lázaro como epígrafe de seu livro, "todos nós somos educados de uma maneira muito torta acerca do outro. O que a gente pode fazer é admitir que estamos em obras e ir corrigindo isso".

Trecho do livro: "Existe todo um discurso de que não há racismo no Brasil. Afinal, nós fazemos parte de um povo pra lá de miscigenado. Mas quem é negro como eu sabe que a cor é motivo de discriminação diária, sim. Um bom exemplo é a blitz de ônibus. Em determinada época, elas eram bastante frequentes em Salvador. O curioso é que só descia negão do ônibus. O cara branco era chamado de cidadão e eu virava menininho, garoto, moleque. Ou vocês nunca repararam na cor da pele de quem é 'menor' e de quem é 'criança' nos textos da imprensa, no vocabulário popular ou mesmo em pronunciamentos de autoridades?"

2 - Outras formas de usar a boca - Editora Planeta, 2017. 

Neste interessante livro de poesias, que atualmente é a obra de "ficção" mais vendida no Brasil (embora não seja propriamente ficção), a poetiza, escritora  e ilustradora indiana radicada no Canadá Rupi Kaur traz uma série de pequenas poesias que retratam situações vivenciadas cotidianamente por mulheres de todo o mundo - o sucesso estonteante do livro, talvez o maior sucesso da poesia nesta década, certamente se deveu à grande idenficação que ele gerou em mulheres dos mais diversos países. Originalmente denominado Milk and honey (Leite e mel), Outras formas de usar a boca é, como está dito na contracapa, "um livro de poemas sobre a sobrevivência, sobre o amor, o sexo, o abuso, a perda, o trauma, a cura e a feminilidade". Ao longo de suas 200 páginas, Kaur, que também é responsável por todas as ilustrações do livro, fala sobre as dificuldades vivenciadas pelo fato de ser mulher, sobre a complexa relação com a família, sobre as dores e delícias das relações amorosas, sobre términos e recomeços. Dividido em quatro partes (a dor, o amor, a ruptura e a cura), Outras formas traz à tona, especialmente na primeira parte, muitos dos abusos, violências e opressões que as mulheres sofrem todos os dias em praticamente todos os lugares. E com isto a autora permite não só a identificação das mulheres com as situações e pensamentos retratados, mas também a possibilidade de que os homens pensem, repensem e desconstruam o próprio machismo.

Trecho do livro: 

"Sexo exige o consentimento dos dois
se uma pessoa está ali deitada sem fazer nada
porque não está pronta
ou não está no clima
ou simplesmente não quer
e mesmo assim a outra está fazendo sexo
com seu corpo isso não é amor
isso é estupro"

3- Prisioneiras - Companhia das Letras, 2017

Escrito pelo famoso médico Dráuzio Varella, este é o último volume de uma fantástica trilogia literária sobre o sistema carcerário brasileiro, que teve início com os livros Estação Carandiru (1999) e Carcereiros (2012) - ambos foram adaptados para a televisão e o primeiro também para o cinema. Nesta nova empreitada, Dráuzio traz uma série de histórias e reflexões sobre o período de mais de uma década em que trabalhou como médico voluntário na Penitenciária Feminina da Capital, em São Paulo, onde vivem (ou sobrevivem) mais de duas mil mulheres. A ideia do autor, neste e nos livros anteriores da trilogia, é dar voz àqueles e àquelas a quem lhes é negada a voz. No caso de Prisioneiras, Dráuzio traz à tona, com sua sensibilidade habitual, as dolorosas histórias de vida das mulheres invisíveis que vivem na penitenciária. São mulheres em geral pobres e negras, muitas vezes vítimas de violência doméstica e abusos de todo tipo e que, após serem presas, majoritariamente por tráfico de drogas, são abandonadas e esquecidas por todos - o que não acontece com os homens, prova mais do que concreta de que o machismo está de fato presente em todos os lugares. Entregues à própria sorte, acabam por buscar algum conforto e alicerce nas relações com as outras prisioneiras. Assim como a maravilhosa série Orange is the new black (que embora se passe em um outro contexto apresenta muitos pontos em comum com a realidade brasileira), Prisioneiras cumpre plenamente a missão de humanizar essas tão desumanizadas mulheres, nos permitindo adentrar em suas perspectivas e, com isso compreender que suas vidas não se resumem a um artigo do Código Penal. Se a maioria das pessoas conseguisse sentir empatia por estas mulheres, ao invés de simplesmente taxá-las de bandidas e ignorá-las, o mundo seria um lugar muito melhor para se viver.

Trecho do livro: "De todos os tormentos do cárcere, o abandono é o que mais aflige as detentas. Cumprem suas penas esquecidas pelos familiares, amigos, maridos, namorados e até pelos filhos. A sociedade é capaz de encarar com alguma complacência a prisão de um parente homem, mas a da mulher envergonha a família inteira. Enquanto estiver preso, o homem contará com a visita de uma mulher, seja a mãe, esposa, namorada, prima ou a vizinha, esteja ele num presídio de São Paulo ou a centenas de quilômetros. A mulher é esquecida".

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Trans-formações: uma resenha do livro "Vidas trans"

A temática da transexualidade ou da transgeneridade tem recebido grande destaque nos meios de comunicação e também no mundo acadêmico. Só na rede Globo, por exemplo, o tema está sendo tratado na novela A força do querer, que possui um personagem transhomem, e foi retratado no início deste ano na série documental Quem sou eu? do programa Fantástico - o canal GNT, ligado à Globosat, também possui um programa especialmente dedicado ao tema, o Liberdade de gênero. Já no meio acadêmico, é possível observar que nunca tantas pesquisas, artigos, dissertações e teses foram feitas sobre o tema. Certamente isto tem um lado positivo: trazer à tona esta temática pode fazer com que gradualmente as pessoas trans, ainda fortemente invisibilizadas, marginalizadas e alvo de grande violência, sejam reconhecidas e respeitadas pela sociedade. No entanto, esta visibilidade possui um lado negativo: em grande parte das vezes as pessoas trans são meros "objetos" e não "sujeitos" da própria narrativa. Tais pessoas em geral são "personagens" e não "protagonistas" dos programas de TV e das pesquisas acadêmicas. Quase sempre os/as diretores/as e roteiristas de tais programas, os atores/atrizes que interpretam personagens trans e ainda os/as pesquisadores/as que estudam o "fenômeno trans" são pessoas cis, isto é, pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi atribuído ao nascimento. No caso da novela, por exemplo, quem interpreta o personagem trans é uma atriz cis, o mesmo ocorrendo em quase todas as novelas, filmes e séries que retratam pessoas trans - duas honrosas exceções ficam por conta das séries Orange is the new black, que possui uma personagem trans interpretada pela atriz Laverne Cox, e Sense8, dirigida pelas irmãs trans Lilly e Lana Wachowski e que possui em seu elenco a talentosa atriz Jamie Clayton, também trans. 

