quarta-feira, 16 de março de 2016

"Pilula revolucionária ativa 100% do seu cérebro": uma viagem pelo mundo da neuropicaretagem

Estava eu vagando pela internet, lendo uma notícia aleatória sobre a nova novela das nove (#quemnunca?), quando me deparei com uma imagem publicitária (veja ao lado) na qual o protagonista da série House exibe uma pílula colorida em sua lingua. O texto do anúncio apontava: "Sem limites: Método que turbina o Cérebro agora liberado no Brasil" - e logo abaixo deste texto vinha o site do suposto método: pilulainteligente.com. A referência ao filme Sem limites (no original Limitless, EUA, 2011) é evidente. Por sinal, você já viu este filme? Se não, assista-o agora - assim como ao filme Lucy (EUA, 2014) que trata, de certa forma, da mesma questão: a estimulação do(a) cérebro/mente por meio do uso de medicações/drogas. No filme Sem limites, Eddie Morra - interpretado pelo ator Bradley Cooper - é um escritor que sofre de um bloqueio criativo: ele simplesmente não consegue mais escrever. No entanto, sua situação muda radicalmente quando ele é apresentado, por intermédio de seu ex-cunhado (um "ex" traficante de drogas, agora funcionário de uma empresa farmacêutica), a um remédio revolucionário que permitiria o uso de 100% de sua capacidade cerebral. A partir de então, Eddie consegue não somente se concentrar e escrever, mas também passa a ter uma memória e uma inteligência muito superiores à maioria dos mortais. 

Já no filme Lucy, dirigido, escrito e produzido por Luc Besson, a atriz Scarlett Johansson interpreta a personagem-título, Lucy, uma mulher norte-americana que vive em Taiwan e que é obrigada, por uma série de motivos, a servir de "mula" para um poderoso mafioso local. O problema é que, em determinado momento, as cápsulas cheias de drogas que ela esconde em seu abdomen (na verdade trata-se de uma fictícia droga sintética chamada CPH4) se rompe, mas ela, ao contrário do que normalmente ocorre, não tem uma overdose nem morre. Pelo contrário, como aponta a página do Wikipedia do filme, ela desenvolve a partir de então capacidades físicas e mentais cada vez mais elevadas, como a telepatia, a telecinese, a eletrocinese, a absorção instantânea de conhecimento, a capacidade de viagem no tempo e inclusive a opção de sentir dor ou outros desconfortos físicos ou emocionais, além de outras habilidades. Lucy se torna, assim, supermegahiperpoderosa. Como aponta o cartaz do filme "uma pessoa normal usa 10% de sua capacidade cerebral. Ela vai atingir 100%". Não entrarei nas peculiaridades de cada filme, só gostaria de apontar que ambos disseminam as ideias, consideradas "neuromitos" pelos neurocientistas contemporâneos, 1) de que usamos cotidianamente somente uma pequena parte do nosso cérebro ou de nossas potencialidades  cerebrais (em geral fala-se em 10%) e 2) de que através de um correto treinamento ou do uso de determinadas medicações/drogas é possível ampliar e mesmo atingir o máximo das nossas capacidades cerebrais/mentais.

E é justamente este discurso e estas ideias que estão presentes no anúncio que comecei analisando neste post. Pois bem, assim que vi a propaganda do tal "método para turbinar o cérebro" resolvi clicar na imagem e ver para onde isto me levaria. E qual não foi minha surpresa ao descobrir que o anúncio me encaminhava não ao site de uma revolucionária "pílula da inteligência", mas ao portal de uma entidade educacional chamada Methodus - que promove uma série de cursos, como de Leitura Dinâmica, Oratória e Administração do tempo. E é aí que a ficha caiu. A propaganda desenvolvida por eles não tinha como objetivo vender uma pílula, mas atrair internautas desavisados, ingênuos e esperançosos para o site do sistema Methodus - que seria, ele próprio, o tal "método para turbinar o cérebro" (e não é curioso que o site oficial da entidade seja, de fato, pilulainteligente.com?). A estratégia deve ser bastante eficaz para capturar internautas pois este discurso da "pílula de turbinar o cérebro" é extremente sedutor. Afinal, que nunca se sentiu aquém de suas capacidades? Quem nunca teve dificuldade ao estudar ou escrever? Quem nunca se sentiu desanimado, desconcentrado ou com a memória muito aquém da desejada? Quem nunca se sentiu desmotivado, fatigado ou estressado? Aposto que todo mundo, em algum momento, se sentiu assim. Mas imagine que inventassem uma pílula que fizesse você se concentrar totalmente, que lhe permitisse memorizar as informações com maior facilidade, menos fadiga e estresse e que lhe possibilitasse, enfim, ler e escrever mais e melhor. Você pagaria por esta pílula? Aposto que ficaria no mínimo tentado a comprá-la, pois é bastante atraente, em geral, a ideia de que uma simples pílula, disponível ao alcance do seu bolso, poderia resolver todos os seus problemas e, quem sabe, te levar além, te fazendo ficar "mais do que bem", te transformando num superhomem ou numa supermulher - como ocorreu, nos filmes citados, com Eddie e Lucy.