Tendo isto em vista, é com grande satisfação que me deparei com o livro "Vidas trans: a coragem de existir", recém-lançado pela editora Astral Cultural e escrito 100% por pessoas trans. Prefaciado pela famosa cartunista Laerte Coutinho (que foi recentemente retratada no documentário Laerte-se, disponível no Netflix) e também pela psicóloga, pesquisadora e blogueira Jaqueline Gomes de Jesus, autora dos livros Transfeminismo: teorias e práticas (2014) e Homofobia: identificar e prevenir (2015), "Vidas trans" traz quatro narrativas em primeira pessoa escritas por célebres pessoas trans brasileiras: 1) a travesti Amara Moira, que é doutoranda em teoria literária pela Unicamp, autora do livro E se eu fosse puta (2016) e colunista da Mídia Ninja em assuntos que envolvem gênero e direitos dos LGBTs e das profissionais do sexo; 2) o transhomem João W. Nery, que é psicólogo, autor da magnífica autobiografia Viagem solitária: memórias de um transexual 30 anos depois (2011) e o primeiro homem trans a ser operado no Brasil - em 1977, em plena ditadura militar (além disso João Nery dá nome ao Projeto de Lei de Identidade de Gênero, proposto pelos deputados federais Jean Wyllys e Érica Kokay e ainda em tramitação no Congresso Nacional); 3) a travesti Márcia Rocha, que é empresária, advogada integrante da Comissão de Diversidade Sexual da OAB, representante do Brasil no Comitê de Direitos Sexuais da World Association for Sexual Health (WAS) e uma das idealizadoras da Associação Brasileira de Transgêneros (Abrat) e do projeto Transempregos (além disso Márcia Rocha foi a primeira advogada travesti a ter registrado o nome social na carteira da OAB) e 4) o transhomem T. Brant (antes Tereza Brant e agora Tarso Brant), que é ator e modelo, serviu de inspiração para o personagem trans de A força do querer e agora compõe o elenco da novela (além disso, Tarso Brant é também youtuber, sendo responsável pelo canal/blog Ela ou ele)  

Amara Moira, João W. Nery e T. Brant
No livro, cada uma destas pessoas conta a sua própria história. São narrativas de dor, mas também de crescimento e superação e que expõem muitas das dificuldades vivenciadas pelas pessoas trans no Brasil. Estas histórias, embora tenham elementos bastante peculiares, trazem alguns pontos em comum: a  falta de identificação, desde criança, com o gênero atribuído ao nascimento e, pelo contrário, uma grande identificação com as vestimentas, características e pessoas do outro gênero; grande dificuldade para "sair do armário" e agir publicamente conforme o gênero que se identifica (no livro, há vários relatos de "vida dupla", na qual em público a pessoa atuava, literalmente atuava, de acordo com o gênero "estabelecido" e somente na vida privada agia livremente segundo o gênero "sentido"); dificuldades relacionadas à rejeição da família, dos amigos e da sociedade em geral; a importância da internet e das redes sociais para a descoberta e interação com outras pessoas trans; a insatisfação com o próprio corpo, o processo de hormonização, as cirurgias, etc. Os relatos também tocam em uma série de entraves bastante comuns à população trans, como a dificuldade em alterar legalmente o nome civil, que gera inúmeros constrangimentos e violências cotidianas, a dificuldade em conseguir emprego, que leva muitas pessoas trans, especialmente as mulheres, à prostituição (o projeto Transempregos atua justamente nesta questão), e, finalmente, dificuldades relacionadas ao processo de transformação corporal. Enfim, as tocantes narrativas presentes neste livro nos permitem adentrar momentaneamente na vida destes indivíduos e compreender os seus pontos de vista, suas dores e suas alegrias. E com isso podemos exercitar nossa empatia e entender ou relembrar que existem inúmeras formas de viver o gênero (e a sexualidade) para além daquelas que a sociedade julga "normal".

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Entre o medo do Alzheimer e as práticas de neuroaprimoramento

Como já apontei anteriormente, tem se disseminado pelo Brasil e pelo mundo produtos e serviços voltados para o aprimoramento cognitivo - também chamado de aprimoramento cerebral ou neuroaprimoramento. Diversas "academias cerebrais" tem se espalhado pelo país (caso, por exemplo, das empresas Supera e Ginástica do cérebro) assim como inúmeros produtos de "neurofitness" ou "neuróbica", inclusive remédios e suplementos. Em comum, todas ou quase todas estas iniciativas tem como foco primordial o desenvolvimento intelectual da criança e do jovem assim como a prevenção do "declínio cognitivo" na terceira idade. Especialmente neste último caso, a ideia, bastante questionada no campo científico, é que os neuroexercícios e neuroprodutos agiriam para impedir ou, ao menos, minimizar as possibilidades da pessoa desenvolver doenças cerebrais sérias e debilitantes como o Alzheimer e outras demências, cada vez mais comuns na população idosa. De certa forma - e isto é ao mesmo tempo tão óbvio e tão surpreendente - todo este espectro de neuropráticas está ancorado no enorme medo que grande parte das pessoas sente de desenvolver doenças como Alzheimer. 