E se tal remédio poderia te levar além, eu decidi ir também além neste universo das pílulas inteligentes. Há algum tempo eu já tinha visto outra propaganda - desta vez no Facebook - de uma pílula que seria capaz de "ativar 100% do seu cérebro". Autodenominada "viagra para o cérebro", tal pílula seria capaz de melhorar a concentração, a memória e até a inteligência de quem a tomasse, além de diminuir o stress e a fadiga - não seria o máximo? Decidi pesquisar no Google e descobri o nome deste "revolucionário" remédio: Neurofos (veja bem, não é neurofofos, o que seria bem fofo). Na verdade existem muitos outros remédios similares - ou idênticos, sei lá - mas com outros nomes: Focus-X, Genius-X, etc. Todos eles prometem a mesma coisa: um desempenho cerebral muito melhor. Mas nos foquemos inicialmente no Neurofos. Em um site dedicado a ele, em português, encontramos que a medicação conteria os seguintes ingredientes: Soja e peixe (?); Estereato de magnésio vegetal; Silicato de cálcio; Dióxido de silicone; Gelatina; Extrato de eleuthero; Ácido alfa-lipóico; Vitamina B12; Vitamina B6; Vitamina E. Não sou químico, mas pelo que vejo tal pílula "revolucionária" não passa de um complemento vitamínico, como muitos que já existem por aí. Mas porque este especialmente faria "bem ao cérebro"? A justificativa é de que o Neurofos conteria ingredientes que preencheriam algumas necessidades fundamentais do cérebro. Como é dito em outro momento no mesmo site, sua fórmula "altamente orgânica e 100% natural [Pausa para respiração... como assim altamente orgânica? Ou um produto é orgânico ou não é! E dizer que é 100% natural não seria redundante?] garante o progresso com relação à eficiência geral dos pensamentos". 

Mas uma medicação tão eficaz como essa certamente traria algum efeito colateral, não é mesmo (como todas as demais medicações existentes no mundo)? Pois a resposta neste caso é não. Segundo o site, o consumo de Neurofos não gera qualquer efeito colateral. Como aponta o site, "pesquisas indicam [mais uma pausa para respiração... que pesquisas, cara pálida? É muito fácil dizer que pesquisas ou estudos apontam qualquer coisa. Difícil é apontar quais pesquisas específicas que embasam sua afirmação] que as pessoas que testaram outros produtos sofreram de angústia, TDAH, problemas bipolares e muitas coisas do tipo. Mas, quando começaram a utilizar o Neurofos, não houve absolutamente nenhum efeito colateral". Curiosamente, em outro site - do mesmo remédio, agora vendido com outro nome - está escrito em letras miúdas e sem qualquer destaque que "assim como qualquer tipo suplemento alimentar, remédios e mesmo outros produtos (mesmo que naturais) podem haver riscos associados à sua utilização". Uai, mas tal produto não era isento de riscos e efeitos colaterais? É claro que não! Mas ignoremos isto por um instante e tentemos entender como um remédio tão fantástico como esse teria sido produzido. Segundo o site, ele foi criado em um "laboratório de ponta" sob a supervisão de uma "equipe de especialistas de vasta experiência e conhecimento". Esta busca por legitimação científica fica clara também em uma imagem utilizada pelos golpis...cientistas em outra peça publicitária na qual duas imagens de ressonância do cérebro são comparadas (veja acima), sendo uma anterior e outra posterior o uso do Neurofos - um detalhe importante é que a fonte da imagem é atribuída à uma certa "Unidade de Neurociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro", que efetivamente não existe - além disso, como descobriu o site E-farsas, as imagens se referem a um estudo sobre os efeitos no cérebro do uso de álcool). Por fim, é dito no site que o Neurofos  é vendido somente no site oficial e não em farmácias comuns porque "o laboratório tem dificuldades em atender a demanda atual". Ah tá! Não é porque o produto não foi aprovado pela Anvisa, não né? Em outro site, os vendedores deixam claro, nas mesmas letras miúdas apontadas acima, que "as declarações contidas neste documento são livres de avaliação pela Anvisa". Tudo isto está cheirando a golpe para você? E realmente é.