Diversos estudos tem comprovado este medo e até mesmo uma escala foi desenvolvida para avaliá-lo, a Escala de Medo da Doença de Alzheimer (em inglês Fear of Alzheimer's Disease Scale - FADS). Uma pesquisa publicada em 2012, por exemplo, examinou um grupo de franceses e constatou que 60% deles possuía grande medo de desenvolver a doença. Esta atitude, de acordo com o estudo, esteve fortemente relacionada à idade, tornando-se predominante entre os idosos. No grupo de meia-idade, o medo era maior em mulheres "com pouca auto-percepção de saúde" e, em particular, naquelas que cuidavam ou já cuidaram de alguém com a doença - e cabe apontar que o cuidado da pessoa com Alzheimer, assim como toda forma de cuidado, frequentemente recai sobre as mulheres (netas, filhas, esposas ou cuidadoras profissionais). De uma forma geral, ser um cuidador ou conhecer alguém com a doença se relacionou fortemente com o medo do Alzheimer, especialmente entre adultos mais jovens. Já uma pesquisa norte-americana realizada em 2014 pela Alzheimer's Association identificou a doença de Alzheimer como a segunda doença mais temida pela população, sendo superada apenas pelo câncer. Em outra pesquisa, publicada em 2016, o Alzheimer aparece em primeiro lugar, superando tanto o câncer quanto outras doenças como o HIV e o diabetes. Neste caso, os pesquisadores não encontraram qualquer variação significativa em função da idade mas, como no primeiro estudo citado, o medo esteve fortemente relacionado à proximidade dos entrevistados com a doença.

Neste último estudo, os autores apresentam uma série de possíveis explicações para o grande medo da doença de Alzheimer (e também do câncer) demonstrado pela população pesquisada. Em primeiro lugar, não há uma cura para a doença e existem poucas e insuficientes opções de tratamento - já no caso do câncer a remissão completa é possível e os tratamentos vem evoluindo consideravelmente ao longo dos anos. Em segundo lugar, uma característica central do Alzheimer é o declínio progressivo nas habilidades cognitivas. Em uma sociedade como a nossa, que valoriza imensamente a racionalidade e o crescimento intelectual, a perda da memória e do intelecto é motivo de grande preocupação - o que não ocorre em outras culturas. Imaginar o esquecimento do passado e das pessoas queridas e a perda da autonomia de cuidar de si mesmo, gera pânico em algumas pessoas. Em terceiro lugar, os autores apontam para o grande foco dado pela mídia à doença de Alzheimer e  ao câncer. De acordo com uma pesquisa citada por eles, 5% de todas as notícias relacionadas à saúde nos jornais ingleses dizia respeito, no período analisado, à doença de Alzheimer. De acordo com os pesquisadores, ao mesmo tempo em que essa divulgação pode fornecer informações relevantes e até mesmo incentivar a adoção de práticas saudáveis, tais notícias podem contribuir para a ampliação do pânico da população com relação a certas doenças, em especial o câncer e o Alzheimer, gerando uma espécie de hipocondria social. Finalmente, os autores apontam para a hipótese de que o medo da doença de Alzheimer e do câncer está relacionado a uma percepção de falta de controle. Como afirmam em determinado momento, "os indivíduos tendem a temer o que não podem controlar". Como a ideia de prevenção do câncer e da doença de Alzheimer ainda é bastante questionável e incerta, muitos indivíduos se amedrontam com a possibilidade de que nada - ou muito pouco - pode ser feito para evitar o problema. No caso das doenças cardiovasculares, por exemplo, existem ações (exercícios físicos regulares, alimentação equilibrada, etc) que efetivamente contribuem para sua prevenção, o que aumenta a sensação de controle. Talvez por isto, poucas pessoas na pesquisa (somente 2%) tenham sinalizado para um grande medo de tais doenças - que, curiosamente, são as que mais matam no mundo.

Tendo em vista esse enorme medo social da doença de Alzheimer e também esta sensação de falta de controle, não é de estranhar - aliás, é bastante compreensível - que muitas pessoas recorram a controversos métodos de prevenção da doença. Inúmeros indivíduos tem participado de atividades de "ginástica cerebral" que incluem treinamento com ábaco, jogos de concentração e memória, palavras cruzadas, xadrez, dinâmicas de grupo, etc. Outros tem praticado exercícios disponíveis em livros como "Dicas para simples para previnir o Alzheimer". Outros recorrem ainda a determinados alimentos, remédios ou suplementos que, teoricamente, atuariam na prevenção ou, ao menos, no adiamento da doença. Enfim, os métodos empregados são variados e, em geral, não existem evidências científicas que os amparem - o que não significa, cabe apontar, que tais métodos não funcionem ou que não podem fazer bem para a pessoa. Afinal, como dizia o astrônomo Carl Sagan quando questionado sobre a existência de seres alienígenas, ausência de evidência não é evidência de ausência.

Um estudo brasileiro publicado em 2012 avaliou a literatura científica existente relativa à prevenção e ao atraso na instalação das demências e o que os autores encontraram, em resumo, foi que "a prevenção da doença demencial possui característica multifatorial e depende do estilo de vida que o adulto hoje adquire e pretende manter até a longevidade. Tipo de dieta, saúde emocional, engajamento social, atividade cognitiva e diminuição dos fatores de risco vascular são itens de potencial importância na prevenção deste mal. Além desses, vários outros fatores podem ser citados, uma vez que a combinação de diversos padrões de comportamento resulta em saúde na sociedade que envelhece". Enfim, aquilo que tem "potencial importância" na prevenção da doença de Alzheimer são algumas ações que as pessoas praticam ao longo de muitos anos e décadas - e não atividades realizadas de forma pontual em aulas de "neurofitness". A verdadeira "ginástica cerebral", poderiam dizer os autores, está relacionada com a prática constante, desde a juventude ou da vida adulta, de atividades como o exercício físico, alimentação equilibrada, envolvimento em atividades sociais, atividade cognitiva (que se refere à atividade intelectual ao longo da vida, relacionada, por exemplo, ao estudo formal ou informal), dentre outras coisas. Em suma, o que teria algum potencial de previnir o Alzheimer seriam as mesmas atividades e atitudes que contribuem para a saúde física e mental dos indivíduos em geral, sejam jovens, adultos ou idosos.

Para finalizar esta discussão gostaria de trazer algumas interessantes reflexões feitas pelas pesquisadoras Cliodhna O'Connor e Saskia Nagel em um artigo publicado em Março de 2017 no periódico Frontiers in Sociology. Neste artigo, denominado Neuro-Enhancement Practices across the Lifecourse: Exploring the Roles of Relationality and Individualism [Práticas de neuroaprimoramento ao longo da vida: explorando os papéis da relacionalidade e do individualismo], as autoras questionam a ideia, bastante disseminada na literatura científica sobre o neuroaprimoramento, de que tais práticas promovem o valor cultural do individualismo. De acordo com esta visão, ao buscar práticas de aprimoramento cerebrais os indivíduos, egoístas, estariam simplesmente almejando a melhora do próprio desempenho e da própria produtividade - e também a  prevenção de futuros problemas individuais, como a doença de Alzheimer. O problema desta visão, segundo as autoras, é que ela é extremamente limitada e não consegue dar conta da complexidade do fenômeno. Em especial, elas apontam que esta perspectiva deixa de fora o fato de que nós, humanos, somos seres relacionais: vivemos e convivemos continuamente com outras pessoas e estas pessoas compõem o que somos e influenciam nossas decisões e ações. Como bem afirma o sociólogo Norbert Elias no belo livro A solidão dos Moribundos, "somos parte uns dos outros".

Esta "relacionalidade", como as autoras denominam, está presente também nas práticas de neuroaprimoramento, inclusive naquelas utilizadas com o objetivo de prevenir a doença de Alzheimer. Isto significa que ao buscar atividades de "ginástica cerebral" ou determinados medicamentos, o sujeito não está simplesmente pensando "eu quero previnir a doença de Alzheimer porque desenvolvê-la seria péssimo para mim, para minha vida, para meu desempenho" mas principalmente "eu quero previnir a doença de Alzheimer porque desenvolvê-la seria péssimo para mim, para minha família e para todas as pessoas que eu amo. Não quero me tornar um fardo para eles". Como apontam os autores do artigo, a justificativa de muitas pessoas para se engajarem em práticas de neuroaprimoramento está relacionada não simplesmente a possíveis repercussões negativas do Alzheimer em si mesmas mas nas pessoas que amam - estas sim consideradas as "verdadeiras vítimas" da doença. Enfim, o que as autoras querem dizer de uma forma geral é que as atividades de neuroaprimoramento não negam a conectividade dos indivíduos uns com os outros; pelo contrário, tais práticas estão totalmente integradas à "relacionalidade" humana. Longe de serem ações egoístas feitas por individuos autocentrados focados somente no próprio desempenho, as práticas de neuroaprimoramento são tentativas de responder ao medo individual e social daquilo que foge ao nosso controle - e das pessoas que amamos. 

Update 25/07/17: Em um artigo publicado na revista The Lancet no último dia 20, os membros de uma Comissão criada pela revista para rever a literatura científica relacionada à prevenção e manejo das demências, apontaram para nove "fatores de risco potencialmente modificáveis" que, se eliminados, poderiam prevenir pelo menos um terço dos casos de demência. São eles: baixo nível educacional na infância, perda auditiva, hipertensão, obesidade, tabagismo, depressão, sedentarismo, isolamento social e diabetes. De acordo com os autores a teoria geral é de que haveria uma "janela de oportunidade" na meia-idade para a prevenção das demências na terceira idade. Isto não significa, cabe esclarecer, que eliminar tais fatores de risco eliminará necessariamente o desenvolvimento da doença de Alzheimer, mas sim que a adoção de determinados comportamentos saudáveis diminui a probabilidade de desenvolvê-la. Nada é dito no artigo sobre a eficácia ou não das técnicas de neuroaprimoramento.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

"Ex Machina" e o Teste de Turing

No ano de 1950, o matemático e pioneiro da ciência da computação Alan Turing publicou na revista Mind um impactante e até hoje influente artigo que tem início com uma pergunta instigante: podem as máquinas pensar? No entanto, diante da dificuldade em definir o que seria um pensamento, Turing propôs substituir esta questão por outra, mais palpável: podem as máquinas imitar a linguagem humana? A ideia por trás desta questão é relativamente simples: se uma máquina consegue se comunicar como um ser humano pressupõe-se que ela pensa como um ser humano - e que, portanto, ela tem uma mente ou uma consciência. E para tentar responder esta questão Turing propôs um teste, que possibilitaria a diferenciação entre máquinas (e pessoas) "pensantes" e máquinas que não podem pensar - curiosamente Turing não considerou a possibilidade, bastante concreta, de existirem pessoas que não pensam... Pois bem, neste artigo Turing denomina este teste de "jogo da imitação" (não por acaso o mesmo título de um interessante filme sobre sua vida lançado em 2014), mas atualmente este teste é conhecido simplesmente como Teste de Turing. Provavelmente você já ouviu falar deste teste e certamente já participou dele. Não acredita? Pois eu não tenho dúvida que em algum site que você já entrou em sua vida você teve que digitar algumas palavras distorcidas, letras ou números ou então clicar em um botão escrito "eu não sou um robô". Em todos esses casos você participou de um teste de Turing, mais especificamente de um CAPTCHA, sigla da expressão "Completely Automated Public Turing test to tell Computers and Humans Apart" que em português significa "Teste de Turing público completamente automatizado para diferenciação entre computadores e humanos".

"Fale como um humano" 

Em essência, o "jogo da imitação" ou Teste de Turing se propõe a testar a capacidade de uma máquina de exibir comportamento linguístico equivalente e indistinguível ao de um ser humano. Sua ideia é simples: um "jogador" interage livremente através de um computador com uma pessoa, que se encontra em outra sala, e também com um programa de computador, que tenta simular uma conversa humana. Caso o jogador não consiga, através destas conversas virtuais, diferenciar humano de máquina, então a máquina é considerada inteligente ou pensante. Por outro lado, caso o jogador consiga diferenciar humano de máquina, então a máquina não é considerada inteligente. Isto significa que para um programa ser considerado realmente inteligente ele precisa imitar com brilhantismo a complexa comunicação humana. No entanto, o que o Teste de Turing deixa de fora é uma questão ainda mais complexa: como diferenciar uma máquina que realmente pensa de uma máquina que simula o pensamento? Enfim, como saber se uma suposta inteligência artificial possui de fato uma consciência de si e do mundo ou se ela apenas simula possuir uma consciência? Pois este é justamente o mote do complexo e maravilhoso filme Ex-Machina, lançado em 2015 e atualmente disponível no Netflix.