Na verdade parece tão óbvio que se trata de um golpe - da mesma forma que aquelas propagandas do tipo "Aumente o seu pênis agora" ou "Acabe com sua calvície em 30 dias" - que eu fico realmente impressionado de existirem pessoas que realmente acreditam em tais propagandas - e mais impressionado ainda que existam aquelas que efetivamente comprem tais produtos. No site Reclame aqui existem milhares de reclamações de compradores insatisfeitos com o Neurofos - veja algumas delas aqui. Muitas outras reclamações podem ser encontradas sobre o Focus-X e o Genius-X, que são na verdade o mesmo produto agora vendido com outros nomes. Neste link, por exemplo, é possível conhecer a história de um gari que, após começar a tomar a pílula Genius-X, acabou por tornar-se Técnico da Receita Federal. Linda história de superação, pena que não seja verdadeira. Como descobriu o site E-Farsas, na realidade o sujeito permanece trabalhando como gari e nunca tomou nenhuma medicação como essa. Ou seja, tudo não passa de uma grande mentira para enganar pessoas ingênuas e deslumbradas com tudo o que parece, mesmo que vagamente, científico. Trata-se de mais uma neurobobagem, como tantas que vemos por aí, que usam e abusam do discurso cientifico - especialmente do discurso neurocientífico - pois sabem o quanto ele é atrativo e sedutor. 

Dizer que algo foi comprovado pela neurociência ou que tal ou qual área do cérebro está envolvida no que quer que seja, torna qualquer notícia ou texto muito mais crível, como demonstrou a pesquisadora Deena Weisberg e sua equipe em um experimento clássico publicado em 2008 - denominado The seductive allure of neuroscience explanations [O fascínio sedutor das explicações neurocientíficas]. Neste experimento, a pesquisadora dividiu um grupo de pessoas em três grupos e deu para cada um deles a tarefa de ler algumas notícias e avaliar a qualidade delas. E o que ela encontrou, em síntese, foi que as notícias nas quais estavam incorporadas explicações neurocientíficas eram sistematicamente mais bem avaliadas, mesmo quando nada traziam de novo ou nada diziam efetivamente (por exemplo, dizer que uma determinada área do cérebro fica "ativa" quando o sujeito sente dor, nada diz sobre as causas ou motivos da dor, apenas aponta para os correlatos neurais, ou seja, para as "assinaturas neurais" da dor). Em outro experimento, o pesquisador David MacCabe e sua equipe demonstram o poder não das explicações, mas das imagens neurocientíficas criadas (sim, criadas, não são fotografias do cérebro) por equipamentos de ressonância magnética ou PET Scan - seu artigo se chama Seeing is believing: the effect of brain images on judgments of scientific reasoning [Ver é crer: o efeito de imagens cerebrais em juízos de raciocínio científico]. De forma semelhante ao experimento de Weisberg, as neuroimagens deram muito mais credibilidade aos textos e artigos científicos apresentados, mesmo quando, de fato, elas nada acrescentavam. Eis o poder sedutor e persuasivo das neuroimagens e do discurso neurocientífico...

Tudo isto aponta para o fato de que devemos ficar atentos e vigilantes com relação às "verdades" com que nos deparamos seja na vida real ou, cada vez mais, na vida virtual. Em algumas situações, o efeito colateral pode ser suave: você apenas acreditará em algo supostamente científico, mas que de cientifico nada tem - e eu nem acho que para ser bom ou útil algo deva ter necessariamente o aval da ciência, só acho que se algo não é baseado em pesquisas e estudos científicos, não devia fingir sê-lo. No entanto, tome especial cuidado quando quiserem lhe vender algo supostamente baseado em pesquisas neurocientíficas. Você pode achar que está adquirindo algo válido e útil quando, na verdade, você está apenas gastando dinheiro à toa. Fique atento, pois as neurobobagens e os neuropicaretas estão por toda parte...
Comentários
2 Comentários

2 comentários:

Ricardo Alves disse...

Eu so não entendo como é que o Ministério da Saúde tem conhecimento sobre isto e permite que estas coisas se propaguem na internet

Jackson Vieira disse...

Realmente Ricardo Alves,parece a Receita Federal que ficam na nossa cola e o político rouba e a Receita não vê nada.