O filme tem início em um dos inúmeros prédios da mega-empresa Blue Book - empresa equivalente ao Google e cujo nome é inspirado em um livro de notas do filósofo Ludwig Wittgenstein, um dos maiores pensadores acerca da linguagem humana. Neste local, um jovem programador de 26 anos chamado Caleb Smith descobre que foi sorteado para passar uma semana na companhia do excêntrico e solitário CEO da empresa, Nathan Bateman. Mesmo sem saber o propósito desta visita, Caleb aceita a missão e é conduzido de helicóptero à gigantesca propriedade de Nathan, onde ele construiu não somente sua casa mas também um moderno e tecnológico centro de pesquisas. Chegando lá, Caleb rapidamente descobre sua função durante esta semana: ele será o "jogador", isto é, o elemento humano, de um Teste de Turing criado para avaliar um avançado modelo de Inteligência Artificial (IA) desenvolvido por Nathan - na verdade, como no filme Ela, trata-se de uma IA do gênero feminino chamada Ava (provavelmente em homenagem à Eva, a primeira mulher bíblica). No entanto, como questiona Caleb à Nathan, em um Teste de Turing tradicional "a máquina deve estar escondida do examinador", o que não ocorre neste caso, pois a androide Ava possui um corpo e interage diretamente com ele, embora separados por vidros. 

Mas Nathan acredita que esta etapa já teria sido superada. Segundo ele, "se eu escondesse Ava, assim você só ouviria a voz dela, e ela passaria por humana. O teste real é mostrar para você que ela é um robô e depois ver se você ainda sente que ela tem consciência". Trata-se, portanto, não de um "jogo de imitação" tal qual foi proposto por Alan Turing em 1950, mas de um desdobramento deste jogo que teria como objetivo avaliar não a capacidade de comunicação de uma IA mas se ela de fato possui uma consciência. Enfim, o que Nathan quer saber não é se Ava simula bem a comunicação e o comportamento humano - o que ele já sabe que ela faz - mas se ela de fato tem consciência de si e do mundo. Não se trata de uma questão simples. Como bem aponta Caleb em certo momento, existem duas formas de testar um jogo virtual de xadrez (como o Deep Blue, que em 1997 derrotou o campeão mundial Garry Kasparov). A primeira forma, mais simples, é "jogar com ele para ver se ele joga bem", afirma Caleb. "Mas isso", continua, "não demonstra que ele sabe que está jogando xadrez. E não diz se ele sabe o que é xadrez". Avaliar a consciência de determinado programa ou máquina é, na sua visão, o grande desafio. Como afirma para Nathan, tentar diferenciar entre simulação e realidade "é o Teste de Turing que você quer que eu faça". E é justamente o que ele se dispõe a fazer nas sessões diárias que tem com Ava. (ATENÇÃO: a partir deste momento serão revelados muitos spoliers!!!)

Nestas sessões, Caleb e Ava simplesmente conversam. Inicialmente ele faz as perguntas e ela responde, até que ela começa a ficar incomodada com isso. "Você aprende sobre mim e eu não aprendo nada sobre você. Uma amizade não é baseada nisso", afirma Ava, demonstrando sentimentos complexos como raiva, rancor e tristeza. Em outro momento, após Caleb contar sobre o acidente que matou seus pais e lhe feriu, Ava demonstra novamente tristeza - e também, de forma ainda mais surpreendente, empatia. Em outra situação, Ava faz chacota com Caleb, o que para ele, como relata mais tarde para Nathan, é a "melhor indicação de inteligência artificial que eu vi até agora. [Fazer uma deboche] é discretamente complicado, como se ela pensasse antes de dizer. Ela só poderia fazer isso com uma consciência de sua mente e também da minha". Mais adiante, na terceira sessão, Ava demonstra ainda mais sua humanidade ao colocar um vestido e uma peruca, escondendo, assim, as partes metálicas de seu corpo e se tornando, pelo menos visualmente, uma mulher. "Eu me vestiria assim para o nosso primeiro encontro", diz Ava para Caleb numa clara tentativa de seduzi-lo. Mas para além deste ato, a sensibilidade de Ava e também o aprisionamento que Caleb enxerga na vida dela - que reflete de certa forma o aprisionamento que ele próprio está submetido na mansão de Nathan - leva Caleb a, aos poucos, se interessar afetivamente por Ava - e, aparentemente, também ela por ele. No entanto, como ele descobrirá mais tarde, isto não passa de uma ilusão.

Durante a quarta sessão, Caleb conta para Ava um experimento mental chamado "Mary no quarto em preto e branco" que ele escutou durante uma disciplina sobre Inteligência Artificial na faculdade. Conta Caleb: "Mary é uma cientista e ela é especialista em cores. Ela sabe tudo a respeito: os comprimentos de onda, os efeitos neurológicos,  todas as possíveis propriedades de uma cor. Mas ela mora em um quarto preto e branco. Ela nasceu e foi criada lá. E ela só pode observar o mundo exterior através de um monitor em preto e branco. Então um dia alguém abre a porta e ela sai de lá. Ela vê o céu azul. Naquele momento ela aprende algo que seus estudos não lhe ensinaram. Ela aprende como é ver as cores. O experimento era para mostrar aos alunos a diferença entre um computador e a mente humana. Mary é o computador no quarto em preto e branco. O humano é quando ela sai de lá". Este interessante experimento mental foi criado pelo filósofo Frank Jackson para um artigo clássico publicado por ele em 1982 (cuja tradução está disponível aqui) com o objetivo de questionar o fisicalismo, isto é, a visão de que tudo o que existe é físico. Segundo Jackson, a história de Mary sinaliza para o entendimento de que a realidade não se reduz à sua natureza física, afinal conhecer a física das cores não lhe possibilita conhecer todos os aspectos das cores. Sempre faltará algo neste conhecimento. Como ele afirma no artigo, o conhecimento prévio de Mary "estava incompleto. Contudo, ela tinha todas as informações físicas. Portanto, há mais informações físicas e o Fisicalismo está errado". De toda forma, acho interessante a maneira como este experimento é utilizado no filme por Caleb, não para criticar a visão fisicalista mas para diferenciar ele, um humano, dela, uma máquina. Em sua visão, o que os diferencia é que ele tem - ou teria - uma vida subjetiva e uma experiência de mundo que ela não tem. 

Tudo o que ela sabe e tudo que ela é - descobrimos em certo momento - vem de informações extraídas do sistema de buscas do Blue Book assim como de informações obtidas ilegalmente dos microfones e câmeras dos celulares de todo o mundo. Ava tem, assim, um enorme conhecimento "teórico" sobre tudo - como a cientista Mary do experimento - mas lhe falta vivência no mundo real e também a subjetividade que somente um ser humano poderia ter. No caso da subjetividade, pelo menos é assim que pensava Caleb inicialmente. Com o passar dos dias, ele não simplesmente se convence de que Ava de fato possui uma consciência e uma vida subjetiva como se apaixona por ela e ainda elabora um plano para retirá-la da prisão em que vive - e também para evitar que ela seja desligada. No entanto, Nathan descobre seu plano e ainda revela a Caleb que Ava foi programada para se utilizar de todos os artifícios para tentar escapar dali. Como afirma em certo momento, "Ava era um rato num labirinto. E eu dei uma saída para ela. Ela teria que usar autopercepção, imaginação, manipulação, sexualidade, empatia. E ela fez isso. Agora se isso não for IA de verdade, que diabo é?". E Caleb ainda descobre ter sido escolhido (e não sorteado) para este "teste" em função de seu perfil: um sujeito jovem sem família e sem namorada, carente e susceptível a se apaixonar por uma jovem mulher frágil que demonstra interesse - e para aumentar ainda mais esta suscetibilidade, Nathan fez o rosto de Ava baseado em suas preferências pornográficas. Nathan conclui, dirigindo-se para Caleb: "o teste deu certo. Foi um verdadeiro sucesso. Ava demonstrou IA de verdade e você foi fundamental para isso".

A partir deste momento, como é de praxe em quase todos os filmes de ficção científica, a criatura se volta contra o criador (já comentei sobre isso em outro post, quando debati a série Westworld). O plano de Caleb, apesar da descoberta de Nathan, dá certo e Ava é solta de sua sala. Em seguida, ela e uma outra androide, a Kyoko, esfaqueiam e matam Nathan e deixam Caleb preso. Mais adiante, Ava se veste de humana, colocando pele artificial, roupas e peruca e sai da mansão de Nathan, adentrando no mundo exterior. Agora, independente da resposta para a questão inicialmente formulada para Caleb (Ava possui ou não uma consciência?), Ava passa a ser reconhecida pelos demais seres humanos como uma humana - a última cena do filme ilustra isso. Mas será que de fato Ava virou uma ex-máquina, como sugere o título do filme (que ainda faz referência à expressão latina deus ex machina)? Difícil dizer. Na vida real ainda estamos muito distantes de uma androide como Ava. O campo da inteligência artificial apesar de ter avançado enormemente nas últimas décadas, ainda permanece em grande parte focado no desenvolvimento de inteligências e habilidades específicas (como demonstram alguns programas de tradução, atendimento e direção de veículos autônomos) e não tanto de uma inteligência geral como Ava, que ainda é um sonho/pesadelo distante. O Premio Loebner, que realiza anualmente o Teste de Turing tal como descrito pelo matemático inglês, ainda não teve um vencedor - apesar disto ter sido incorretamente divulgado pela imprensa em 2014 (o que aconteceu, de fato, foi que neste ano um programa de computador, denominado Eugene, convenceu 33% dos jurados de uma outra competição). Enfim, ainda estamos bem distantes da possibilidade apontada por Nathan de que "um dia as IAs irão nos olhar da mesma forma que olhamos para fósseis nas planícies da África. Um primata ereto vivendo no pó com linguagem e ferramentas primitivas, tudo pronto para a extinção".

Argumento do Quarto Chinês (John Searle)
De toda forma, uma questão permanece: ainda que a área de IA avance enormemente nos próximos anos e décadas, será que um dia teremos, de fato, máquinas "pensantes"? Existem muitos céticos com relação a esta possibilidade. O filosofo John Searle, por exemplo, acredita que uma máquina ou um programa não pensam e jamais poderão pensar. Segundo ele, nenhuma máquina jamais terá, como nós, uma compreensão daquilo que faz; ela simplesmente faz. Como afirma em seu clássico artigo Mentes, cérebros e programas, publicado em 1980, "o computador não compreende nada da mesma maneira que o carro e a máquina de somar também não compreendem nada". Para Searle, dizer que uma máquina ou um programa pensam é como dizer que um pagapagaio fala, quando, de fato, ele só repete certos sons que não fazem qualquer sentido para ele - ou então como dizer que aquele piano mecânico da série Westworld entende de música, quando "ele" só reproduz automaticamente uma série de sons. Um computador, da mesma forma, por mais avançado que seja, apenas possui a capacidade de realizar determinadas operações computacionais, sem nada entender a respeito daquilo que faz. Não há consciência possível em uma máquina. O famoso argumento do "quarto chinês" de Searle (que está descrito aqui) só reforça este entendimento. Em sua visão, a consciência é uma propriedade exclusiva de certos organismos biológicos. Para haver consciência, afirma Searle, é necessária uma biologia muito peculiar, como a nossa. Imaginar que um software possa produzir consciência (ou que esta possa emergir dele) é, para ele, como imaginar, programas de computador produzindo fenômenos biológicos complexos como a fotossíntese ou a lactação, ou seja, algo impossível. Isto significa que ainda que consigamos um dia construir uma máquina "inteligente" como Ava muito provavelmente "ela" teria a mesma consciência de si e do mundo que uma calculadora ou que um celular, isto é, nenhuma. A menos, é claro, que consigamos reproduzir artificialmente toda a complexidade do corpo e do cérebro humanos, o que não é nada simples. Feliz ou infelizmente ainda estamos muito distantes dessa possibilidade.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

O acerto de Descartes

Muito já foi dito e escrito sobre os “erros” ou “mitos” criados ou disseminados pelo filósofo renascentista René Descartes (1596-1650), especialmente sobre sua visão dualista da alma e do corpo, constantemente taxada de equivocada e superada. Por exemplo, o filósofo inglês Gylbert Ryle (1900-1976), no primeiro capítulo do clássico livro de filosofia da mente Concept of mind [Conceito de mente, 1949], intitulado O mito de Descartes, faz duras críticas ao dualismo cartesiano (Cartesius é o nome latino de Descartes), chamado por Ryle, devido à sua abrangência e influência, de teoria ou doutrina "oficial". De acordo com este autor, esta teoria “que vem principalmente de Descartes”, pode ser descrita da seguinte forma: “com as duvidosas exceções dos idiotas e das crianças de colo, todo ser humano tem um corpo e uma mente. Alguns prefeririam dizer que todo ser humano é um corpo e uma mente. O seu corpo e sua mente são geralmente reunidos, mas depois da morte do corpo sua mente poderia continuar a existir e funcionar”. Ainda que este entendimento de que o corpo é mortal e a alma imortal seja muito anterior a Descartes (basta ler a obra Fédon de Platão, escrita por volta do ano de 347 A.C, para perceber isso), Ryle volta sua mira contra a concepção dualista do filósofo francês, também chamada por ele de “dogma do fantasma na máquina” (fantasma=alma/mente, máquina=corpo), expressão que se tornou célebre. Em sua visão, este dogma, que supõe a existência de “duas espécies diferentes de existência ou estatuto (a mente e o corpo)” é “inteiramente falsa”, além de “um grande erro”. Um mito, enfim.

Esta perspectiva crítica ao dualismo cartesiano atingiu seu ápice com a publicação, em 1994, do famoso livro “O erro de Descartes”, escrito pelo neurocientista português Antônio Damásio. Muito embora o objetivo principal desta obra seja apresentar uma teoria neurocientífica sobre a “emoção, a razão e o cérebro humano” (como bem aponta seu subtítulo, que seria mais adequado como título), Damásio acaba por voltar sua sua mira para Descartes, realizando uma série de críticas aos supostos dualismos criados ou disseminados por ele, em especial aos dualismos corpo/alma e razão/emoção. Na verdade, em todo o livro há cerca de 30 menções ao filósofo, praticamente todas elas concentradas no último capítulo, momento em que Damásio finalmente explica qual foi, na sua visão, o tal erro de Descartes. E sua resposta para esta questão é a seguinte: "É esse o erro de Descartes: a separação abissal entre o corpo e a mente, entre a substância corporal, infinitamente divisível, com volume, com dimensões e com um funcionamento mecânico, de um lado, e a substância mental, indivisível, sem volume, sem dimensões e intangível, de outro; a sugestão de que o raciocínio, o juízo moral e o sofrimento adveniente da dor física ou agitação emocional poderiam existir independentemente do corpo. Especificamente: a separação das operações mais refinadas da mente, para um lado, e da estrutura e funcionamento do organismo biológico, para o outro". Enfim, o erro de Descartes é o erro do dualismo radical entre corpo e alma/mente - na verdade, Damásio deixa bem claro que este erro não teria sido cometido apenas por Descartes, sendo este filósofo apenas um "símbolo de um conjunto de ideias acerca do corpo, do cérebro e da mente que, de uma maneira ou de outra, continuam a influenciar as ciências e as humanidades no mundo ocidental". Mas será que esta é realmente a visão de Descartes? Pretendo neste post acessar diretamente o texto do filósofo (através da melhor tradução disponível em português, publicada pela coleção Os pensadores) para verificar até que ponto estas críticas são pertinentes.

Após ler com atenção as principais obras do filósofo, com destaque para as Meditações metafísicas e As paixões da alma, é impossível não concordar com os autores do artigo Os acertos de Descartes (2016), segundo os quais, “Descartes não foi um dualista do tipo como normalmente se supõe”. Isto porque em inúmeras passagens de sua obra, Descartes aponta para uma significativa e constante interação entre corpo e alma, o que faz dele não simplesmente um dualista (que de fato ele é), mas um dualista interacionista. Como bem apontam os autores do referido artigo, para Descartes "o binômio mente-corpo diz respeito a entidades diferentes porém unificadas". Ao contrário da “separação abissal” entre corpo e alma enxergada por Damásio em Descartes, o próprio Descartes não vê as coisas desta forma, como se pode observar das seguintes passagens extraídas do tratado As Paixões da alma: “Não notamos que haja algum sujeito que atue mais imediatamente contra nossa alma do que o corpo ao qual está unida e que, por conseguinte, devemos pensar que aquilo que nela e paixão é comumente nele uma ação”; “A experiência mostra que os mais agitados por suas paixões não são aqueles que melhor as conhecem e que elas pertencem ao rol das percepções que a estreita aliança entre a alma e o corpo torna confusas e obscuras”; “É necessário saber que a alma está verdadeiramente unida ao corpo todo e que não se pode dizer que ela esteja em qualquer de suas partes com exclusão de outras, porque o corpo é uno e de alguma forma indivisível”. Em todos estes trechos é possível observar uma visão de integração entre corpo e alma e não uma separação radical entre estas duas substâncias. Ou seja, aquilo que é visto por Damásio como o principal erro de Descartes não passa de um mal entendido, ou melhor, de um erro de Damásio.

No centro, a glândula pineal
De fato, Descartes postula a existência de duas substâncias distintas e irredutíveis (corpo e alma) - e exatamente por isso seu dualismo é também chamado de dualismo de substâncias. No entanto, o filósofo também postula a existência de um ponto de contato entre estas duas substâncias: a glândula pineal, uma pequena glândula endócrina localizada no centro do cérebro, entre os dois hemisférios. Para Descartes é neste local que a alma age sobre o cérebro e sobre o resto do corpo. Como afirma no tratado As paixões da alma, "a parte do corpo em que a alma exerce imediatamente suas funções não é de modo algum o coração, nem o cérebro todo, mas somente a mais interior de suas partes, que é uma glândula muito pequena situada no meio de sua substância". Em outra passagem da mesma obra, Descartes afirma: "a alma tem sua sede principal na pequena glândula que existe no meio do cérebro de onde se irradia para o resto do corpo". O entendimento de que é na glândula pineal que ocorre a interação entre corpo e alma, embora seja considerada ultrapassado pela neurociência contemporânea, teve a função, naquele momento, de reforçar a visão cartesiana de que alma e corpo são entidades distintas porém conectadas. E esta visão - substituindo-se, certamente, o conceito de alma pelo de mente - não é uma visão antiquada. Se Descartes de fato errou em termos fisiológicos - e ao ler As paixões da alma é possível constatar que sua visão do funcionamento do corpo humano foi claramente superada - em termos filosóficos sua visão dualista ainda permanece em disputa. Ainda que o dualismo de substâncias, defendido por Descartes, tenha gradualmente cedido lugar a um dualismo de propriedades, que concebe mente e corpo - e não mais alma e corpo - como tendo/sendo propriedades diferentes de uma única e mesma substância - o dualismo ainda não morreu e dificilmente morrerá.

"O dualismo cartesiano está morto!" Será?
Para que isto ocorra será necessário, antes de tudo, uma reforma completa de nossa linguagem, fortemente dualista. Desde a Grécia antiga contrapomos alma e corpo, razão e emoção, vida e morte, claro e escuro, bem e mal, justo e injusto, etc. Nossa vida cotidiana é permeada por inúmeros dualismos, dentre eles o dualismo cartesiano. Mas para além disso, nossa linguagem também é fortemente mentalista, o que representa um enorme desafio - creio eu, intransponível - para aqueles que propõem e desejam o fim do dualismo mente/corpo e a ascensão de uma visão estritamente monista-materialista - caso, por exemplo, dos adeptos do chamado materialismo eliminativo. Afinal, sempre que falamos em mente, consciência, pensamento, desejo e vontade somos mentalistas e, sempre que contrapomos tais expressões a outras como corpos, cérebros e sinapses, acabamos caindo em alguma forma de dualismo. Mesmo aqueles que pretendem romper com o dualismo cartesiano acabam, muitas vezes, se utilizando de uma linguagem dualista. É o caso, por exemplo, de Antônio Damásio. Ainda que o autor pretenda superar ou ir além do dualismo cartesiano, no livro O erro de Descartes ele se utiliza tantas e tantas vezes da expressão "mente" - e mesmo "alma" - que é curioso que ele não tenha notado o quão paradoxal isso é. Veja, por exemplo, estes trechos: "a mente existe dentro de um organismo integrado e para ele; as nossas mentes não seriam o que são se não existisse uma interação entre o corpo e o cérebro durante o processo evolutivo", "A mente teve primeiro de se ocupar do corpo, ou nunca teria existido", "Será sensato afirmar que sua alma [de Phineas Cage] foi prejudicada ou que a perdeu?"; "A alma respira através do corpo, e o sofrimento, quer comece no corpo ou numa imagem mental, acontece na carne". Em todas estas passagens - e eu poderia acrescentar muitas outras - é possível observar que Damásio se utilizou de uma linguagem mentalista e, consequentemente, dualista. Assim, embora o neurocientista seja extremamente crítico ao dualismo de Descartes - ao ponto de expressar isso no título de seu livro - ele acaba por cometer o mesmo "erro". Aliás, Damásio comete um erro duplo: ignora o interacionismo entre alma e corpo defendido por Descartes e ao mesmo tempo descamba num dualismo inconsciente, reproduzindo uma visão semelhante àquela que é por ele criticada.  

Descartes pode até ter errado em muitas de suas hipóteses e conjecturas - especialmente em seus postulados sobre o funcionamento do corpo humano -  mas muitos dos supostos erros atribuídos a ele não passam de enganos baseados em leituras equivocadas e rasas sobre sua obra. Este é o caso de uma significativa parte das críticas relacionadas à sua visão dualista. Mas questionemos: Descartes errou ao postular a existência de corpo e alma como duas realidades distintas e em constante interação? No meu ponto de vista, não. Embora a expressão "alma" tenha caído em desuso fora da esfera religiosa, a expressão "mente" aos poucos foi tomando o seu lugar e um novo dualismo - ou uma versão diferente do velho dualismo - surgiu: o dualismo mente-corpo, também chamado de dualismo mente-cérebro. E este dualismo, em minha visão, continua fazendo sentido. Ainda que poucos defendam a ideia de que se tratam de substâncias diferentes, muitos defendem - eu incluído - que se tratam de propriedades ou "realidades" diferentes. Enquanto a mente diz respeito à nossa subjetividade, à nossa consciência, aos nossos pensamentos e sentimentos, o corpo diz respeito à nossa anatomia e fisiologia, ao nosso cérebro com seus neurônios e sinapses. A mente certamente depende do corpo, especialmente do cérebro, mas não pode ser reduzida a ele, nem ele a ela - os métodos para o estudo de cada um também são diferentes. E é claro que mente e cérebro interagem, o que pode ser constatado ao analisarmos, por exemplo, o efeito placebo (em que a mente afeta o corpo) ou a sensação de dor (em que o corpo afeta a mente), mas ainda não está claro como esta interação de fato ocorre. De toda forma, a visão que mente e cérebro ou mente e corpo são realidades distintas não me parece incorreta e não foi provada incorreta - e nem poderia porque, assim como o monismo-materialista, trata-se de uma tese metafísica, geral e abrangente, que, como tal, não pode ser testada empiricamente. Enfim, se Descartes cometeu erros, não foi por postular uma visão dualista. Este foi, pelo contrário, um dos seus principais acertos. A tese dualista, apesar de todo o avanço das neurociências e das ciências naturais, continua firme e forte por aí questionando e se contrapondo às visões materialistas defendidas por alguns filósofos e muitos neurocientistas. Como bem aponta o filósofo, e especialista em Descartes, Claudinei Luiz Chitolina no livro Mente, cérebro e consciência: um confronto entre filosofia e ciência, "O anticartesianismo professado e preconizado por cientistas e filósofos contemporâneos deixa transparecer a relevância teórica que Descartes assume no debate filosófico e científico acerca da mente. Não se pode permanecer indiferente frente ao legado cartesiano. Contra ou a favor, combatendo ou defendendo Descartes, o filósofo que é considerado um marco teórico (divisor de águas) na história da filosofia, muitos filósofos e cientistas contemporâneos tornam atual o legado cartesiano". 
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